AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
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Marítima alusão da vida

no convés de mim
singro minhas águas
as que fluem do riso
as que nadam as lágrimas
quase todas resumidas
nas correntezas que lavro

atravessar-me,
nos mares que componho,
é navegar em mim
os barcos que sonho

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Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

526

Olga Benário em rápida preleção

Olga
tinha nas faces
todas as verdades
em que lutasse

íntima do futuro
discursava a luta
como um verbo farto
livre e sem culpas

e num abril
morta em sua carne
deixou-se pela história
como uma grande nave

Olga era um rompante da vida
em sua grave humanidade
150

Leituras da vida em regras literárias

e de ler-se a vida
em cada dia como página
traga-se como rasgada
a dos destemperos da alma

siga folheando
com a vontade nas costas
e consumindo-se farto
nos calcanhares das horas

e nesse folhear
resgate-se a esperança
de escrever-se futuro
nos passados que alcance
94

Do morto em indolores torturas

a morte
escapa do porto
no espaço biológico
do morto

no navio
insurgente
o torturador mergulha
os restos de gente

e a vida segue
decadente
até que uma quilha
arrebente 
106

Ravel em bemóis de garças esvoaçantes

Ravel
desafia o destino
nas notas que repete
como um labirinto

e desacata o ritmo
com a sofreguidão intacta
de todos os bemóis
que alinhavam sua pauta

e o bolero
ressoa no horizonte
como uma garça introvertida
que tenta, aos poucos, no seu voo
voar todos os ares da vida
41

João Sebastião Bach, camponês de pautas

Bach
bastava-se nas notas
como um camponês errante
nos roçados da pauta
e tangia bemóis
como um astronauta
que tocasse no cosmos
os sinos da alma

João Sebastião
nem percebia
que a música, eterna,
jorrava pelos dias
e jogava-se nos tempos
como ventania

e ao fundo, transitava as mágoas
como um leirão de todos seus roçados
49

Chopin em degraus e enchentes

Chopin criando
no meio dos tons
tece palavras e claves
nos ombros do som
e a música
drapejando nos ventos
desemboca lírica e lúdica
no pensamento
e o ouvido
dorme ternamente
e vira cachoeira
em nossa mente

a música é chicote manso
de tanger a gente.
60

Memorando ao trabalho

prezado senhor
ou suor agora
queira tomar meu corpo
como escola

e não me pare
enquanto a vida
correr no meu punho
pelas avenidas

e não me deixe
sobrar do povo
que do suor da luta
constroi o novo
97

Profissão de fé em rasgo intenso

mesmo que o chicote
corte-me toda a face
eu seguirei cantando
pois não sou um, sou vários
habitam em mim meus irmãos
e tudo que lhes cabe
e não será uma simples morte
que cortará esses meus passos
86

Da morte em circunlóquio

no cadáver
a paz existe
antes da matéria
posta em cabides
que fez-se assim velha
que cansou de ser triste

não dessas tristezas
que se jogam no lixo
mas a tristeza construída
dos ossos do ofício

uma pedra jogada
com rumo inconsciente
e que de paz somente guarda
um ato já ausente
110

Do grito em arrazoada messe

eu quero
que o grito
queira ser palavra
no comício

eu quero
que o grito
possa ser palavra
no infinito

e grita-lo sempre
no meio dos sentidos
104

Comentários (8)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado