Das convulsōes matemáticas em aula posta
o número
envolto na lógica
tecia equações
à minha volta
a mente
esquadrinhando o tempo
revia na razão
seus contratempos
o caderno
inóspito
jazia deserto
no seu ócio
a matemática franzia o cenho
à espera de alguma porta
Da manutenção das horas
guardo o tempo
como um fardo
de tudo que vivo
quando me trago
e tenho lapsos
nessa contagem
das horas que guardo
como bagagem
vive-las tantas
como infindas
é deixa-las pelas ruas
nos ombros dos caminhos
Dos arcos do povo
o arco-íris,
escrito no vento,
parece assinatura
das léguas do tempo
flui nos olhos
como exata ponte
nas cores que lança
no horizonte
assim como um recado
ninguém sabe de onde
o arco do povo
inscrito nas ruas
é a assinatura civil
dos arco-íris da luta
Dos enredos da noite
a noite, imitando a vida,
subitamente declara
esse jeito manso da África
pelo vão da praça
o céu pinta todas as sombras
em construído aparato
como se fora o continente
jogado em seus traços
a noite teima em não deixar-se manhã
dormindo essa africana paisagem
e joga no peito dos homens
uma intensa ânsia de liberdade
Paisagem marinha
o pescador,
semeando a jangada,
planta um mar pela face
desdobrando a paisagem
as ondas, dançarinas,
no regaço das horas,
molham peixes e sonhos
no vão das demoras
as nuvens, tangendo o céu,
inventando telas,
montam todos os ventos
como para abraçar a vela
o pescador, grávido do tempo,
deixa a eternidade à espera
Do menino de Alepo
em Alepo, nos escombros
o menino carrega o futuro
abraçado nos sonhos
o choro é só o peso
das lágrimas como chafariz
de espantar o medo
nas ruínas de Alepo
o menino aponta a vida
como um largo enredo
que os homens estejam meninos
para borrar as tardes do cedo
do samba em passos e medidas
o sambista
pisando suas mágoas
enche o ritmo dos olhos
que inventa pelo asfalto
tece tambores oníricos
na marcação das batidas
e marca todos os agogos
das correntezas da vida
o sambista é só um transeunte
engravidando de rumo a avenida
Carnaval em pugna judicante
o carnaval
habita o juízo,
vara mental e judicial
de todos os desígnios
o habeas corpus
é rápido e preventivo
gestor da farta liberdade
da fruição dos sentidos
ao homem cabe viver
em calendário restrito
as absolviçōes terrenas
do peso dos conflitos
eis que em largas datas
não se alcança armistícios
rurais avisos das palavras
a traça ataca
o cerne da palavra
o poema lavra
o roçado do nada
gesto de verbo
como enxada
o poeta
camponês de si,
semeia a palavra
e sobe os leirōes
em que se basta
o poema em urbana coerência
deixa-se plantio em rural gramática
Vívida vazão da existência
a vida, às vezes,
é bólide
voa no tempo
às vezes, dorme
ventre de si
em parto e forma
de tanger-se outra
em suas normas
a vida é sempre
astronave e escola
nos quadros negros
e nas asas das horas
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.