Pernambucana multipotencial, escreve contos, romances e, principalmente, poesias. Criadora do Método Escrita Multipotencial, também desenvolve um projeto de leitura afetiva, onde atua como mediadora em grupos de leitura para o autoconhecimento.
A distância preenche o ar O tempo percorre a distância A tua voz acaricia tímpanos Minha face? Inconstância.
A distância percorre montes Do céu ao rio viajo no tempo Do abstrato pulo para o concreto Nuvens e ondas transformadas em sentimento.
Linear é o amor? Transportando um século de verdade Meus ombros incansáveis Na certeza de que tudo é realidade.
146
Toda noite
Toda noite vejo aquela velha estrela num céu quase negro Toda noite acho que o trem ainda é o mesmo
Toda noite tenho a certeza que Deus existe Toda noite percebo que não há motivo para ser triste
Toda noite lavo a alma com meu pranto Toda noite fico quieta no meu canto
Toda noite te espero com alegria Toda noite não é todo dia...
Toda noite ouço as mesmas músicas Toda noite leio as mesmas notícias
Toda noite escrevo as mesmas palavras Toda noite invento novas letras
Toda noite... todo dia... tudo difere e fere Sacudindo a alma numa revelação trêmula
Vivo entre a razão e a emoção Num equilíbrio quase distante
Vivo porque sei que combinamos que assim seria Vivo toda noite, mas toda noite não é todo dia.
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Permissão
Permito-me querer-te Ser olho cego ao passado Permito-me gostar de ti Ser voz rouca, ficar gravado.
Permito-me adorar-te Ser tímpano naufragado Permito-me amar-te Ser coração aprisionado.
Permito-me sentir tua falta Ser alma, pulsar calado Permito-me ser eu: Pássaro azul apaixonado.
111
Encanto
Talvez meu sonho seja realmente inexeqüível, mas ainda assim prefiro acreditar no amor. E se eu adormecer… deixe-me sonhar.
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Sobrevivência no caos
Alimente-se de livros Consuma-os um a um Devore-os lentamente e continuamente Perceba cada página virada Como uma mordida no pão que alimenta seu corpo.
Embriague-se com o prazer que o cheiro dos livros provoca Deixe-se impregnar por aquilo que eles exalam Beba cada palavra sem pressa Sinta as frases percorrerem seu esôfago E alcançarem seu estômago.
Respire as idéias de cada escritor Sem deixar-se sufocar por elas Apenas permita-se conhecer cada universo Inspire cada letra ao avesso E expire discernimento.
Durma tranqüilamente no balanço de uma rede de idéias Escreva seu livro! Sonhe, desperte, Adormeça, sim... adormeça! Só não adormeça na escuridão de uma biblioteca vazia.
109
Pássaro preto
Pássaro preto que rouba a cena Quebra meu silêncio Canta cantiga solitário Na esperança de não ser só imaginário.
Pássaro preto de olhar tranqüilo De galho em galho procuras Mas solidão é teu nome, vens Que o palco é o verde que tens.
Pássaro preto porque não me levas? Não me roubas com tuas asas? Só sacodes tuas penas E continuas a cantar, encenas.
Como quem espera o amor Que um dia encontrará Talvez aqui, rio sereno Talvez ali, mar pleno.
Pássaro preto que vai Com som fino, incansável Constante na espera De um amor que te leve, nova era.
Pássaro preto... Para onde voastes?
96
Autorretrato
Por três vezes escutei aquele disco Na tentativa de achar palavras Que tentassem me desenhar Da forma mais precisa.
Não! Palavras têm que ser mais São sentimentos De alegria ou tristeza De amor ou rancor.
E você, o que acha? Talvez eu nunca saiba Mas quem sabe?
E esta é minha vida Meu destino Eterno mistério de mim mesma.
98
Catavento
Roda de crianças, andanças Roda-moinho Procuro lembranças
Catavento, roda-viva, roda-ilusão O mundo ainda gira Onde giram os sonhos de paixão.
105
Exílio
Ainda morre-se de amor… E é lento como a nuvem que chega ao jardim. Lá ainda vaga o teu sonho… Fugidio das coisas breves, ele vai.
Eu vi ontem em teus olhos o instante que chovia Sorrateiro você disfarçou E, de repente, o encanto estremeceu E minhas pernas trêmulas diziam mais do que eu poderia.
Ainda morre-se de amor… O mesmo que vi nascer… agora hei de viver. Quantos errantes corações ficam para trás? Não faço idéia, mas… ainda morre-se.
E, um dia, de tanto amor… exilar-me-ei.
113
Papéis Avulsos
Lacunas preenchidas Por vazios eternos e fins Até quando irão viver As folhas destes jardins?
É tão grande e forte Contrário à dor Tão puro, tão sincero Como é vivo o meu amor.
A não se que tu mates Com ecos de silêncio e alma Se da tua voz nada vem Deixo-te na chuva ainda calma.
Se hoje vens me buscar Amanhã surgem elos Por mais distante que estejas Mais longe do que os afélios.
Tempo longo, vida breve Amor que me invade e arde Espera-te em rios e grãos Mas não vens, pois é tarde.