Lista de Poemas

OCEANOS E MARES ESQUECIDOS

Tormentosos oceanos esquecidos

Onde mares violentos arrebentam

Despertando temores e gemidos,

Em corsários valentes que os enfrentam.

Mares turvos, bravios, desmedidos

Cujas águas de rochas se alimentam.

São oceanos dos sonhos extraídos

Que nas noites mais tristes atormentam.

Se não vemos as ondas que levantam,

Pelos menos ouvimos seus lamentos

Quando em nossas consciências se agigantam.

Mares onde sucumbem vencedores

E vencidos nos mesmos sofrimentos;

Os profundos oceanos dos rancores.

1 452

SONETO À MULHER AMADA

Se tento capturá-la na retina;

São tantos megapixels nessa história

Que a máquina congela, sem memória,

Por causa da beleza feminina.

Beleza que nenhuma escola ensina.

Nascida da equação combinatória,

Da força da mulher em sua glória;

Da graça natural de uma menina.

Preciso urgentemente promover

O aumento radical na CPU

E a baixa de versões que possam ler

E processar tamanha informação.

Se tento capturar seu corpo nu

Movendo-se na minha direção.

927

PSIQUE

Um pedaço de mim corteja a lua,

outro procura pôr os pés no chão.

Enquanto aquele vaga pela rua,

este não perde nunca a direção.

Um lado pensa, julga, conceitua,

o outro se perde sempre na emoção.

Uma parte se veste, a outra está nua;

uma escreve discurso, a outra canção.

A metade que fala não escuta.

A que escuta não sabe o que dizer.

Eu inteiro sou parte da disputa,

e não sei o que vai acontecer:

Se sentamos na mesa com cicuta

ou se aprendemos a nos conhecer...

876

DESPEDIDA

E de repente perde-se o encanto.
No peito resta aquele estranhamento
Pelo amor que vivido já foi tanto.
Não há palavra ou mesmo pensamento

Que possa traduzir aquele espanto.
A triste melodia do momento
Solenemente soa em fraco canto
E as notas são levadas pelo vento.

E sofre o coração a dor sentida.
A dor que foi amor, amor profundo.
Adeus! Chegou o instante da partida.

Que rumos seguiremos pelo mundo?
Que encontros nos reserva a nova vida?
Que será desse solo tão fecundo?


433

ENCONTRO

A Razão
se perdeu
quando ardeu
de Emoção;
  
A Emoção
percebeu
que viveu
sem Razão;
  
'- Vou sentir!'
'- Vou pensar!'
Declararam.
  
Ah! E aqui,
neste bar,
terminaram...
456

ANO NOVO DE VERDADE

Venha novo, mas novo de verdade,
Sem medo de que possa machucá-lo;
Venha novo, e que seja breve estalo
Na passagem do tempo. Sem saudade.
 
Venha novo, por ser ato,vontade,
Mas que cause a surpresa de um regalo;
Venha novo, maior (sonho que embalo),
Em busca de justiça e liberdade.
 
Um Ano Novo, assim, tão desejado,
Que lhe traga prazeres e delícias;
Este Ano Novo existe, bem guardado;
 
Mas tudo são apenas esperanças.
Melhor que as tenha. Ou então:cobice-as;
Pois elas só começam com mudanças.

.
445

QUESTÕES NÃO RESOLVIDAS (ou A Lanterna de Diógenes)

Somos seres: sujeitos ou objetos?
Transitamos nas mesmas avenidas
Entre vozes perenes,esquecidas...
E nos sentimos frágeis e incompletos.
 
Temos - em diferentes alfabetos -
Questões que nunca foram resolvidas:
Sublimamos os sonhos com mordidas
E enganamos a fome com projetos.
 
Se pudéssemos ler nas entrelinhas
Quanta coisa pequena nos governa:
Obras menores, lógicas mesquinhas...
 
É tempo de pensar novas propostas.
De carregar na mão uma lanterna,
E de propor perguntas e respostas.
 
451

SONETO PARTIDO

Se o presente acontece, o acontecido

é fragmento guardado na memória;

ou registro que fica ( ou não ) na história

transformado, na essência do sentido.

Não é mais o que foi quando vivido -

irresgatável nota promissória -,

sendo apenas a porta divisória,

como tantas que falam ao olvido.

Se certezas garantem alegrias

( ao cedermos aos beijos da vontade

reduzimos as nossas agonias ),

não nos dão nada mais do que conforto.

Afinal a vivida realidade

se converte depois em corpo morto.

821

BRAZIL REVISITED

Senhores para mando temos tantos,

Que querem governar e tirar tudo;

Uns valem-se de força ou de canudo;

Outros se vestem como fossem santos

Para vender aos crédulos seus cantos.

Os filhos vão embora para estudo,

E aprendem sempre o mesmo conteúdo.

Depois repartem feudos nos recantos.

Proclamam a moral com mil amantes;

Alguns erguem castelos nas montanhas,

Fidalgos de uma corte de farsantes.

Suborno chamam "sobras de campanhas";

Vergonha não revelam nos semblantes;

E escondem a verdade com patranhas.

873

RECOMEÇAR

Mortos todos os sonhos, resta amar

o momento e a quem nunca imaginamos;

Resta olhar sem os olhos que julgamos

e que nos deram medo de avançar.

Ouvir os sons que nunca reparamos,

coisas simples que tocam sem cobrar;

Resta poder falar o que pensamos,

e nos lançar sem âncoras no mar.

Pisar o chão com pés de quem voltou,

depois de longos anos de proscrito,

e retomar a luta com frescor.

E quando os sonhos todos retornarem,

com suas asas negras de granito,

resta saber viver... e os libertarem!...

807

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

CARLOS ALBERTO DE MELLO nasceu na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Possui poemas publicados nos livros VIDA (2001) e CANTO DE RUA (1981). Ambos com edição esgotada. Escreveu também um livro voltado ao público infanto-juvenil (DESCOBRINDO O BRASIL) sobre mamíferos brasileiros ameaçados de extinção. É funcionário público federal, com curso de pós-graduação em Letras na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Publica seus poemas também no sítio http://poesianarede.no.comunidades.net/

 

Algumas palavras sobre o Autor:

 

“...não há dúvida que você é poeta, e pode desenvolver uma bela obra.”

Affonso Romano de Sant´Anna

 

“Os seus decassílabos são ótimos. Não é fácil escrever de forma tão eficazmente simples.”

Alexei Bueno

 

“...importante contribuição à poesia brasileira (o livro VIDA). Vida à Literatura.”

Ivan C. Proença

 

“...seus decassílabos não são apenas um exercício de estilo, mas uma lição de concisão e de austeridade. Exemplo disso, entre outros, o antitético e bem realizado soneto O QUERER.”

Ivan Junqueira

 

“Os seus poemas se distinguem da enxurrada de livros no gênero por encerrar um verdadeiro sentimento poético.”

Massaud Moisés

 

“Gostei muito do livro (VIDA), principalmente do setor de sonetos onde percebo sua habilidade em trabalhar para que a forma não imponha uma “fórmula”.”

Suzana Vargas