camila_duarte

camila_duarte

n. 2003 PT PT

n. 2003-01-10, Coimbra

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A menina-satélite

Lábios metálicos, 
Olhos dourados, 
venda de prata.

Sangue verde
nos dedos molhados.

Na torrente 
Das lágrimas de diamante, 
Um punhal de terra e água 
Atravessando o peito;

Uma labareda azul no ventre 
E um farrapo em cada pulso. 

Unhas pixeladas, desfazendo um
Malmequer:

Vagueia pela eternidade, sentada 
Na ponta de uma lua qualquer.
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Poemas

21

Traição às plaquetas

Ai

Como eu preciso

De estancar

O sangue

 

Mas

 

Ai

Como eu gosto

De arrancar

A crosta

8

Políticos não lavam os dentes

Só fazem
Branqueamento.

6

Navalha

As rugas

Não são do tempo

São do sol

Do mato

Do milho defolhado

Da fazenda em combustão

Do carvão que se desfaz

Da terra presa nas unhas

 

As rugas

São fábulas perdidas

Na rudeza da época

 

As rugas

São asfalto do Estado Novo

São carícias de Salazar

 

As rugas

São o grito entalado na derme

São o artifício da mulher silenciada

 

Esta mulher carregava

Nos olhos

A navalha

Da revolução

7

Único poema que sei declamar

Eu não gosto de me enganar 
A ler poemas 
Mas eu engamo-me sempre

E repito para mim 
“Não me vou mengamar” 
“Não me mou venganar” 
“Não ve nou meganar” 

E enganho-me sempre
31

Ebulição

Enchi a panela de água,
Meti-a ao lume e 
Deixei-a estar. 

Borbulhava por entre o vapor, 
Fervia. 

E nada cozinhava, 
Nem um legume cozia. 

Estava 
A panela vazia. 

Assim sou quando penso:
Eterna ebulição por razão nenhuma, 
Sentença de fome sem alimento. 
Sou panela d’água ao lume, 
Fervendo em pensamento.
23

Eu não me sei amar

Olheiras são o bolor das décadas. 
No espelho, quis comê-las, 
Na cara, quis escondê-las.

Desperta. 

Vi-a no espelho, apontei para ela, 
Arregalei os olhos, sustive a respiração.
Queria amá-la e não sabia porquê, 
Queria fazê-la feliz e não sabia como. 
Com o dedo indicador, toquei o reflexo: 
“Diz-me, por favor, de que é que tu gostas?”
A mão atravessou o espelho 
E dei pelo meu dedo a tocar-me as costas.
31

Sobre soprar demais

No lugar do coração, 
Um balão; 

No lugar do cérebro, 
Uma agulha. 

Das muitas formas de ficar sem ar, 
Escolhi soprar.
57

Sorte de principiante

O primeiro a existir é o sortudo
Que não tem direito a saber que morre.
27

Migalhas

A rugosidade dos 80 anos 
Esfarela melhor o pão 
Que se deixa no muro 

Do banquito de madeira 
Vê-se melhor 
A vida que escapa 
E que está em tudo 

Até mesmo nos pássaros 
Que bicam 
As migalhas 
Do nosso tempo
32

Gr(av)ita

Se a vida tem ciclos,
Tem círculos, retângulos e outros polígonos,
Tem Terra, Sol e Lua, 
Um gravita, dois aquece, três regula, 
Tem gente, tem luz e misticismo 
Um grita, dois estremece, três articula,
Tem átomos, tem moléculas, tem cores, 
Tem lixo, tem bicho, tem flores:
É vital - a viver mal 
Vitral - sem catedral 
Hospital - sem capital 
Evolução - sem digital 
Angelical - sem genital 
Portal - sem postal

Cinderela temperamental, careca, sem dentes
E sem sapato de cristal 

Fatal 
Horizontal 
Vertical 

Cruz de Cristo 
Governamental, patriarcal
Só que sem poder estatal 

Virgem Maria, 
Ou Banho-Maria 
É crime monoparental 


Final
46

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Thaís Fontenele

Belas poesias, amei!