Siá Luzia em revista
Siá Luzia
quando tricotava
tangia todos sonhos
nas agulhas que usava
seus olhos eram as vias
dessa onírica viagem
trançada na solidão
que invadia suas faces
Siá Luzia era um grito mudo
com todos seus disfarces
Fluviais andanças de mim
saio de mim
viajante sorrateiro
nas andanças alheias
em que passeio
corrente,
deixo-me rio,
nas cachoeiras que monto
com meu riso
desembocar num vasto estuário
é só um detalhe desse rito
Cicatriz em vias pensantes
a cicatriz,
pousada no tempo,
dói como um fato
no vão do pensamento
cava a consciência
como uma pá indormida
traçando as dores
na argamassa da vida
a cicatriz é só um gesto
da dor querendo despedida
indígena menção da vergonha
o yanomami, em ossos,
discursa a pele
como uma navalha magra
no punho da terra
carne
na pouquidão de ainda vida
escreve no tempo
uma vergonha infinita
da ação dos homens ruge
a suja condição de parasitas
Humana logística
eis a logística:
dar-se ao tempo
e trazer-se espaço
nos ombros da vida
nada que seja breve
deixe de dar-se longo
e flutue no pensamento
como um bumerangue
a idéia tange os atos
pelas esquinas do sangue
como um derramar-se exato
de quem sempre se tange
Culposa resenha em conceito
o martelo das culpas
esquece a vontade
de comete-las tantas
no vão da liberdade
as que sejam privadas
as que invadam a cidade
te-las em depósito
deitadas no desejo
é como eximir-se
nos desvãos do medo
a culpa é só um jeito tardio
de aprisionar o cedo
Da tristeza em privada posse
esse modo transverso
de fugir da mágoa
trai um simples gesto
em manifesto da alma
como se fora sujeito
urdido em sua fala:
a tristeza enfim
é propriedade avara
dá-se apenas por mim
quando o peito declara
deixa-la nadando em sorrisos
é trejeito de afoga-la
Neves do sertão em sol disposto
a neve,
gelando a escuridão,
tangia a noite de Kurkino
em grave imensidão
os olhos
tangidos pelo vento
jogavam a memória
ao encontro do tempo
no meio da Rússia, p(r)ensado,
um sertão rangia o pensamento
Frevo em trânsito corrente
o frevo
dá-se assim como vício
de escrever pelas pernas
o retrato do infinito
tangendo o povo na rua
nos bemóis que explicita
escreve um tempo de riso
no peito largo da vida
e nessa humana corrente
apressa o jeito de Olinda
Simbiótico panorama do tempo
o futuro,
debulhado do presente,
tem a marca do passado
que será futuramente
a simbiose
dessa gravidez histórica
é também o curso exato
das açōes e da memória
plantar futuros pela vida
é palmilhar todas as horas
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.