O jazigo de meu pai tem cordilheiras que atravessam meu peito pela tarde e que inventam amarguras no meu riso e que gargalham no meu pranto quando tardo
o descanso do meu pai é óbvio nada lhe reclama o exercício de todos os seus ossos
o jazigo de meu pai tem bandeiras que tremulam no vão de minha face e que alcançam todas as palavras das nossas eternidades
o descanso do meu pai é vário ainda resta um interstício entre sua morte e meu abraço.
121
Poema ao inconstruído rio
eu te percebo rio pelo que contas de minhas veias e não importa que incolor exemplifiques o rubro dos meus medos toda tua trajetória é um desembocar inato do mar que trazemos no peito guardado a sete chaves
93
Poema ao falido rio
eu te percebo rio no correr das minhas veias e não importa que não o sangue seja o deslizar de tuas cheias
eu te concebo rio embora tu nem creias que um dia foste corrente de percorrer minhas veias
pois nem de águas tens a postura e a certeza de como te postas em vão atravessado na natureza
100
Poema ao catador de papéis
catas o lixo como te constatas ausência de tanta eficácia
carpes a vida intransformada repetição do que é tudo em nada
buscas as letras de verbos intransponíveis que nem precisam de olhos para serem lidos
fardos que sintas em tuas costas de consumir verbos que nem notas
e lavras o lixo em concordata numa digressão desmatemática.
100
Poema ao Camarada Maia no fragor da luta
quantos vulcões restarão na tua boca que ainda cuspirás a vida em tão extremo desconforto?
Assim renhido na batalha tanta quem adivinhar te possa a esperança?
És um infinitivo que ninguém alcança convulsa a realidade enrolada em suas tranças
90
Poema ao Camarada Armando Aranha
não é de tê-las, camarada, as razões, assim à pulso, porquanto não vivê-las, fosse a emoção melhor de uso, sob os céus de Caracas inventando com o povo o gesto básico da vida que é criar o novo;
não é de tê-las, camarada, as contradições, quase à deriva, no mar insurgente dessas gentes que teimam em construir a vida;
não é de tê-las, camarada, as soluções, assim tão postas, porquanto a prática é itinerário de quem se mostra;
não é de tê-la, camarada, a revolução, assim à gotas, porquanto a liberdade é tanta que apenas lutá-la é quase pouco quando se tem no coração, como no teu, a permanência do povo
ainda bem, camarada, que mesmo ausente, ainda tens na tua saudade um largo quê de presente; por isso ainda sobras pelo mundo com a certeza da vontade e da urgência da vida que cumpristes ainda jovem na proporção de tua coerência.
79
Poema à Ravenala Madagascariensis
assim, leque do mundo, nem imaginas o contraste de ti com minhas retinas
revoltas a ti mesma com a calma que anuncias e nem permites que o tempo traspasse o teu jeito de alegria
71
Poema à mulher da bunda grande
quando não és enches a rua de incertezas e nem meu peito acha de te perder na consciência
és uma crise alheia a vãos desejos e a exata incompreensão do que eu nem vejo
porque a lúdica simetria de tua glútea paisagem enseja a exata proporção de todas as miragens
e nesse escândalo de carnes que transitas na avenida nada do que é intransitivo cabe em tal medida
e o ritmo em que incendeias todas as vias e todas as veias constrange a compreensão de que nem és sereia
124
Poema à morte da última filha de Júlio
assim como te postas renhida a carne desabotoas o tempo no trânsito da tarde loucas as dessemelhanças que te puseram em século de desumanidades
e eis que foste trauma de músculos e vontades uma vaga impressão de que a vida vale aquilo em que se cabe
e travavas o dia como uma larga bolandeira que remisse os pecados das noites em que estejas
108
Poema ao meu povo em dias de premonição
há que vê-los joões cerzidos à parcimônia franzidos na consciência embutida em seus sonhos
há que vê-los aos risos nos prantos em que se lavam construindo as manhãs no desespero das tardes
há que vê-los transeuntes de sonhos tão alheios que entornam de suas mentes com a certeza de vivê-los
há que vê-los civis em militares continências brandindo a vida à pulso pelos vãos da inocência
há que vê-los marginais trazidos à coerência de lutar por algo tanto que a simples sobrevivência
há que vê-los indecisos nas certezas que navegam como se fossem de um mar que as ondas sempre lhes negam
há que vê-los urbanos nas suas rurais investiduras como se fossem os campos de sua eterna escravatura
há que vê-los incontidos nas desmedidas do tempo pelas certezas de que tudo caminha sempre aos ventos
há que vê-los em paciência nos horrores da batalha tangendo sua miséria com a urdidura da fala
há que vê-los resumidos num infinito incoerente que trava o jeito do mundo no peito aberto da gente
há que vê-los marias trançadas pelas lembranças das mulheres que apenas vigem nas dobras da esperança
há que vê-los imberbes na senectude da face meninos quase senis nos desvãos de sua idade
há que vê-los tão magros como interrogações urgentes como se ossos fossem razão de construir seus viventes
há que vê-los nas noites embutidos nas madrugadas como se a vida fosse um pingente que tramitasse no nada
há que vê-los condenados na alforria de todos como se toda liberdade fosse uma espécie de cobro
há que vê-los passados num futuro tão incômodo que pulsa pelos seus passos como um eterno retorno
há que vê-los alegres nessa exata pantomima que enche o andar da vida com os risos de quem caminha
há que vê-los materiais no imaterial desconforto de subverter o espírito nos combates do seu foro
há que vê-los absolvidos das sentenças mais incautas que julgam o raso dos homens com ganas de astronautas
há que vê-los reticentes na multidão de juízos que atropelam as gentes quando viver é preciso
há que vê-los combatentes nas guerras mais combatidas rasgando seu coração nos peitos das avenidas
há que vê-los senhores numa terra sem escravos como se fossem da praça os seus sonhos mais avaros
há que vê-los, enfim, libertos pela força dos seus pulsos nas praças em que o tempo tenha o povo como discurso.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.