Maldito Eros
Quanto menos me amam,
mais eu amo.
Como se Eros,
em sua ironia cruel,
tivesse feito de mim
discípulo da ausência.
Platão dizia
que a paixão é uma doença da alma,
um movimento desordenado
de um espírito debilitado.
E talvez seja isso.
Talvez exista em mim
algo enfermo
que transforma rejeição em desejo
e distância em devoção.
Sempre anseio aquilo
que não posso ter.
O inalcançável me seduz
como o horizonte seduz o náufrago:
quanto mais distante,
mais irresistível parece.
O meu amor cresce no abandono.
Floresce na distância.
Incendeia no silêncio.
Como se a falta do outro
alimentasse em mim
uma necessidade desesperada
de amar por dois.
E então permaneço,
mesmo diante do frio,
mesmo diante da ausência,
como um homem sedento
bebendo água do mar,
sem perceber
que aquilo que o mantém vivo
também o destrói.
Talvez Schopenhauer estivesse certo:
amar é apenas a vontade
fazendo do homem
servo de suas próprias ilusões.
Porque quanto menos recebo,
mais ofereço.
Quanto menos existo no outro,
mais o outro ocupa espaço em mim.
E assim sigo,
movido por essa estranha enfermidade,
tentando transformar migalhas
em eternidade.