João Pedro em chuvoso afago
a chuva
debulhando a terra
chorava no roçado
nas sementes e nas pedras
o camponês,
chovendo seus olhos,
num imenso abraço
olhava a terra perfumada
no seu rural espalhafato
a vida molhada sorria
a largura imensa do fato
Das providências temporais em curso
o futuro ilude
todo ato que não pude
avesso a si
e à quietude
o tempo transborda
os atos letais
de sua juventude
e derrama, impúbere,
todas as rimas
que o poema larga
em suas latitudes
nesse conversar a vida
arma-se a cara do futuro
Poema a La Negra
da garganta
em súbito espanto
a voz monta no tempo
em latino canto
a América flutuando
em bemóis crescentes
inventa Mercedes sorrindo
no colo do continente
e assim indígena, passarinho,
negra e vivente
Mercedes Sosa é discurso
de tudo que se sente
Lembrança
a saudade,
como um grande laço,
é um gesto navegante
dos barcos do passado
nos mares que trazemos
como um grito represado
vive na lembrança
como um desacato
do futuro que se ausenta
do presente navegado
Das ausências pressentidas
deixo a tempo
todos os anseios
nas tardes que cumpro
as manhãs que esqueço
os vincos da memória
espalhados pela vida
arquitetam ausências
nas fugas que insistem
arquiva-las em ordem
como paradigmas
desconfortam o tempo
como tempero da vida
Da verdade em trajeto
a verdade
é plástica
deita na história
como prática
de um presente uno
de um futuro drástico
em que se esfuma
como histórico laço
relativa,
consolida o ato
de dizer-se absoluta
no tempo do fato
Do sertão corrente
sertão
de ser tanto
de ser sol
de ser manto
de cobrir o tempo
de cactos e espanto
da fome espraiada
pelos cantos
sertão
de ser trânsito e uso
de toda a paz
debruçada no futuro
poeta verbal em semântica tese
no poema
em trânsito recorrente
o poeta sonha
o que a palavra sente
bruto, em sua lavra,
o verbo admite
a onírica vontade
de quem lhe permite
o poeta é um verbo itinerante
que o verso, às vezes, admite
Do amor em larga senda
o amor
como produto
é usina do tempo
laivos do futuro
deitado na vida
rastro da natureza
deixa-se pelo homem
em consciência de si mesma
o amor é onda
de um mar constante
que atravessa as horas
como largo militante
construtor de sonhos
em todos seus levantes
Cena de infância
a lamparina,
sem espalhafato,
instaurava sombras
com seus fachos
o filho
envolto em mãe e sede
tentava furtar-se à fome
na parcimônia do leite
o mundo, constrangido
refletia-se em tudo
respirando inadimplente
os ares do latifúndio
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.