Por mais de ti
E depois da boémia lá vens tu
sacudir-me a cidade para dentro do peito,
numa noite gigantesca que me atravessa a palidez.
Sabes que é no teu vácuo que abro as mãos?
Espreguiçam-se as palavras neste contratempo de amor
e eu só queria poder atravessar a nado
o teu continente, a tua maciez frutada na minha boca
e dizer-te que foi por ti e através de ti
que me pus à escuta das vozes que ninguém ouve,
coladas ao chão, em ponto morto, à espera de um vento
que as levante e lhes diga que são tuas
que serão sempre tuas, caídas ou não, embaciadas de mim.
Levanta-te e vem
que o resto
não me importa
quero lá saber
se o vento
traz sal
ou clorofila.
Sei que há becos de poesia,
palavras de papel cartonado
e fusos horários roxos
de tanto susterem a respiração.
Sei que há uma circunferência
na tua língua boreal
e um diálogo rasgado no frio
empedrado, contido, artesanal.
- e era bom que as madrugadas
encontrassem o caminho da saliva
dentro das cidades em defesa.
A temperatura a galgar o corpo
como um beijo em estado de sítio
a queimar, a queimar, a queimar
todos os poros e toda a saliva
desta febre
desta febre que explode todas as noites
a ranger como um passado de luz acesa.
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