Lista de Poemas

Perguntas

A distância preenche o ar
O tempo percorre a distância
A tua voz acaricia tímpanos
Minha face? Inconstância.

A distância percorre montes
Do céu ao rio viajo no tempo
Do abstrato pulo para o concreto
Nuvens e ondas transformadas em sentimento.

Linear é o amor?
Transportando um século de verdade
Meus ombros incansáveis
Na certeza de que tudo é realidade.
120

Toda noite

Toda noite vejo aquela velha estrela num céu quase negro
Toda noite acho que o trem ainda é o mesmo

Toda noite tenho a certeza que Deus existe
Toda noite percebo que não há motivo para ser triste

Toda noite lavo a alma com meu pranto
Toda noite fico quieta no meu canto

Toda noite te espero com alegria
Toda noite não é todo dia...

Toda noite ouço as mesmas músicas
Toda noite leio as mesmas notícias

Toda noite escrevo as mesmas palavras
Toda noite invento novas letras

Toda noite... todo dia... tudo difere e fere
Sacudindo a alma numa revelação trêmula

Vivo entre a razão e a emoção
Num equilíbrio quase distante

Vivo porque sei que combinamos que assim seria
Vivo toda noite, mas toda noite não é todo dia.
94

Permissão

Permito-me querer-te
Ser olho cego ao passado
Permito-me gostar de ti
Ser voz rouca, ficar gravado.

Permito-me adorar-te
Ser tímpano naufragado
Permito-me amar-te
Ser coração aprisionado.

Permito-me sentir tua falta
Ser alma, pulsar calado
Permito-me ser eu:
Pássaro azul apaixonado.
92

Autorretrato

Por três vezes escutei aquele disco
Na tentativa de achar palavras
Que tentassem me desenhar
Da forma mais precisa.

Não! Palavras têm que ser mais
São sentimentos
De alegria ou tristeza
De amor ou rancor.

E você, o que acha?
Talvez eu nunca saiba
Mas quem sabe?

E esta é minha vida
Meu destino
Eterno mistério de mim mesma.
81

Deixa assim

Não, eu não quero mais falar de mim!
Eu não quero mais pensar assim:
Forma icógnita de ser.

Não, eu não quero descobrir-me
Falar de coisas que não sei se sei
Quero a paz dos pássaros.

Deixar viver
Sair para voar e ver
Árvore e criança crescer.

Não, eu não quero pensar no que sou
Quero sair
Sem saber para onde vou.

Amor, deixa assim
Nada complicado
Só você perto de mim.
91

Pássaro preto

Pássaro preto que rouba a cena
Quebra meu silêncio
Canta cantiga solitário
Na esperança de não ser só imaginário.

Pássaro preto de olhar tranqüilo
De galho em galho procuras
Mas solidão é teu nome, vens
Que o palco é o verde que tens.

Pássaro preto porque não me levas?
Não me roubas com tuas asas?
Só sacodes tuas penas
E continuas a cantar, encenas.

Como quem espera o amor
Que um dia encontrará
Talvez aqui, rio sereno
Talvez ali, mar pleno.

Pássaro preto que vai
Com som fino, incansável
Constante na espera
De um amor que te leve, nova era.

Pássaro preto... Para onde voastes?
83

Exílio

Ainda morre-se de amor…
E é lento como a nuvem que chega ao jardim.
Lá ainda vaga o teu sonho…
Fugidio das coisas breves, ele vai.

Eu vi ontem em teus olhos o instante que chovia
Sorrateiro você disfarçou
E, de repente, o encanto estremeceu
E minhas pernas trêmulas diziam mais do que eu poderia.

Ainda morre-se de amor…
O mesmo que vi nascer… agora hei de viver.
Quantos errantes corações ficam para trás?
Não faço idéia, mas… ainda morre-se.

E, um dia, de tanto amor… exilar-me-ei.
98

Dentro da gente

Temos a casa dentro da gente
E quando somos obrigados a ficar dentro dela
Queremos acender todas as luzes...
Como se estivéssemos com medo do escuro
Escuridão esta que é a própria sombra.

Temos a casa dentro da gente
E deitamos no chão, no tapete, no sofá...
Deitamos em lugares diferentes
Buscando um novo ângulo ou, quiçá, um inseto
E ficamos ali... imóveis nos imóveis.

Temos a casa dentro da gente
Às vezes perdemos a chave da porta
Às vezes a jogamos pela janela...
Respiramos sempre o mesmo ar preso da casa fechada
Sem saber que é este ar um aprisionamento da vida lá fora.
101

Sobrevivência no caos

Alimente-se de livros
Consuma-os um a um
Devore-os lentamente e continuamente
Perceba cada página virada
Como uma mordida no pão que alimenta seu corpo.

Embriague-se com o prazer que o cheiro dos livros provoca
Deixe-se impregnar por aquilo que eles exalam
Beba cada palavra sem pressa
Sinta as frases percorrerem seu esôfago
E alcançarem seu estômago.

Respire as idéias de cada escritor
Sem deixar-se sufocar por elas
Apenas permita-se conhecer cada universo
Inspire cada letra ao avesso
E expire discernimento.

Durma tranqüilamente no balanço de uma rede de idéias
Escreva seu livro!
Sonhe, desperte,
Adormeça, sim... adormeça!
Só não adormeça na escuridão de uma biblioteca vazia.
94

Catavento

Roda de crianças, andanças
Roda-moinho
Procuro lembranças

Catavento, roda-viva, roda-ilusão
O mundo ainda gira
Onde giram os sonhos de paixão.
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