A voz que hoje se apresenta Através desses versos sem métrica É voz já um tanto cansada Mas atenta
A voz que agora se mostra Traz consigo alguma coisa de lágrima Deixa tocar alguma nota de dor É voz calejada, já sem pudor
Esta voz, que não decide Entre ser altiva ou ser silenciosa Transparece anseios de menina, que agride Que traga a vida, segura e solta
Esta voz, que a duras penas sobrevive Entre o calento e o abandono Procura desejos de mulher, que não atingem limite Que abrem portas e pernas, sem convite
Uso esta voz porque é a única que tenho Não tem enfeites nem disfarces Busca tão somente o deleite da coragem Vive só pela esperança de não ter mais medo.
Eu viajei pelo mundo e Colei meu rosto em outros rostos e Cantei mil canções em palcos e bares imundos
Eu fui à caça junto às estrelas, logo Abri as janelas e portas da minha casa, logo Percorri mil corpos e copos, sobremaneira
Eu me apaixonei uma vez para Gozar com desconhecidos e afins para Desejar mil encontros nossos por mês
Eu me atirei da ponte no centro da cidade, mas Não encontrei alívio, mas Esperei mil dias pela tua caridade
Eu visitei o Céu e o Inferno, portanto Afirmo com certeza que nem o passar dos anos É capaz de me amenizar o quanto te amo.
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Quase quarta-feira de cinzas
Tuas palavras derramam-se pelo chão Tento calar-te, meus esforços são em vão São doces e perversas, quase-promessas Atravessam-me, viajam por dentro de mim Deslizo nelas mesmo assim
Tuas palavras rasgam-me por inteiro São filhas de um meio-amor de fevereiro Desmontam-me, reconstroem-me a cada vacilo Diante delas, finjo-me de surda (só para morrer de amor) De nada adianta, poesia não queres compor
Queria o silêncio e beijar-te a boca Chorar no teu colo, agarrar-te a nuca Queria a insensatez, brincar de louca Olhar-te nos olhos e ficar maluca
Queria que não morresse nunca a paixão Mas tuas palavras são assassinas Perseguem meu sonho de menina E riem das minhas angústias, sem razão
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Imbecilidade
Odeio poemas pretensiosos São apenas coleções de palavras bonitas São lembranças de sonhos horrorosos Que não fazem jus às almas aflitas
Odeio pessoas que forjam simpatia São apenas reprodutores das boas maneiras São burgueses que despertam antes do raiar do dia Para fingir que são úteis às quartas-feiras
Odeio que me digam o que fazer Sou teimosa e insubordinada Sou retrato de uma tentativa fracassada De alguém que se asfixia, sem morrer
Odeio uma infinidade de coisas imbecis Sou, na verdade, um recorte histérico Daquilo que detesto, no presente ou pretérito
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Tempestade n0 2
A chuva que cai lá fora É exatamente igual à do dia anterior Quando eu era criança e brincava na escola A chuva que caía causava temor
A chuva é semelhante a que caiu um mês atrás Suponho que parecida com a que cairá amanhã Um dia fui criança e me escondi, sem pensar jamais Que eram inocentes os raios de Tupã
A chuva sempre caiu molhada A chuva sempre escorreu pela janela A chuva sempre escorregou como navalha Na carne dos poetas de alma amarela
A chuva nunca foi minha amiga A chuva nunca me fez esquecer a saudade A chuva nunca tornou colorida A lembrança desta velha cidade
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Anseio
Quero me afogar num corpo de mulher Beber suas curvas Aspirar suas linhas Perder meu fôlego nas suas esquinas
Quero me fundir a um corpo de mulher Ler sua pele em braille Desvendar os mistérios da sua respiração Tentar me apossar de seus cabelos, em vão
Quero me enganar num corpo de mulher Morrer de amor por uma noite Ajoelhar-me no chão e pedir misericórdia Forjar em seus olhos discórdia
Quero me encontrar num corpo de mulher Entender por que me valho de meios amores Desvendar a razão das minhas dores Só para então morrer novamente E me perder mais ainda em outra mulher Num beijo ardente
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Anonimato
No mundo, há milhares de poetas mudos Escrevem versos em cadernos sujos Que morrem com os autores, ruídos surdos Sem conhecer os prazeres e as dores De revelar seus absurdos
Esses feiticeiros do cotidiano Que seguem na vida pública, silenciosos Às vezes esbarram-se pelos bares, ociosos E terminam em quartos revelando, escondidos A verdade entre gemidos
Mas quando chega a segunda-feira O despertador toca da mesma maneira E são obrigados a levantar para o trabalho São comerciantes, cozinheiros e advogados Que fingem se preocupar com a inflação e com o mercado
No mundo, há milhares de poetas mudos Ler o que têm a dizer, é minha maior vontade Tirar seus poemas da gaveta, descobrir sua identidade Assim o faria se não fosse eu mesma um ruído surdo Sem rosto nem poder Ainda esperando meu vir-a-ser
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Linhas de um diário qualquer
Hoje eu recebi uma mensagem tua. Toda vez que seu nome aparece como remetente, meu coração oscila. Toda vez que te quero como destinatário, minha mente hesita. Não vou mentir para as linhas do meu diário, penso sempre em ser alvo da tua atenção. Penso sobre o timbre da tua voz e nos teus maneirismos. Acho engraçado o seu linguajar cheio de vícios. Repito todos sem perceber e acho graça de mim mesma quando impeço-me de corrigi-los. Não há um só cenário em que uma conversa nossa não me cause arritmia. Por isso, preciso dizer-te que meu coração já é meio calejado. Meu cardiologista não é seu maior fã. Explicou-me que tomar desse meio-amor inventado é altamente desaconselhável. Minha cabeça já convive com um punhado de fracassos. Minha terapeuta observa com cuidado. Sei que, no geral, sou muito chata e não faço questão de esconder. Mas sem frase pronta, lugar comum ou clichê: quando estou perto de você, esforço-me para não ser desagradável. Fato é que eu te tolero mais do que qualquer um. Mais do que a mim mesma. Talvez chegue o dia em que vou transformar tudo isso em poema. Até lá, finjo que te quero tanto como quero qualquer um, sem declaração ou dilema.