Das muitas formas de ficar sem ar, Escolhi soprar.
57
Ebulição
Enchi a panela de água, Meti-a ao lume e Deixei-a estar.
Borbulhava por entre o vapor, Fervia.
E nada cozinhava, Nem um legume cozia.
Estava A panela vazia.
Assim sou quando penso: Eterna ebulição por razão nenhuma, Sentença de fome sem alimento. Sou panela d’água ao lume, Fervendo em pensamento.
23
Des(apegos)
A parte enigmática de perder alguém É que deixamos de a ver num corpo E passamos a vê-la em tudo. A morte devolve Sem avisar.
234
Migalhas
A rugosidade dos 80 anos Esfarela melhor o pão Que se deixa no muro
Do banquito de madeira Vê-se melhor A vida que escapa E que está em tudo
Até mesmo nos pássaros Que bicam As migalhas Do nosso tempo
32
Sorte de principiante
O primeiro a existir é o sortudo Que não tem direito a saber que morre.
27
Único poema que sei declamar
Eu não gosto de me enganar A ler poemas Mas eu engamo-me sempre
E repito para mim “Não me vou mengamar” “Não me mou venganar” “Não ve nou meganar”
E enganho-me sempre
31
Eu não me sei amar
Olheiras são o bolor das décadas. No espelho, quis comê-las, Na cara, quis escondê-las.
Desperta.
Vi-a no espelho, apontei para ela, Arregalei os olhos, sustive a respiração. Queria amá-la e não sabia porquê, Queria fazê-la feliz e não sabia como. Com o dedo indicador, toquei o reflexo: “Diz-me, por favor, de que é que tu gostas?” A mão atravessou o espelho E dei pelo meu dedo a tocar-me as costas.
31
Pedra
A criança vê uma pedra, Mas nunca vê uma pedra: Vê um império, se a montar em cima de outra; Vê uma arma, se a lançar com uma fisga; Vê uma tela, se decidir pintá-la; Vê um amigo, se a guardar consigo.
O adulto vê uma pedra, E vê sempre uma pedra - porque é só uma pedra. E a pedra é um espelho acidental… Somos o que vemos nas pedras.
282
A menina-satélite
Lábios metálicos, Olhos dourados, venda de prata.
Sangue verde nos dedos molhados.
Na torrente Das lágrimas de diamante, Um punhal de terra e água Atravessando o peito;
Uma labareda azul no ventre E um farrapo em cada pulso.
Unhas pixeladas, desfazendo um Malmequer:
Vagueia pela eternidade, sentada Na ponta de uma lua qualquer.