as doses de mim que não consumo transitam frequentes em todos os rumos
minha direção é sempre aquilo que me lança na certeza de gente
viver é só um entalhe ao esculpir o presente.
73
Caminhares de verbos e anseios
hei de ser assim tão vasto contido nas dores do meu mundo e não sentir o pulso da cidade desabando do alto dos soluços quero permenecer inerte e fluir no tempo incomparado e fugir de todas minhas dores na parcimônia breve dos abraços quero me rebentar de luz embora a escuridão já me desarme e viver rompendo o véu das coisas e corromper os meus alardes e obstruir fartamente a ordem e ocupar cada vão do meu cansaço e repousar dos legítimos suores e perceber completa minha gente e empalmar minha alma como bólide na solidez incauta do presente com a objetividade da navalha abrir as sendas do pensamento e com a potência exata da alma construir um futuro que convença e nem por isso eu me caiba conhecido se há infinitas esquinas em cada curva do meu grito quero borbulhar na noite e sorver a placidez das praças e habitar as vilas do mundo com o pendor dos astronautas quero consumir o ardor das crianças de minha terra e debruçar-me nos seus risos e beber seus hálitos de américa
mas meu poema se dessangra rasga o verbo, urde a trama. meu verso quase é arma daquilo que proclama.
122
Balada ao menino da Etiópia
assim como um soluço cárneo de textura tão substantiva medes o pranto pelo teu crânio do tamanho de toda tua vida tens na palavra um verbo intransferível e a solução mais lógica do corpo é entornar os palmos de tristeza na cachoeira dos sentidos trazes nos olhos maravilhas mortiças aposentados quase da vida que não veem, apenas fingem fogem do corpo poses dilaceradas um negativo absoluto dos que te guardam na alma
teu valor de uso é um tanto inadequado antes te fizeram gente hoje te consentem gado
tua cabeça pesa um tanto dessa fome que esquadrinha o corpo e que te tem quase em condição de te aprovarem morto
mas por sobre tua fronte apontado no teu sonho há um desconforto enorme e almas sem tamanho.
115
Balada patriótica e arruamentos gerais
I
a patria não explica o jeito do amor nem a notícia
a patria apenas explicita nas esquinas do tempo os rigores da vida
a patria é em tudo a negação do mundo
a patria nunca está onde a quiseram fundar antes se exercita em transitar nos mapas indecisa
a patria, em verdade, é um futuro jacente que mais que geografia traz o peito da gente construído nos andaimes de todos que se apresentem
II
A patria é um riso invertido tudo que sorri é restrito e indiviso
só a patria é muito pouco para caber em si as léguas todas do povo.
185
Balada civil de contemporânea forma
mesmo cidadão ainda é pouco rasgar a lei do meu esforço
mesmo cidadão ainda é tanto subtrair a vontade do espanto
mesmo cidadão ainda é lógico arcar com o nada do meu ócio
mesmo cidadão ainda é falsa toda a exatidão da matemática
mesmo cidadão ainda é nua a rebelião que me construa
mesmo cidadão ainda caibo nos limites de tudo em que me calo
mesmo cidadão ainda falto nas noites que me envolvem como fardos
mesmo cidadão ainda trago nas esteiras das mãos o meu arado.
198
Balada aos estádios de minha patria
a multidão espremida e bruta engole os passos de boi no caminho da disputa
não uma luta precisa que se urdisse na classe mas uma batalha nervosa no vão da linha de passe
a fundam-se nas filas como bovinos transeuntes na parcimônia dos passos na pouquidão dos seus rumos
e urge o grito no bolso como um discurso escancarado destemperando essa fome que o povo leva aos estádios
e partem juntos os homens no enganoso mister de chutar a vida na bola de esmagar a fome nos pés
e mais o verde da grama pareça assim uma bandeira tanto mais o povo é chama de queimar a vida inteira
o campo parece um drama verdemente disfarçado e os gritos partem a tarde numa alegria magoada
e de repente o povo estaca engolindo a ilusão de que o gol explode nas caras igual à revolução
mas no firmar desse grito também existe a certeza de que a bola um dia escapa das bordas da natureza e explode um gol definitivo nos limites que o povo queira
e esse gol atravessado nas traves do mundo inteiro permitirá todos os passes nos gramados que se queira.
171
Baía da Traição
a baía amanha a praia com um gesto de navalha cospe a areia já prestante à luta como se fora garça paciência da desculpa e finge-se mar de vasta cabeleira renhidos os ombros das ondas pela tarde inteira
a baía bebe o chão como um gole compassado de rebelião e mansa arranha o vão de todos os calculos de sua insuspeita fração
a baía, assim urgente é quase um leão que tecesse na juba as tranças da solidão.
133
Do coletivo gosto das caminhadas
panorâmicos, nada nos convoca a termo-nos pelas janelas sem derrubarmos as portas
coletivos, nada nos importa senão o sonho conjunto de construir livres normas
a vida é só a grande passeata das liberdades que afloram.
106
Das configurações do viver
estar velho cedo quando tarde é brincar de anoitecer a liberdade é fingir-se de um tempo que entorna as manhãs como cachoeiras de saudade e derrama pelos ombros o peso exato da vontade
viver é só remar todos os mares que se sabe.
3 591
das inflorescências e tais
minha luz é só um recado que a vida me dá quando me invado
vivê-la é o exercício de tangê-la pelo mundo como fora bandeira hasteada em tudo
adiar sua chama nas encruzilhadas é afogar as fogueiras que se tem na alma.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.