Traição às plaquetas
Ai
Como eu preciso
De estancar
O sangue
Mas
Ai
Como eu gosto
De arrancar
A crosta
Políticos não lavam os dentes
Navalha
As rugas
Não são do tempo
São do sol
Do mato
Do milho defolhado
Da fazenda em combustão
Do carvão que se desfaz
Da terra presa nas unhas
As rugas
São fábulas perdidas
Na rudeza da época
As rugas
São asfalto do Estado Novo
São carícias de Salazar
As rugas
São o grito entalado na derme
São o artifício da mulher silenciada
Esta mulher carregava
Nos olhos
A navalha
Da revolução
Único poema que sei declamar
Eu não gosto de me enganar
A ler poemas
Mas eu engamo-me sempre
E repito para mim
“Não me vou mengamar”
“Não me mou venganar”
“Não ve nou meganar”
E enganho-me sempre
Ebulição
Enchi a panela de água,
Meti-a ao lume e
Deixei-a estar.
Borbulhava por entre o vapor,
Fervia.
E nada cozinhava,
Nem um legume cozia.
Estava
A panela vazia.
Assim sou quando penso:
Eterna ebulição por razão nenhuma,
Sentença de fome sem alimento.
Sou panela d’água ao lume,
Fervendo em pensamento.
Eu não me sei amar
Olheiras são o bolor das décadas.
No espelho, quis comê-las,
Na cara, quis escondê-las.
Desperta.
Vi-a no espelho, apontei para ela,
Arregalei os olhos, sustive a respiração.
Queria amá-la e não sabia porquê,
Queria fazê-la feliz e não sabia como.
Com o dedo indicador, toquei o reflexo:
“Diz-me, por favor, de que é que tu gostas?”
A mão atravessou o espelho
E dei pelo meu dedo a tocar-me as costas.
Sobre soprar demais
No lugar do coração,
Um balão;
No lugar do cérebro,
Uma agulha.
Das muitas formas de ficar sem ar,
Escolhi soprar.
Sorte de principiante
O primeiro a existir é o sortudo
Que não tem direito a saber que morre.
Migalhas
A rugosidade dos 80 anos
Esfarela melhor o pão
Que se deixa no muro
Do banquito de madeira
Vê-se melhor
A vida que escapa
E que está em tudo
Até mesmo nos pássaros
Que bicam
As migalhas
Do nosso tempo
Gr(av)ita
Se a vida tem ciclos,
Tem círculos, retângulos e outros polígonos,
Tem Terra, Sol e Lua,
Um gravita, dois aquece, três regula,
Tem gente, tem luz e misticismo
Um grita, dois estremece, três articula,
Tem átomos, tem moléculas, tem cores,
Tem lixo, tem bicho, tem flores:
É vital - a viver mal
Vitral - sem catedral
Hospital - sem capital
Evolução - sem digital
Angelical - sem genital
Portal - sem postal
Cinderela temperamental, careca, sem dentes
E sem sapato de cristal
Fatal
Horizontal
Vertical
Cruz de Cristo
Governamental, patriarcal
Só que sem poder estatal
Virgem Maria,
Ou Banho-Maria
É crime monoparental
—
Final