A voz que hoje se apresenta Através desses versos sem métrica É voz já um tanto cansada Mas atenta
A voz que agora se mostra Traz consigo alguma coisa de lágrima Deixa tocar alguma nota de dor É voz calejada, já sem pudor
Esta voz, que não decide Entre ser altiva ou ser silenciosa Transparece anseios de menina, que agride Que traga a vida, segura e solta
Esta voz, que a duras penas sobrevive Entre o calento e o abandono Procura desejos de mulher, que não atingem limite Que abrem portas e pernas, sem convite
Uso esta voz porque é a única que tenho Não tem enfeites nem disfarces Busca tão somente o deleite da coragem Vive só pela esperança de não ter mais medo.
A próxima página está totalmente em branco. Intocada. Inacabada pela sua própria natureza. Reluz o anseio da transformação. Poderia, quem sabe, guardar um segredo. Ou muitos. Ser testemunho de um amor proibido. Ou filha de um adultério. Poderia tornar-se cúmplice de um pecado. Ou traição. Poderia converter-se em carta apaixonada. Ou balanço das contas do mês. Pode ser ainda, algum dia, o desenho colorido de uma criança (que sonha). Pode ser enxaguada por lágrimas (ainda desconhecidas). Pode levar um nome comum no seu canto inferior. A próxima página pode ser abençoada ou amaldiçoada, sem nunca experimentar a liberdade de escolher o que será. É alheia ao mundo inteiro. Unicamente fruto do desejo pulsante de terceiros. Desconhece o que poderia ser. Mas insiste para não permanecer em branco. Esperneia aos olhos do poeta. Suplica frente às mãos úmidas de uma dona de casa. Implora para tornar-se alguma coisa. Qualquer coisa.
208
Súplica
Encontre-me em um desses bares De beira de estrada Sem aviso prévio ou desculpas salutares Fuja da família, deixe a amada Beba meu silêncio e minhas meias-palavras
Misture meu hálito quente ao ar úmido, que paira à sua volta Sem cortejos ou fantasia Sem casamento ou revolta Regue-me com uma porção de versos soltos, sem demagogia Convide teus fantasmas para o quarto Faça figa, mas faça valer o pecado
E amanhã, quando nosso segredo onírico Quiser bater à porta, na solidão ou no meio da tarde Forje inocência, aperte os olhos e ria do eu-lírico Somos velhos conhecidos, não precisamos de disfarces ou alarde Não precisamos de mistério, tampouco da verdade.
194
História natural de uma paixão
No início, um entrelaçar sutil de olhares Dedos que às vezes queriam tocar Sem saber exatamente como ou porquê Um abraço singelo Um sorriso tímido Um sopro inocente De amor juvenil Que foi crescendo E de criança magricela Tornou-se mulher Uma mulher que observava maneirismos E sorrisos de canto de boca Olhos que se demoravam sobre o corpo E que queriam, com volúpia, devorar a alma Olhos que pousavam sobre o anel de grosso ouro (no quarto dedo) E que escolhiam passar por cima Inebriando a consciência que outrora falava E fantasiava Sem perceber, passou a decorar cada passo Em cada pedaço Sabia cada compasso do desejo Desejo com forma de gente Planejava a data e hora do pecado E de saber de cor Cada cabelo grisalho Passou a ter o andar mais pesado As mãos mais soltas Os mesmos gostos O pensamento acelerado E veja que engraçado Tornou-se homem Objeto do desejo Já que desejava e não podia realizar Gozava em se fazer notar Pela semelhança nos maneirismos Nas sutilezas da inteligência E, mesmo na fala, a cadência Dizia que era inspiração Pelo outro, admiração Que nada É paixão disfarçada Que toca e traz ao coração A vontade de fazer-se amada
247
Arritmia
Dentro do meu peito Existe um compasso de tamborim Que insiste em me assustar Acelerado Quando te vê Sorrindo para mim
Dentro dos teus olhos Meu compasso Quer se perder Em amassos E no batuque sem fim Desse desmanchar De cabelos Desse enrolar De lábios Desse farfalhar De pelos Encontro e me perco Será que um dia me acho?
Tenho Por acaso Um sorriso Largo Uma mente Que sonha Um coração Pintado Que bate Des-com-pas-sado
Tenho por escolha Teu úmido Balançar A nadar À deriva No meu mar Uma volúpia Que se disfarça Sem graça Maior que o mundo inteiro Feliz Por não guardar segredo
Deita e dorme Que mais tarde Os versos escorrem Pelas minhas pernas Bambas Um balé Com notas De samba Um corpo Que devora O sangue A vida O fim O compasso De quem se ama.