Tudo em nós é flagrante: a vida sempre teima em ser avante.
Não que o sonho não possa ser a gesta de traçar um futuro em que coubesse.
É que ao tempo é dada a contradição de parecer um sim mesmo não.
É que se, às vezes, ao fim desborda do sentimento nada detém mais espaço que os alvoroços do tempo.
116
Da alma em retoques
A alma é só invólucro daquilo em que se cabe guardada a proporção das pretensas liberdades que a gente traz pelo peito e, às vezes, nem sabe
e vige enquanto perdura o gosto infante da alegria no riso que a gente tange pelos ombros da avenida construindo com irmãos as lutas todas as vida
a alma é só um detalhe da singularidade coletiva.
133
Da vida e homem
A vida é piracema desregrada em rios de tão vasta andadura que é preciso tê-los quase à pulso nas dimensões de sua escravatura
porque ao homem cabe o exercício de amoldar-se à condição de pedra quando não mais lhe ature a razão de se compreender somente em guerra
e é difícil vive-la assim à muque e constragê-la a inventar a tarde quando a noite inventa os seus ossos apartada do vão da liberdade.
117
Dos trilhos em razão do maquinista
O maquinista nem cogita de viver dos trilhos da vida
antes habilita-se a tanger no trem todas suas lidas
e culpas não agita nas bandeiras do peito em que acredita
o maquinista nem pressente que leva nos trilhos os sonhos das gentes
para si adredemente sonha apenas as locomotivas do que sente.
164
Poema ambiental
Toda árvore acima de tudo é uma bandeira hasteada no peito urgente do mundo
e assim tremulando é uma cachoeira latente que inventa a vida do povo nos pulnões que se consentem em ser fábricas de risos nas matas todas da gente
toda árvore, em suma, é uma súmula cogente.
154
Da solidão em grave lema
Destravo a solidão pelos caminhos como quem soletra a vida no desvão dos versos é que me consola a permanente desconstrução dos velhos gestos e a intemporalidade das infindáveis manhãs de todos os meus credos
destravo a solidão como quem descobre que a intimidade de mim é um pássaro adrede que se constrói por sobre os medos e a infinita vontade de tê-los
destravo a solidão na permanência intacta de que todos meus complexos morrem pelas praças e na constatação de que a vida nem sempre é matemática antes sobre-lhe um jeito de parecer-se tática quando o avesso de mim me desacata
destravo a solidão em todas as desoras pela simples compreensão de que a vida não demora
96
Do viver em trânsito
A vida não é estribilho há de haver vínculos em todos os trilhos é como se fora canção de todos os ritmos há que fazê-los próprios para dizê-los vivos
vive-la é só uma trança que se faz pelos sentidos.
100
Carta XVII ao Camarada Gregório Bezerra
Gregório deitado no meio da sala tem a altura exata de uma grande palavra
seu sangue ao invés de rio é uma espada latente no seu peito frio
Gragório deitado não é morto é apenas a maior parte do rosto do povo.
234
Palavras a George Floyd
A garganta inventa na palavra uma bandeira negra desfraldada
a garganta respira o mundo com a força da paz e a certeza de tudo
e o tempo grávido de povo aponta a trilha de inventar o novo.
130
Da vida
Da vida viva o tanto de vive-la não tanto que nunca falte não pouco que nunca seja pois contê-la, assim, farta e avara, é a exata proporção de merecê-la.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.