Betina

Betina

n. 1974 PT PT

Dou aulas. Escrevo. Leio e releio, às vezes também fotografo. Tenho tentado juntar aos pouquinhos o que fui plantando aqui e ali.

n. 1974-09-27, Guimarães

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Poemas

12

Nódoa e nada

Da nódoa aos nós, 
circula neste corpo 
sangue raro.
542

Dia de escola

Volto ao portão de casa,

para reencontrar a luz,

enquanto este ar, que ar,

põe-me a memória emsuspensão.

 

Já está,

encosto folha com folha.

 

Corro pois ouço trovões e,

mais uma vez,

apertam-me o casaco até aopescoço,

e eu seguro a lancheiracolada ao corpo.

 

Pronta ao portão daescola,

sou a menina à espera

sem bola,

sem namorado.

524

Chão

Sombra rasa,sombra que afunda, 
assombração. 
Sobra de vidaque arrasa 
o que é devido ao chão.
464

Ultra eu

Vocêinstila anestésico.

Eeu aceito.

Nasaliva, nos lábios, na língua.

Eeu aceito.

Penetra meu pensamento

E esparrama-se ao redor das palavras.

Atéque, 

por nós, 

eu conheço o fundo do poço.

Separoem passivo e ativo,

emchiado e discurso,

sorrisoe desdém

e fabrico bebida mais pura,

Suprailusão, 

ultra eu,

servidaem bandeja de prata

aconvidados ilustres.

512

Chuvisco

Podia rabiscar o mundo inteiro
que ainda sobrava chuvisco no pensamento.
448

Vetores

Vento frio puxe tudo mesmopara baixo,

poeira dos escombrosfeche-me os olhos,

continuarei seta apercorrer o caminho estreito

sem olhar os grandesburacos escavados,

linear, leve, aérea etambém interessada,

como se pela espinha umfio

estivesse esticado, bemteso,

ao lado de uma infinitude

de traços verticaistransparentes.

Nem o maior vão do mundo,o horizonte,

conseguirá arrastar-metanto que

eu perca a capacidade dedesenhar curvas,

vetores obedientes a doiseixos.

466

de canto para a diversidade

De canto para a diversidade, 
no balcão da padaria, 
que incrível visão tem 
quem não tem olhos de ver: 
(o oco do oco do oco).
505

Forma

Estou a enamorar-me da forma que meu corpo tem.

Até aqui os acordos foram parcos, assim tenho sido.

Mas agora explico-o, explico-me..

Escolhi algumas palavras para nós.

- Eu? Não, eu não estou grávida, minha senhora!

Mas não eram essas as palavras que eu queria dizer!

Essas saíram entre risos, numa pronúncia apressada,

Com recurso a palmadinha no ombro e uma finta,

Mais um afago nas costas da testemunha amarela.

Arre!

Somos sérios? 

Carne?

Osso?

Sozinha, ocorre-me que nunca tivesse acontecido.

É a falta de tato, de contenção que me constrange.

Apetecia-me era ser tratada por menina,

lady,

sweet.

Assim levar-me-iam pela mão:

ouvir, aquiescer e ir.

Tudo em nome da suave ternura não disfarçada.

Algumas fórmulas soam realmente bem,

meu bem.

Mas eu sou mãe, por vezes sou pai,

meu filho diz “Minha maluca”, 

eu estendo as mãos, curvo-me.

Modulo a voz,finalmente tudo cai em si,

caio em mim.

Se trouxesse para a rua um corpo maduro e enxuto,

maduro e de bronze, maduro sem minhas marcas,

diriam que já sou eu, menos desiludidos comigo?

Teria direito a outras falas e a outros gestos?

Em cada ombro, entretanto, dorme um sulco fino.

É um corpo que pende, chora e por isso dá-me paz.

Choro quase todos os dias, gotejando o que pesa.

A forma que este corpo tem cabe no abraço que chorarsuscita.

512

Sublimar?

É dia, é duro.

Dizer pouco,

os dentes cerrados.

Quantas vezes tereitentado?

Quantas vezes dentescerrados?

 

Linha por linha

esmiuçar,

ler,

sublimar.

Linha após linha

alinha,alinha, alinha…

 

Vento frio,

menos a luz do sol –

a mãe ri, já nãochora.

 

Crucifixo e labor.

Um rosário desfila.

Labor e cama.

Rosário desfiado.

 

A noite? É dura.

 

516

Desponta

Eis que despontae meu corpo já sabe o quê. 
Fala numa linguagem de dor, de súplica inflamável e morrente. 
Desaponto, pondo o certo duvidoso. 
Puxo o fio pela ponta escondida. 
Dentro do novelo torvelinhoum emaranhado a não acabar. 
Encho as duas mãos. 
Como desconfiar da força desta linha? 
Lá está a matéria a dizer-me, de muitas maneiras: 
somos, no centro da tramacosturada a pulsoao longo de anos. 
Puxo o fio pela ponta que se me dá. 
Não hei de perder esta meada impossível. 
Meta para além da deterioração. 
Vou fazer e repetir desenhos de flores,pássaros. 
Vestirei as peças,aprendendo a despir-me 
e a gostar de dobrarpara ser, 
para poder ver 
veste cingida ao corpo, 
veste pousada no banco, 
veste liberta na cama. 
Menos o aroma da vesteque me poderiam impingir 
em uma porta da cidade, 
nada sem mim.
468

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Michel Gailard

UM NOTÁVEL TEXTO DE SUA AUTORIA BOA TARDE, BETINA Li seu texto “DIA DE ESCOLA” publicado no site “ESCRITAS.ORG” e gostei bastante de sua forma de se expressar. Você é uma pessoa que sabe o que, e do que está falando. E olhe que esta arte de fazer versos é competência para uns poucos privilegiados. Mesmo sendo agente literário, e prestando serviços para várias editoras, recentemente publiquei alguns de meus escritos em uma antologia produzida pela Editora Palavra é Arte. O sistema que eles utilizam para o edição de livros é algo inédito. Nós autores não gastamos nada com produção da obra. Os exemplares nos são disponibilizados no sistema de venda consignada. Isto quer dizer que se alguns exemplares não forem vendidos, podemos devolvê-los, e estes serão doados a bibliotecas públicas e presídios, inclusive das cidades onde moramos. Como gostei muito da forma como você escreve, pedi permissão à editora para convidar você e mais oito outros autores, para participarem de uma das próximas edições. Se um de seus objetivos quanto à Literatura é ter seus textos publicados em forma de livro impresso, acredito que esta seja uma boa oportunidade. Por isto peço permissão para que façam contato com você e lhe enviem o material referente à publicação. Espero que desta forma, eu esteja retribuindo a sua amizade. Se for dar resposta a esta minha mensagem, gostaria de pedir-lhe que, por gentileza, envie sua resposta para o meu e-mail pessoal que é este: [email protected] Um abraço fraterno, Marc Burnier