Carol Ortiz

Carol Ortiz

A minha intensidade vomita existências...

n. 0000-09-18, Campinas, SP

Perfil
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UM CANTO PARA A MORTE

Se a morte é sorte
que seja forte
quem vivenciá-la

porque encará-la
mesmo com coragem
supõe a bagagem
de ansiedade
incredibilidade
e medo
de achar que é cedo

tudo não tarda
e antes que parta
é bom se perder
nas entranhas da vida
que tão resumida
entrega-se à morte
que, cá entre nós, seja forte


2021
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Biografia

Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: [email protected] (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
 https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber

Poemas

283

JOÃO

Nasceu João, filho da Nação
ainda pequeno, de bom coração
família não teve, infância também não
viveu nas ruas batalhando a fome
sendo esmagado pela população
foi trabalhar e tentou se virar
mas o preconceito era maior
que esnobavam o menor

Cresceu João, filho da Nação
apesar das dificuldades, tinha bom coração
aprendeu a viver com o medo e a dor
com a fome, com a vida
com o preconceito da cor
varria ruas, entregava papelada
ganhava um dinheiro que para nada dava

Viveu João, filho da Nação
com tantos horrores, não tinha coração
aprendeu a lutar, roubar, matar
foi preso mas conseguiu fugir de lá
namorava a bonita e bela Maria
nessa época foi feliz
tinha tudo o que queroa
até que uma noite João foi roubar
estava feliz, nunca precisou matar
então foi dormir e com os anjos sonhar
mas no dia seguinte não precisou acordar

viu, então, toda a população
mais um corpo jogado
todo ensanguentado
estendido no chão,
embaixo do Minhocão
Morreu João, filho da Nação
com apenas vinte anos de idade
foi vítima da sociedade


ANO: 1992
502

PRA QUEM QUER AMAR...

Você está disposto
a ser a aposta
posta na mesa?
Então não ame
porque são damas
de encontro a paus
num mundo de espadas
pontiagudas e cortantes,
são ases de copas
angustiantes.


ANO: 2006
826

TEMPO QUE ME SUFOCA

Estou perdida
entre rostos sombrios
enquanto anjos caem do céu
A dor aumenta,
escadas indicam caminhos opostos
e a cor some
na sombra da névoa do medo
Estou com frio
e quero colo
quero só mais um agrado
Meu corpo treme
e as vozes falam
mas não dizem nada
Me abrace,
me segure,
estou perdida
no abismo que construí
Sinto sua falta
desde criança
Quero colo,
quero uma canção para dormir
quero que leia uma história
quero carinho
Por favor!
Não vá embora,
a cada partida 
é um buraco negro
Só quero abraço
e a certeza de que vai ficar...


ANO: 2000
938

SOMENTE UM PASSO

     Já cansada de toda essa luta em vão, a velha jovem senhorita caminhou de olhos vendados, segura de estar no caminho certo. Subiu até o ponto mais alto e esperou que as nuvens negras passassem.
     Como pássaros, elas iam e voltavem, fazendo malabarismos celestiais ao redor daquela figura mirrada, mal compreendida pela ignrância.
     Sentiu seus cabelos baterem contra aquele vento amargo, indo de encontro com as coisas que já tinha visto, com o passado.
     Em voz alta, começou a vomitar todos os seus sonhos, que fediam e se espalhavam na terra molhada pelas suas lágrimas.
     Quanta saudade de um dia em que foi humana! Saudade da personalidade que o tempo levou e deixou perdido na lembrança de alguém, talvez.
     Lembrou-se de pessoas especiais que cruzaram seu caminho. Gente que a fez sorrir, que a deixou ansiosa, feliz e a fez chorar, mostrando a verdadeira face da realidade sombria que persegue cada ponto móvel, insignificante, chamado homem.
     Perdida em suas lembranças, sentiu o vento em seu rosto mais uma vez.
     Um suspiro a fez sentir viva. Percebeu que já estava terminando.
     Então, tirou o pano que tapava seus sonhadores olhos castanhos. Olhou para o outro lado daquele abismo e viu as rochas enormes sugadas pela selvageria da água doce que alimenta e mata.
     Com toda a coragem e, talvez, satisfação, deu um simples e delicado passo em direção do, talvez (novamente), eterno final.
     As nuvens negras choraram, despencando toda a tristeza em forma de gotas, manchando e marcando aquele momento.
     O vento soprou com mais força.
     O sol se escondeu atrás de nuvens, não querendo testemunhar aquele fúnebre episódio.
     As garças, habitantes do local, voaram em bando, à procura de abrigo seguro, fugindo da ânsia de destruição daquela tarde.
     A natureza entristeceu e descarregou suas forças por meio de raios ferozes.
     Enquanto esse espetáculo se mostrava, ela caia levemente, por deixar seus pecados no passado.
     Encontrou-se com seu destino e, já inanimada, era simplesmente carregada por aquele rio. Era mais uma flor que enfeitava aquelas águas silenciosas.
     Dessa forma a cortina se fechou e essa cena terminou na calmaria do equilíbrio das coisas vivas ao redor de um cadáver.
     Então, tudo calou-se para sempre, caíndo no esquecimento de pessoas que estão sempre a procura de novidades.


