Bianca Lopes

Bianca Lopes

n. 2002 BR BR

Menina em rascunho. Um dia publico minha edição definitiva.

n. 2002-07-11, Rio de Janeiro

Perfil
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A voz

A voz que hoje se apresenta
Através desses versos sem métrica
É voz já um tanto cansada
Mas atenta

A voz que agora se mostra
Traz consigo alguma coisa de lágrima
Deixa tocar alguma nota de dor
É voz calejada, já sem pudor

Esta voz, que não decide
Entre ser altiva ou ser silenciosa
Transparece anseios de menina, que agride
Que traga a vida, segura e solta

Esta voz, que a duras penas sobrevive
Entre o calento e o abandono
Procura desejos de mulher, que não atingem limite
Que abrem portas e pernas, sem convite

Uso esta voz porque é a única que tenho
Não tem enfeites nem disfarces
Busca tão somente o deleite da coragem
Vive só pela esperança de não ter mais medo.
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Poemas

4

Seguinte

A próxima página está totalmente em branco. Intocada. Inacabada pela sua própria natureza. Reluz o anseio da transformação. Poderia, quem sabe, guardar um segredo. Ou muitos. Ser testemunho de um amor proibido. Ou filha de um adultério. Poderia tornar-se cúmplice de um pecado. Ou traição. Poderia converter-se em carta apaixonada. Ou balanço das contas do mês. Pode ser ainda, algum dia, o desenho colorido de uma criança (que sonha). Pode ser enxaguada por lágrimas (ainda desconhecidas). Pode levar um nome comum no seu canto inferior. A próxima página pode ser abençoada ou amaldiçoada, sem nunca experimentar a liberdade de escolher o que será. É alheia ao mundo inteiro. Unicamente fruto do desejo pulsante de terceiros. Desconhece o que poderia ser. Mas insiste para não permanecer em branco. Esperneia aos olhos do poeta. Suplica frente às mãos úmidas de uma dona de casa. Implora para tornar-se alguma coisa. Qualquer coisa.
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Súplica

Encontre-me em um desses bares
De beira de estrada
Sem aviso prévio ou desculpas salutares
Fuja da família, deixe a amada
Beba meu silêncio e minhas meias-palavras

Misture meu hálito quente ao ar úmido, que paira à sua volta
Sem cortejos ou fantasia
Sem casamento ou revolta
Regue-me com uma porção de versos soltos, sem demagogia
Convide teus fantasmas para o quarto
Faça figa, mas faça valer o pecado

E amanhã, quando nosso segredo onírico
Quiser bater à porta, na solidão ou no meio da tarde
Forje inocência, aperte os olhos e ria do eu-lírico
Somos velhos conhecidos, não precisamos de disfarces ou alarde
Não precisamos de mistério, tampouco da verdade.
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História natural de uma paixão

No início, um entrelaçar sutil de olhares
Dedos que às vezes queriam tocar
Sem saber exatamente como ou porquê
Um abraço singelo
Um sorriso tímido
Um sopro inocente
De amor juvenil
Que foi crescendo
E de criança magricela
Tornou-se mulher
Uma mulher que observava maneirismos
E sorrisos de canto de boca
Olhos que se demoravam sobre o corpo
E que queriam, com volúpia, devorar a alma
Olhos que pousavam sobre o anel de grosso ouro
(no quarto dedo)
E que escolhiam passar por cima
Inebriando a consciência que outrora falava
E fantasiava
Sem perceber, passou a decorar cada passo
Em cada pedaço
Sabia cada compasso do desejo
Desejo com forma de gente
Planejava a data e hora do pecado
E de saber de cor
Cada cabelo grisalho
Passou a ter o andar mais pesado
As mãos mais soltas
Os mesmos gostos
O pensamento acelerado
E veja que engraçado
Tornou-se homem
Objeto do desejo
Já que desejava e não podia realizar
Gozava em se fazer notar
Pela semelhança nos maneirismos
Nas sutilezas da inteligência
E, mesmo na fala, a cadência
Dizia que era inspiração
Pelo outro, admiração
Que nada
É paixão disfarçada
Que toca e traz ao coração
A vontade de fazer-se amada
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Arritmia

Dentro do meu peito
Existe um compasso de tamborim
Que insiste em me assustar
Acelerado
Quando te vê
Sorrindo para mim

Dentro dos teus olhos
Meu compasso
Quer se perder
Em amassos
E no batuque sem fim
Desse desmanchar
De cabelos
Desse enrolar
De lábios
Desse farfalhar
De pelos
Encontro e me perco
Será que um dia me acho?

Tenho
Por acaso
Um sorriso
Largo
Uma mente
Que sonha
Um coração
Pintado
Que bate
Des-com-pas-sado

Tenho por escolha
Teu úmido
Balançar
A nadar
À deriva
No meu mar
Uma volúpia
Que se disfarça
Sem graça
Maior que o mundo inteiro
Feliz
Por não guardar segredo

Deita e dorme
Que mais tarde
Os versos escorrem
Pelas minhas pernas
Bambas
Um balé
Com notas
De samba
Um corpo
Que devora
O sangue
A vida
O fim
O compasso
De quem se ama.
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Comentários (2)

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Flaquiote
Flaquiote

Que bom, gostei galera

Bianca Lopes

Obrigada, João. Gosto muito dos teus versos!