Lia de Itamaracá ciranda o tempo
Lia de Itamaracá
em seu alvoroço
espalha todas as Áfricas
nos passos do povo
preta, em sua luz,
nos gestos esconde
todos os faróis
que vigem nos homens
a ciranda inventa a paz
nos bemóis que instala
e enche o canto de todos
com os passos da alma
Do frevo em passeata
o frevo assim pelas ruas
é um compasso diferente
quando derrama seus bemóis
atiça a alma da gente,
espalha, assim, pelos passos
pedaços de quem lhe sente
o frevo é só um recado
do que a alma consente
Castrense artefato
a vida
é minha farda
não há, como vivo,
amarrota-la
afeita às marchas
nas vontades que abraço
a estrada é o quartel
em que desfilo meus passos
a continência é só um gesto
dado ao povo em manifesto
Mandamentos de mim
minha lei,
autocraticamente consentida,
determina todos os artigos
como criadores da vida
nos parágrafos
a vontade explicita
o transitar no tempo
em todas as léguas que consiga
nas alíneas,
sub-reptícias,
a tristeza é só um estopim
das alegrias que insistam
Das medidas em larga dispersão
debruçado no tempo
o espaço gravita
entre os minutos de si
e as léguas da vida
o homem dado aos dois
deixa o infinito p'ra depois
Da metáfora verbal do corpo
a palavra nunca silencia
presa, mesmo muda
joga-se nos gestos
que o corpo discursa
lança manifestos
em todas suas cores
e desembrulha verbos
no idioma das poses
o corpo é palavra vigente
de tudo que se foge
Marítima alusão da vida
no convés de mim
singro minhas águas
as que fluem do riso
as que nadam as lágrimas
quase todas resumidas
nas correntezas que lavro
atravessar-me,
nos mares que componho,
é navegar em mim
os barcos do que sonho
Relógio vital em gradativa senda
o ponteiro
andarilho displicente
nem se apercebe
das horas da gente
pulsa, delinquente,
matando minutos
dos muitos segundos
em que estamos de repente
e a vida, em ondas,
inventa o tempo
como uma corrente
que permite os futuros
que a vontade consente
Pequena paisagem noturna com nesgas da manhã
a noite tecia a madrugada
na varanda intensa do mundo
os homens dormiam a vida
abraçados aos sonhos de tudo
e, assim, alinhavando o dia
a natureza espalhava-se no tempo
deitada no colo do si mesma
como se abraçasse o firmamento
os ares revoltos pelas brisas
os galos, jornalistas da aurora,
adivinhando as luzes nascentes
cantavam as árias das horas
e eu, perdido em mim mesmo,
sonhando adredemente o futuro
deixava-me andante das estradas
nas costas dos sonhos em que durmo
Poeminha em descabida norma
o poema
não é um passeio
nas egóicas curvas
nem nos medos
a gramática e as regras
são apenas meios
de transitar a alma
em qualquer freio
os defeitos da forma
às vezes, adredemente,
apenas revelam os termos
daquilo que se sente
o poema é só um discurso
nos microfones da gente
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.