Lista de Poemas

A menina-satélite

Lábios metálicos, 
Olhos dourados, 
venda de prata.

Sangue verde
nos dedos molhados.

Na torrente 
Das lágrimas de diamante, 
Um punhal de terra e água 
Atravessando o peito;

Uma labareda azul no ventre 
E um farrapo em cada pulso. 

Unhas pixeladas, desfazendo um
Malmequer:

Vagueia pela eternidade, sentada 
Na ponta de uma lua qualquer.
588

Somos flores

Se me tirarem o segundo 
É o fim. 
Aquela casa velha e esburacada
É a memória amargurada da moleirinha 
Que já não cresce entre o musgo; 
É o resto de tudo e o vestígio do nada, 
Lembrando apenas o suspiro da velhice;
É a nostalgia do cheiro a relva, a fruta, 
A canja e talvez a bolo da padeira; 
É a reminiscência enevoada do que foi 
Família, ou nunca foi; 
É o beijo carinhoso dos pais dos meus pais, 
Canção de embalar que ecoa da sepultura;
É o desmembramento da realidade de um dia, 
Da qual sobra pouco; 
É a evidência do nada perante o desabar do mundo, 
É a finitude, o breve trilho que percorremos, 
O sorriso que é mortiço e passageiro;
É o funeral da terrinha, o enterro do bailarico, 
A miséria da filha e da neta, do cão também;
É a última página do livro. Desconcerta... 
Nem sabemos como o fechar e abandonar na prateleira,
Às teias.
É a flor que murcha, queixando-se do sol, da chuva, da terra: 
De tudo o que a fez florir. 
Damos flores e recebemos flores. 
Vivos ou mortos, somos flores. 
Da terra nascem, na terra caem. 
No mundo entram, do mundo saem.
501

Giestas

Nós amamos 
Coisas raras 
Coisas novas 
Coisas sobre as quais sabemos pouco 

Mas tememos 
Coisas raras 
Coisas novas 
Coisas sobre as quais sabemos pouco
254

Pedra

A criança vê uma pedra, 
Mas nunca vê uma pedra: 
Vê um império, se a montar em cima de outra; 
Vê uma arma, se a lançar com uma fisga; 
Vê uma tela, se decidir pintá-la;
Vê um amigo, se a guardar consigo.

O adulto vê uma pedra, 
E vê sempre uma pedra - porque é só uma pedra. 
E a pedra é um espelho acidental… 
Somos o que vemos nas pedras.
257

Des(apegos)

A parte enigmática de perder alguém
É que deixamos de a ver num corpo 
E passamos a vê-la em tudo. 
A morte devolve 
Sem avisar.
215

Dog Complex

Quero ter cãezinhos 
A latir atrás de mim
270

Nada para sentir

Vivo todos os dias 
Para te amar 

E amo-te a cada instante 
Com saudade 

Para que quando partas 
Não reste nada para sentir
211

aPecedário

Pintar pássaros
Parece patético,
Porém, potencia
Pinceladas peculiares 
Para perpetuar paz.

Profundamente perdida, 
Paradoxalmente perspicaz - 
Pessoa pede poema, pão, piedade.

Preconceito planetário, 
Patriarcado piegas, 
Pseudo-pátria, 
Pudor, perversão, protótipo:
Patrão. Pai? P*ta!

Pouco, pouco pedagógico, 
Planeta paralelo:
Povo pára, pensa, prega, 
Pestaneja, precipita, peca;
Paraíso, prejuízo,
Profeta, profeta, profeta…
Pateta. 

Premissa prepotente,
Protesto permanente.
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Pianista

Eu não toco
O piano 
Tem teclas
Avariadas
As melodias
E avarias
Da mente tocam
Piano 
Desafinado
O meu polegar
No lugar errado
Não toco 
O piano

Dois 
Acordes 
Cansados 
De tocar 
Os meus dedos 
A suar
Mas eu não 
Sei tocar o 
Piano 
Hoje

Tenho os ouvidos 
A apitar 
O alarme 
Aleija-me 
O ritmo

Conhece
um pianista 
Que não sou 
Eu 
Que não toco 
O piano 
No palco 
Não sou 
Artista
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Migalhas

A rugosidade dos 80 anos 
Esfarela melhor o pão 
Que se deixa no muro 

Do banquito de madeira 
Vê-se melhor 
A vida que escapa 
E que está em tudo 

Até mesmo nos pássaros 
Que bicam 
As migalhas 
Do nosso tempo
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Belas poesias, amei!