camila_duarte

camila_duarte

n. 2003 PT PT

n. 2003-01-10, Coimbra

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A menina-satélite

Lábios metálicos, 
Olhos dourados, 
venda de prata.

Sangue verde
nos dedos molhados.

Na torrente 
Das lágrimas de diamante, 
Um punhal de terra e água 
Atravessando o peito;

Uma labareda azul no ventre 
E um farrapo em cada pulso. 

Unhas pixeladas, desfazendo um
Malmequer:

Vagueia pela eternidade, sentada 
Na ponta de uma lua qualquer.
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Poemas

14

Dog Complex

Quero ter cãezinhos 
A latir atrás de mim
292

Sobre soprar demais

No lugar do coração, 
Um balão; 

No lugar do cérebro, 
Uma agulha. 

Das muitas formas de ficar sem ar, 
Escolhi soprar.
57

Ebulição

Enchi a panela de água,
Meti-a ao lume e 
Deixei-a estar. 

Borbulhava por entre o vapor, 
Fervia. 

E nada cozinhava, 
Nem um legume cozia. 

Estava 
A panela vazia. 

Assim sou quando penso:
Eterna ebulição por razão nenhuma, 
Sentença de fome sem alimento. 
Sou panela d’água ao lume, 
Fervendo em pensamento.
23

Des(apegos)

A parte enigmática de perder alguém
É que deixamos de a ver num corpo 
E passamos a vê-la em tudo. 
A morte devolve 
Sem avisar.
234

Migalhas

A rugosidade dos 80 anos 
Esfarela melhor o pão 
Que se deixa no muro 

Do banquito de madeira 
Vê-se melhor 
A vida que escapa 
E que está em tudo 

Até mesmo nos pássaros 
Que bicam 
As migalhas 
Do nosso tempo
32

Sorte de principiante

O primeiro a existir é o sortudo
Que não tem direito a saber que morre.
27

Único poema que sei declamar

Eu não gosto de me enganar 
A ler poemas 
Mas eu engamo-me sempre

E repito para mim 
“Não me vou mengamar” 
“Não me mou venganar” 
“Não ve nou meganar” 

E enganho-me sempre
31

Eu não me sei amar

Olheiras são o bolor das décadas. 
No espelho, quis comê-las, 
Na cara, quis escondê-las.

Desperta. 

Vi-a no espelho, apontei para ela, 
Arregalei os olhos, sustive a respiração.
Queria amá-la e não sabia porquê, 
Queria fazê-la feliz e não sabia como. 
Com o dedo indicador, toquei o reflexo: 
“Diz-me, por favor, de que é que tu gostas?”
A mão atravessou o espelho 
E dei pelo meu dedo a tocar-me as costas.
31

Pedra

A criança vê uma pedra, 
Mas nunca vê uma pedra: 
Vê um império, se a montar em cima de outra; 
Vê uma arma, se a lançar com uma fisga; 
Vê uma tela, se decidir pintá-la;
Vê um amigo, se a guardar consigo.

O adulto vê uma pedra, 
E vê sempre uma pedra - porque é só uma pedra. 
E a pedra é um espelho acidental… 
Somos o que vemos nas pedras.
282

A menina-satélite

Lábios metálicos, 
Olhos dourados, 
venda de prata.

Sangue verde
nos dedos molhados.

Na torrente 
Das lágrimas de diamante, 
Um punhal de terra e água 
Atravessando o peito;

Uma labareda azul no ventre 
E um farrapo em cada pulso. 

Unhas pixeladas, desfazendo um
Malmequer:

Vagueia pela eternidade, sentada 
Na ponta de uma lua qualquer.
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Thaís Fontenele

Belas poesias, amei!