nos dias em que morro nem pressinto o quanto de vida houve nesse labirinto
antes a repasso como complacência para que a morte enfim nunca me convença
e se não a aquilato ou revelo seu jeito é que é mais fácil morrer com vida no peito
111
Ode à pequena Ana
Ana é lógico que entre tuas tranças mora o ócio e que são cabelos como impostos na vida infante que suportas e jazem no dia como óbvios apesar das armarguras que te informam
133
De Nínive em mísseis e história
o míssil arquiteta por sobre Nínive uma reta ângulo tenaz e reticente como se fora esquina do coração da gente e lança-se fulvo em eletrônica voragem e nem se pergunta da vida como há de
Nínive, assim deitada, é, no deserto de si, uma quase paisagem rouca arquitetura de ingente norma Nínive não comenta apenas informa
e na cabeça do míssil afoga-se como uma rosa que explodisse súbito no rio da história.
100
Ode aos serventes de pedreiro de meu país
quem levará esses homens que abrem com o corpo a madrugada e que bem antes de amanhecer amanhecem a pulso essa cidade? o que os guiará nessa lavratura intensa que a cada passo não se esgota e que a cada pranto a vida nunca convença? que naves levarão dentro do peito enfunados, assim, diariamente que os faz engolirem como contentes os metros de desgraça à sua frente? em que esquinas esconderão seus risos arqueados assim sob o peso dos edifícios
talvez não sejam tão crianças quanto o limite dos seus corpos dizem mas que tragam pedaços de esperança que escondem dos olhos das crises
quem levará esses homens que rasgando a face da manhã como ofício transferem o futuro dos seus corpos para a fachada desses edifícios?
que tempo beberá seus anos sobre a sombra intransigente dos andaimes? quantos afetos ainda boiarão na liquidez de sua humanidade?
111
Canção dos heróis assassinados
ora joões ora severinos construiam essa manhã que hoje rondam o Brasil como destino tinham várias faces mas um só sentido o de beber a pátria a cada gole ou de beber no povo seu partido
ora joões ora severinos e augustos traziam o futuro embrulhado na ponta de seus discursos e teciam a revolução como uma grande bolandeira atravessada nos peitos do Brasil como oficina de uma vida inteira
eram joões ora severinos disfarçados na grávida noite de amor da clandestinidade
e foram subtraídos na moenda da tortura e seus verbos fizeram-se sangue e seus risos engoliram murros foram eletrocutados e vazados em cada poro e morreram léguas de mortes e viveram quilos de nojo
oram joões oram severinos a oração precisa que canta nos quilometros da pátria que nunca mataram esses Lamarcas e Marighellas, e Capivaras, e Davis e Honestinos eles vivem na aurora exata em que o braço do povo em riste arranca do útero da América o futuro Brasil socialista.
118
Poema à transeunte
a mulher tinha nos olhos punhados de felicidade e poucas eram as sentinelas que punha em seus olhares e assim, a pouco e pouco, eu a vi derramar-se pela avenida como uma bandeira escancarada do tamanho largo de toda sua vida
120
em direções e laços
a bússola é incoerente pois nunca aponta o norte que se traz dentro da gente
o sentido que aponta é empre tão exato que não cabe dentro do peito ou na sola dos sapatos
e nesse conselho que traça como irremediável ofício não tem ainda a precisa candura dos humanos exercícios
101
Do comprimento dos mortos
os mortos de minha vida tem léguas de sentimento que é difícil arrumá-los todos no exíguo espaço do peito
113
Itinerário da URSS, com piracema implícita e outras impressões
I
desde Kurkino meu olho me dizia que a felicidade congelava como o dia Moscou, indormida, nem era tanta que não fosse lógica da esperança colher futuros era apenas serventia dos prazeres que a vida sempre urdia e se roubava o céu o jato nem mentia aos que dos olhos cobravam a rapidez da alegria Moscou, em inverno posta, era um iceberg vagando em todas as minhas portas
II
Mikhail trazia Moscou na algibeira e a desmontava em verbos pela noite inteira e os cachos de sonho que empilhava na mesa tinham um gosto de futuro e alguma coisa de cerveja
Mikhail, em continência, era uma bandeira empalmando a vida com íntima certeza
III
desde Vyborg rugia o exercício de estar com a alma em constante comício
Leningrado deitada ao Neva era uma saudade estendida no peito das pedras eram-lhe íntimos os francos motivos que as ondas dão ao mar quando em seu ofício
de repente, a catedral de Santo Isaac arrepiou-se de fé nem quase exata de sua porta como uma ave voou a pássara manhã de tanta tarde
por dentro do Smolny em corredores afeito singra o sentimento a franja incauta do peito e descabela-se a razão numa fração desconforme em que o numerador é o mundo e a divisão é a sorte
IV
Em Kiev a pátria anuncia que a noite é, apenas, disfarce do dia
deitada de bruços a Ucrânia é serventia de qual cidadão permita urdir-se em alegria
Tchernovitsy alinha as horas na quântica feição da tarde e nem se teima universo porquanto basta-se cidade não dessas baldias que nem se chegam à vontade mas uma urbana atitude de campos desregrados
Tchernobil ainda vige no coração do seu átomo como uma química vontade que em cada cidadão ainda cabe
V
e meus moldavos sentimentos eram contraponto do espaço quem em mim a Moldávia urdia retirante quase de meus passos
o trem solfejava o caminho numa lauta liberdade e a Moldávia era um campo arquivada alma das cidades
VI
O Rio Prut lambia os beiços da Ucrânia em vão incontrolada e eu nem sentia a dor da brasileira trama em mim gravada
VII
Mikhail Egorovitch carpia verbos como quem roesse as lágrimas do universo
tinha a compleição de um exato camarada e o pranto fácil de quem costura a alma
Mikhail Egorovitch era tanto e pouco espargindo pelos corredores todo seu esforço
o partido em si vigia como uma nave desgarrada nos mares que seu verbo teimava em molhar de alma
VIII
em Kurkino o sol é lâmina de cortar o todo gelo que é sempre chama
a neve na vidraça é uma felicidade idônea que nem consegue gelar o coração em chamas
IX
Wladimir em sono é uma morte acampada nas cabanas dos Haslivs que se tem na alma
Wladimir deitado é bandeira consumida de tanto drapejar nos ventos que se tem na vida
Wladimir é um eletron e uma saudade infanta na grave química da pátria em que se derrama.
104
Dos avessos de mim em trânsito
meu avesso é o esforço de parecer em mim tudo do outro
o próximo é o vínculo entre o que sou e o que sinto
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.