no comício o discurso escorria como uma cachoeira exata nas encostas do dia
em chapéus e palhas assim circunspectos os camponeses bebiam o grave manifesto
e, menino, no palanque inadimplente de tudo eu assistia a vida trafegar meus olhos pelo futuro
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palavras a Bebeto e Miriam Verbena, heróis do povo
o futuro atrás do muro espreita as razões dos seus discursos
o futuro em suas veias e sustos entornam a vida pelos viadutos
o futuro grávido das ausências enche de verdade tudo que se sente
o futuro simplesmente é um pedaço de vocês dentro da gente.
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Quadra conceitual de verbos e indícios
o poema é apenas o ofício de contrapor-se o verbo aos limites do infinito
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Da palavra em síndrome diversa
as palavras são pombas desarvoradas voadoras que enchem a balsa dos ouvidos e que se estraçalham pelas fendas do grito más navegantes enroscam-se no juízo e bocejam na língua um nó corrediço
e se às vezes fingem no seu sopro canoro outras vezes atrasam o dispêndio das horas
e ainda vigem desatentas nos atos falhos que explicitam e murcham no céu da boca as verdades escondidas
Palavras são pombas dos verbos todos da vida
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Tecituras da felicidade em humana gestão
tecer a felicidade é um mister que se aloja e que se sonha e que se sabe nalgum meandro da história
não tem a facilidade dos misteres mais pacatos que se alojam nos olhos ou na curva de algum braço
antes possuem a desfaçatez dos mistérios simplificados que, quando não são, são urgentes e quando existem são temporários
podem boiar no espaço de algum átomo distraído e podem conter-se nas léguas de todo um infinito
e repousa latente nas marcas do exercício do coração dessa gente que se presta a tal ofício
102
Dos ébrios encômios do ócio
no copo a cerveja é o invólucro das espumas que trago em meus ócios
é que tangê-los entre os goles é habitar os mundos em rotaçōes enormes
e no fundo do copo e das poses giro como um marciano à procura de luzes
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Carta XIV
meu poema não se acostuma a não ser alado e viver inerte embrulhado numa página
e se não se alça em exercícios celestes permanece impaciente nas parcimônias do verbo
e animal despede-se do dia sem alarde na incoerência gráfica e verbal de alguma tarde
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Carta XV
pus-me relativo diante da tarde e o tempo roeu os meus cabelos desfeita já em lua a mocidade e satélite de mim palmilhei o espaço entre a razão que me pungia homem e a facilidade infinda da vontade sorvi o meu país em grandes talagadas não soubera eu que me bebia inteiro na dessemelhança da idade hoje um pouco rarefeito pela tarde construo andaimes em mim mesmo para alcançar o grito da cidade
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Carta XXIX
se, por acaso, a dor não cumpra as razões que se saibam adversas muitas vezes queira converte-la no contrário que luta por vive-la
e na metamorfose agora do seu jeito possam os homens convencê-la de que a paz cabe nessa dor na proporção exata de conte-la
e da construção da nova forma engendrada no vão do exercício possa o homem convencer-se de que o amor é sobretudo um ofício
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Visões
dentro deste espelho no mais vão desta ruga a vida da-me um nó desde a ponta dos cabelos não que em minha face habitasse alguma morte antes que fosse uma dúvida com ares de derrota
mas subindo na garganta com a conjuntura de um grito ousou parir-se um gemido que antes de impertinente mais parecesse infindo e borrou minha cara de arquitetura ainda gente e num salto suicidou-se e a luta fez-se repente
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.