A pipa que eu soltava era um sonho encabrestado tudo que era de mim voava tanto que meus olhos projetavam os futuros todos da vida embrulhados num jeito de passado.
Eu voava tanto que meu tempo criou asas.
156
Ode circunstancial e palestina
balas não desenham a tarde balas apenas descrevem a indignidade. balas não são balas apenas indicam uma morte desnecessária.
o menino envolto em balas é um dedo em riste na cara dos canalhas
o menino envolto em medos é um tempo de segredos.
o menino envolto em morte é a descontrução de sua sorte.
135
Ode cardíaca
I
nenhuma agulha nem eletrodo tal navegará meu coração em todo seu vau
porque de sê-lo assim às vezes e tanto magro ainda me baste a compleição de tê-lo sempre aos saltos
porque em sendo bólide de alada contextura possa dispo-lo à vida e à sofreguidão das ruas
nenhum doutor de tê-lo assim em mãos compreenderá suas esquinas com qualquer exatidão
porque em sendo bomba nem se lhe aquilate o conteúdo porquanto explodi-lo baste na compreensão do que me pude
e, ao invés, não seja de explosão tamanha como para guardá-lo intacto nalgum desvão da esperança
porque de tê-lo ao peito ajuize-se bandeira de afagar adredemente a extrema noite brasileira.
II
nenhuma agulha compreenderá minha mitral pois, válvula, não se diz de tanto como se fora descaminho tal em vão eletrônica não lhe cabe a compostura de esquadrinhar vãos alheios de complexa urdidura antes lhe sinta o caminho de parecer-se andadura de tudo que em meu peito afaga a estranha vazão da aventura.
97
ode aos meus possíveis adversários
ganhaste o jogo, em qualquer circunstância, não concorro
perco, até adredemente, pra me guardar em lutas que a história me consente.
100
Ode aos 54
aos 54 nada me convoca a não me sentir ausente da discórdia fluo impunemente pelos vincos da idade como um barco que ousasse todos os mares.
aos 54 permito-me a simplicidade de militar na vida com certa intimidade nada que não seja nunca e que só seja sempre quando tarde.
aos 54 desaviso-me das vaidades ainda que me seja franca a inexatidão da verdade e que navegue pelo peito a imensidão e a filosofia de todas as vontades.
aos 54 meço as minha réguas com a tranqüilidade de quem sabe todos as léguas em que se cabe.
aos 54 transijo com a vida ainda que não a compreenda como liça mas como um grande acordo que a natureza fez consigo
aos 54 palavras são um rito a não ser que o verbo seja pouco e tão restrito que nem o grito sobre nos ombros dos sentidos
54
Ode ao não-ser
minha paixão não permite que meu horizonte seja um dia posto em cabides minha paixão não admite que o inverso de mim seja somente o que não tive minha paixão não se permite ser um amor em tese impunemente indeciso minha paixão não se omite em ser da revolução até que deixe de ser triste.
69
Ode ao Cometa Halley
até que não cometas o incrível absurdo de refletir na tua cauda a palidez de nossos muros seguirás urgente em tanto espaço constrangido no brilho que discursas por ver os homens ainda consumidos na lavratura intensa do futuro
cometa, não comentas, nessa tua caminhada, os sóis que brilham no tempo nos passos dessa estrada.
63
Ode ao carnaval de Olinda
assim inventando a Ribeira o bloco nem tem enredo é um punhado de sonhos que caminha sem segredo na doce flauta do frevo no frevo incauto que vem rasgando assim a ladeira daquilo que não se tem e que se escreve nos passos e nos jeitos do coração como uma música infinita que coubesse na própria mão
não tem o sabor distante das coisas mais coerentes porque lhe falta ser rosa no peito desses viventes por condição de ser flor desapartada das gentes e que se queira mais povo de fervor mais consequente por se escrever pelas ruas com a história na frente
às vezes nem se pressente que o frevo é quase manhã é condição de ser nada é mansidão de ser tudo é urbe descompassada é Olinda passageira atravessada no mundo as ruas tremem na canção com a coerência de um grito e aninham a multidão
como um colo irrestrito é como se cada corpo com a intimidade precisa se entranhasse pelas ruas em todas as desmedidas
o povo dançando o tempo desgarra lá da Ribeira com a mesma força da vida que se compara à certeza de uma vida tão alegre apesar das correntezas dos rios que tangem todos no rumo exato do medo
e cada um quase encontra uma felicidade embutida nos quatro cantos que o mundo teimou em ser de Olinda e até parece que o frevo se engancha no coração e os pés escrevem nas ruas um quê de rebelião como se criasse a vida nas vidas que não se tem e permitisse que o homem deixasse de ser ninguém
e as ondas desse compasso na praça do jacaré são os bemóis desatados de tudo quanto se quer é o povo rompendo a rua com a força da sua dança como se fosse passeata em favor da esperança
e os que escutam Olinda tangidos por seu sorriso inventam uma verdade do tamanho desse grito que vige assim nas ladeiras e nos desvãos da cidade como se a vida fosse enfim um jeito da liberdade.
74
Ode adverbial ao orgulho
a visão me insta a ver meu filho como nauta navegador de mares que não posso consumidor de ares que me faltam.
e a emoção, de resto, é um grande porre de adrenalina pelo cérebro.
105
ode a minha mulher por culpa do seu não aniversário
rosas serão muitas as que nunca porei na tua nuca
rosas serão tantas as que engolirei em ti nas artimanhas da lembrança
flores serão todas de tudo que eu plantar em mim no jardim de tua boca
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.