Pernambucana multipotencial, escreve contos, romances e, principalmente, poesias. Criadora do Método Escrita Multipotencial, também desenvolve um projeto de leitura afetiva, onde atua como mediadora em grupos de leitura para o autoconhecimento.
A distância preenche o ar O tempo percorre a distância A tua voz acaricia tímpanos Minha face? Inconstância.
A distância percorre montes Do céu ao rio viajo no tempo Do abstrato pulo para o concreto Nuvens e ondas transformadas em sentimento.
Linear é o amor? Transportando um século de verdade Meus ombros incansáveis Na certeza de que tudo é realidade.
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Toda noite
Toda noite vejo aquela velha estrela num céu quase negro Toda noite acho que o trem ainda é o mesmo
Toda noite tenho a certeza que Deus existe Toda noite percebo que não há motivo para ser triste
Toda noite lavo a alma com meu pranto Toda noite fico quieta no meu canto
Toda noite te espero com alegria Toda noite não é todo dia...
Toda noite ouço as mesmas músicas Toda noite leio as mesmas notícias
Toda noite escrevo as mesmas palavras Toda noite invento novas letras
Toda noite... todo dia... tudo difere e fere Sacudindo a alma numa revelação trêmula
Vivo entre a razão e a emoção Num equilíbrio quase distante
Vivo porque sei que combinamos que assim seria Vivo toda noite, mas toda noite não é todo dia.
114
Dentro da gente
Temos a casa dentro da gente E quando somos obrigados a ficar dentro dela Queremos acender todas as luzes... Como se estivéssemos com medo do escuro Escuridão esta que é a própria sombra.
Temos a casa dentro da gente E deitamos no chão, no tapete, no sofá... Deitamos em lugares diferentes Buscando um novo ângulo ou, quiçá, um inseto E ficamos ali... imóveis nos imóveis.
Temos a casa dentro da gente Às vezes perdemos a chave da porta Às vezes a jogamos pela janela... Respiramos sempre o mesmo ar preso da casa fechada Sem saber que é este ar um aprisionamento da vida lá fora.
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Exílio
Ainda morre-se de amor… E é lento como a nuvem que chega ao jardim. Lá ainda vaga o teu sonho… Fugidio das coisas breves, ele vai.
Eu vi ontem em teus olhos o instante que chovia Sorrateiro você disfarçou E, de repente, o encanto estremeceu E minhas pernas trêmulas diziam mais do que eu poderia.
Ainda morre-se de amor… O mesmo que vi nascer… agora hei de viver. Quantos errantes corações ficam para trás? Não faço idéia, mas… ainda morre-se.
E, um dia, de tanto amor… exilar-me-ei.
112
Autorretrato
Por três vezes escutei aquele disco Na tentativa de achar palavras Que tentassem me desenhar Da forma mais precisa.
Não! Palavras têm que ser mais São sentimentos De alegria ou tristeza De amor ou rancor.
E você, o que acha? Talvez eu nunca saiba Mas quem sabe?
E esta é minha vida Meu destino Eterno mistério de mim mesma.
95
Deixa assim
Não, eu não quero mais falar de mim! Eu não quero mais pensar assim: Forma icógnita de ser.
Não, eu não quero descobrir-me Falar de coisas que não sei se sei Quero a paz dos pássaros.
Deixar viver Sair para voar e ver Árvore e criança crescer.
Não, eu não quero pensar no que sou Quero sair Sem saber para onde vou.
Amor, deixa assim Nada complicado Só você perto de mim.
104
Sobrevivência no caos
Alimente-se de livros Consuma-os um a um Devore-os lentamente e continuamente Perceba cada página virada Como uma mordida no pão que alimenta seu corpo.
Embriague-se com o prazer que o cheiro dos livros provoca Deixe-se impregnar por aquilo que eles exalam Beba cada palavra sem pressa Sinta as frases percorrerem seu esôfago E alcançarem seu estômago.
Respire as idéias de cada escritor Sem deixar-se sufocar por elas Apenas permita-se conhecer cada universo Inspire cada letra ao avesso E expire discernimento.
Durma tranqüilamente no balanço de uma rede de idéias Escreva seu livro! Sonhe, desperte, Adormeça, sim... adormeça! Só não adormeça na escuridão de uma biblioteca vazia.
107
Quando por mim você passar...
Quando por mim você passar Não procure palavras em meus olhos Não se assuste com um resquício de sorriso Não se esqueça daquela porta aberta
Quando por mim você passar Não veja o que não sente Não mova sua pálpebra distante Não segure a alma liberta
E com o passar do tempo Sendo breve ou longo o prazo Recorde-se apenas de que eu te quis
E permaneça como uma foto Trazendo recordações daquele tempo Em que eu julgava ser feliz.
100
Pássaro preto
Pássaro preto que rouba a cena Quebra meu silêncio Canta cantiga solitário Na esperança de não ser só imaginário.
Pássaro preto de olhar tranqüilo De galho em galho procuras Mas solidão é teu nome, vens Que o palco é o verde que tens.
Pássaro preto porque não me levas? Não me roubas com tuas asas? Só sacodes tuas penas E continuas a cantar, encenas.
Como quem espera o amor Que um dia encontrará Talvez aqui, rio sereno Talvez ali, mar pleno.
Pássaro preto que vai Com som fino, incansável Constante na espera De um amor que te leve, nova era.
Pássaro preto... Para onde voastes?
95
Encanto
Talvez meu sonho seja realmente inexeqüível, mas ainda assim prefiro acreditar no amor. E se eu adormecer… deixe-me sonhar.