agrária a vida permanece no leito moribundo de suas vestes
a terra assassinada perde seu jeito de ser estrada
até que um dia de repente o povo desarrume tudo que enfrente
140
Batalhas ensimesmadas com ligeiras fugas
quando estou já me sinto matéria e norma meus instintos
e digo-me repente na dor e na fuga e nas formas mais gerais dessa ditadura
e sou, com a faca nos dentes, a revolta do homem contra esses repentes
80
Poema à máquina datilográfica
a tecla tem a postura a mecânica e a forma das ditaduras
cada toque estrutura apenas o que máquina atura
urde a palavra invólucro de carne das sensações mais sentidas que o homem arme
e foge dos dedos às palavras mais cruas ungidas no medo dentro da máquina geral dessas ruas
102
Poema a José Deodato em calmaria andante
José Deodato era um herói singelo em tudo que não tinha deses heróis modernos que se vendem pela vida que se constroem lépidos
não fazia da anatomia seu ângulo mais externo pela simples razão dos quilos que arrumava no cérebro
e este vasto peso, quilos de sorrisos, caia de sua via no peito de seus amigos
e se algum dia chorou algum pranto fugitivo essa era a forma branda de acalmar os seus sorrisos.
107
Pequena história do meu país
burros de carga, cangas cio do futuro vermelhos mandacarus, réguas de prumo e a noite alinhando-se lenta na esquina transitória da tarde. Quem guardou o tempo no bolso? Dizei, camponês, para que não ardas nessa saudade intensa daquilo que não sabes. Era um dia um menino curvo turvo como sua fome e que tinha num desvão do peito uma semente curva de homem. Brancos acenos, velas de cera e o Amazonas debruçado chora essa noite brasileira. Quem regou os olhos dessas marias para que se desfizessem mansamente nessas léguas de pranto? Dizei, mulher, para que não caibas, assim impunemente, nessa lagoa rígida de sentimento. Travaram o dia com uma noite dentro.
62
Do poema em militância
que o poema se permita derramar-se farto na politica
e não se proste só nas formas num gotejar esnobe isento da história
é que a arte abarca o mundo e todas quantas peças debrucem sobre tudo
116
Famélica introspecção com ligeiros traços de fuga
quem me tirará da boca o gosto amargo da miséria? e essa cabeça que boia no juízo como uma balsa incompleta? quem mastigará o pão que cresce nas esquinas do tempo e que nas mãos soluçam como aves fartas? quem balançará nas redes que a alegria arma no peito das inconsequências? quem chorará os risos que do mais fundo surgem como palmeiras debruçadas nos ombros do mundo? quem amolgará tanta matéria nas pontas de rosas desses dedos que desabrocham as manhãs com a obesidade das circunstâncias? quem porá rédeas nas carnes para que elas não sufoquem os quilos mais tangidos da felicidade? em que horas mastigaremos as peças mais exaustas da angústia? quem soluçará por nós as horas passadas em desespero quando o riso escorre da boca com a mesma intimidade do medo? quem suspirará de saudade quando não mais restarem todas as chagas da cidade? quem, por fim, soletrará o meu discurso quando os pães soterrarem minha boca e a vida tornar-se um valor-de-uso?
161
Ode à mulher das esquinas
neste teu mercado de tão viva tecitura trazes o amor à tiracolo como te trazem à mão nas noites nuas e não te dizes tão noturna quando assim na cama despetalas as últimas frações de gente com que a vida te declara
e neste químico mister de tecer o amor em cada esquina coletivizas um prazer exato distribuindo em vão tuas albuminas é assim como um parto fictício das profundezas de tua sina
84
Pátria locução em transe e esperança
não! as manhãs não se cerraram o povo ainda é o norte mesmo quando as vozes calam
não! os sorrisos não murcharam ao contrário, vigem é que se fazem tímidos é que se fazem tristes na pouquidão humana dessa noite em riste
não! os amores não marcharam de dentro do peito como uma catapulta voam pelos soluços, à espreita, e brotam enormes na grande aurora brasileira
95
palavras à morte no cosmos
a ciência pulsa a nave nos gritos humanos do astronauta seu enorme braço de mecânica e fogo seu medo escondido no segredo do corpo eis o espaço pênis atômico de quanta certeza de parir ciência pela natureza
a construção morre no vão todo braço podre cava o chão e funde-se e resolve-se na composição urgente de sua negação e nega-se envolve-se de miasmas e pó um cadáver de astronauta cada vez maior e quanta morte no peso da inércia o nervo líquido achando-se matéria e átomos e antônimos e antes e anônimo
a máquina revolve a mágoa do astronauta líquido na praça e mágoa na máquina o botão calcado pelo astronauta e manhã nos boulevares nas barrigas urgentes de fome e de luz e o astronauta morto na cápsula comprimido no espaço das léguas da alma
a morte enfim na noite quântica e cósmica o eletron da vida fugindo das revoltas
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.