camila_duarte

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n. 2003 PT PT

n. 2003-01-10, Coimbra

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A menina-satélite

Lábios metálicos, 
Olhos dourados, 
venda de prata.

Sangue verde
nos dedos molhados.

Na torrente 
Das lágrimas de diamante, 
Um punhal de terra e água 
Atravessando o peito;

Uma labareda azul no ventre 
E um farrapo em cada pulso. 

Unhas pixeladas, desfazendo um
Malmequer:

Vagueia pela eternidade, sentada 
Na ponta de uma lua qualquer.
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Poemas

21

A menina-satélite

Lábios metálicos, 
Olhos dourados, 
venda de prata.

Sangue verde
nos dedos molhados.

Na torrente 
Das lágrimas de diamante, 
Um punhal de terra e água 
Atravessando o peito;

Uma labareda azul no ventre 
E um farrapo em cada pulso. 

Unhas pixeladas, desfazendo um
Malmequer:

Vagueia pela eternidade, sentada 
Na ponta de uma lua qualquer.
629

Somos flores

Se me tirarem o segundo 
É o fim. 
Aquela casa velha e esburacada
É a memória amargurada da moleirinha 
Que já não cresce entre o musgo; 
É o resto de tudo e o vestígio do nada, 
Lembrando apenas o suspiro da velhice;
É a nostalgia do cheiro a relva, a fruta, 
A canja e talvez a bolo da padeira; 
É a reminiscência enevoada do que foi 
Família, ou nunca foi; 
É o beijo carinhoso dos pais dos meus pais, 
Canção de embalar que ecoa da sepultura;
É o desmembramento da realidade de um dia, 
Da qual sobra pouco; 
É a evidência do nada perante o desabar do mundo, 
É a finitude, o breve trilho que percorremos, 
O sorriso que é mortiço e passageiro;
É o funeral da terrinha, o enterro do bailarico, 
A miséria da filha e da neta, do cão também;
É a última página do livro. Desconcerta... 
Nem sabemos como o fechar e abandonar na prateleira,
Às teias.
É a flor que murcha, queixando-se do sol, da chuva, da terra: 
De tudo o que a fez florir. 
Damos flores e recebemos flores. 
Vivos ou mortos, somos flores. 
Da terra nascem, na terra caem. 
No mundo entram, do mundo saem.
536

Giestas

Nós amamos 
Coisas raras 
Coisas novas 
Coisas sobre as quais sabemos pouco 

Mas tememos 
Coisas raras 
Coisas novas 
Coisas sobre as quais sabemos pouco
277

Pedra

A criança vê uma pedra, 
Mas nunca vê uma pedra: 
Vê um império, se a montar em cima de outra; 
Vê uma arma, se a lançar com uma fisga; 
Vê uma tela, se decidir pintá-la;
Vê um amigo, se a guardar consigo.

O adulto vê uma pedra, 
E vê sempre uma pedra - porque é só uma pedra. 
E a pedra é um espelho acidental… 
Somos o que vemos nas pedras.
282

Louça e outros troféus

Não quero ser a louça branca

Exposta na parede de ninguém.

 

E se for,

Terei restos de comida,

Serei um prato de porcelana mal lavado,

Lascado na beira,

Rachado no centro,

Com pó suficiente para mostrar

A sua insignificância.

 

Prefiro que me quebrem de uso

Do que me exponham por inutilidade.

18

Des(apegos)

A parte enigmática de perder alguém
É que deixamos de a ver num corpo 
E passamos a vê-la em tudo. 
A morte devolve 
Sem avisar.
234

Dog Complex

Quero ter cãezinhos 
A latir atrás de mim
292

Nada para sentir

Vivo todos os dias 
Para te amar 

E amo-te a cada instante 
Com saudade 

Para que quando partas 
Não reste nada para sentir
232

Balança

A escassez de tempo

Traz a abundância de afeto

9

Sobre fruta

Todos querem descascar e,

Se for macia, trincam com prazer.

 

Mas o caroço, esse dá dor de dentes.

Raros são os que sabem fazer uso dele.

 

 

 Quanto mais para dentro, mais duro fica.

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Thaís Fontenele

Belas poesias, amei!