ANO: 1999
914

POESIA INEXISTENTE

1% sou eu
99 é ninguém
Não sei
Não quero
Não digo
Não penso
Não faço
Não vivo...
Aposto no impossível
Me vejo...invisível
Pare
Sinta
Espere
Não sei o que
Faz com que
Fere
Sugere, me fere, emperre
Supere, escute, mude
                        nada
                        para (o)
                        nada


ANO: 1994
889

UM CONTO DA VIDA

Amaram-se a noite toda. Então, ao amanhecer, ela partiu.
         "Espere, não saia sem pegar seu dinheiro"- disse-lhe isso a fim de humilhá-la ainda mais. Já não bastava terminar uma história de anos de forma tão rude! - "Pegue seu dinheiro e sinta-se paga por todos esses encontros."
          Ela bateu a porta e saiu, chorando. Não entendia como um ser humano era tão baixo e tão malvado. Estava magoada. Sentia-se um lixo, uma infeliz.
          Então foi para casa e sentou-se num canto qualquer. Ficou ali, parada, quieta, calada, pensando...

          "Realmente é positivo. Acho que devo os parabéns! A senhora vai ser mãe."
          "Como disse?" foi a única frase que conseguiu pronunciar. A angústia e desespero brotavam por seus poros. Como suportar tudo isso? Era sozinha no mundo e a pessoa mais próxima era o pai do filho em sua barriga.
           Então foi para casa e sentou-se num canto qualquer. Ficou ali, parada, quieta, calada, pensando...

          O telefone tocou de madrugada e uma voz rouca de mulher atendeu. Quem poderia ser? Outra amante? Agora o desprezava mais e mais e sentia sua última gota de auto-estima evaporar-se no ar nebuloso em que se encontrava.
          Foram quase dez anos de desespero, ameaça, ilusão e sofrimento. Dez anos construídos sobre uma base de sonhos que escorregaram para o nada!
          Sentou-se num canto qualquer e ficou ali, parada, quieta, calada, pensando...

          "Grávida?! Como? Não, não pode ser! Sinto, mas tenho minha vida para cuidar"
          Outra vez humilhada, massacrada. Sua pobreza a sufocava e a riqueza dele a esmagava profundamente, perfurando o resto de sobriedade guardada. Tentou conter o choro e sufocar o que restava de sentimentos.
          Foi para casa e encostou-se num canto qualquer, ficando ali, parada, quieta, calada, pensando...

          O dinheiro estava acabando. Trabalhava como louca e cuidava da cria que se perdia no meio da garotada do bairro. 
          O menino ia fazer 9 anos. Por mais que tentasse negar, seu filho carregava a forte semelhança física do pai. Naquele ano queria dar-lhe um presente. Um luxo no meio de tanta dificuldade! Contou as economias e conseguiu comprar um jogo de canetas e lápis coloridos.
          Estava entrando na toca em que viviam, quando viu, na TV, o novo personagem da semana: Sr. Maldade e Família! Ele, impecavelmente apresentado, estava com a esposa jovem e impecavelmente arrumada, que segurava nas mãos os dois filhinhos impecavelmente fofinhos e gorduchinhos. A Família Impecável estava em um programa dando entrevistas sobre banalidades de um mundo impecavelmente perfeito.
           Em choque, ela olhou-se no espelho. Seus cabelos eram opacos e despontados, a pele descuidada e enrugada. A magreza salientava-se e a aparência era de muito mais idade do que realmente tinha.
          Olhou para o filho e viu um menino magro, lombriguento, com trapos velhos e rasgados. Um cachorrinho sarnento com medo do mundo.
           Seus olhos se encheram de lágrimas. Então, foi sentar-se, ficando ali, parada, quieta, calada, cansada, pensando...

           Ele estava no escritório aquele dia. Ficou lá até tarde da noite. As luzes estavam apagadas e a sala era iluminada apenas por uma lâmpada fraca.
           Uma mulher bem mais jovem do que sua jovem esposa, vestia-se sensualmente, enquanto ele, ainda nú, bebia um copo de uisque.
           Ela ficou ali, do lado de fora, esperando. Viu quando beijos de despedida rolaram e quando a loura saíu pelos fundos. Ele, só, recostou-se na poltrona de couro olhando para o nada.
          Alguém tocou a campanhia. Ele foi atender. Era ela.
          "Como está feia e abatida! Sorte que a deixei." - foram os pensamentos dele.
           Ela o empurrou e entrou no escritório. Mostrou-lhe a foto do menino e aguardou a reação. 
           Ele olhou espantado: "Que bichinho feio!"- pensou. Mas tinha seu sorriso, não podia negar. Então, o inesperado aconteceu: ele assumiu para si mesmo que tinha mais um filho.
           Ambos em silêncio enquanto ela remexia em sua bolsa. Com um olhar vingativo e com satisfação, atirou todas as balas daquele velho revólver em cima do co-autor do seu sofrimento.
          Ele caiu ali, segurando firmemente a foto do filho que, a partir desse dia, foi morar com sua esposa que agora é viúva.
          Ela, por sua vez, apenas sentou-se num canto qualquer, ficando lá, parada, quieta, calada, pensando... (enquanto danças de luzes vermelhas e sirenes angelicais tocavam a música da insanidade).


ANO: 2000
930

Rua do Alumbramento

Rua do Alumbramento

Levei minha alma
a caminhar
na rua do alumbramento.
Procurava algo doce,
um tipo de estranhamento.

Como um belo improviso,
a vida trouxe um aviso:
“Não há nada que contente
além, apenas, o encantamento
desse dia tão sagrado,
cores desse sol dourado”

Fui buscar contemplação
no céu azul-roxo-esverdeado
e colhi, com ternura,
pra quem lê esta leitura,
um minuto intensificado,
nessa singela oração:

Que seu dia seja leve,
que você se cure,
se aventure
longe de todas suas dores
e dos seus dissabores...
Seja lá o que for,
vai passar

⚘️ Cacal

160

Instagram... (por que publicar o que é nosso?)

Uma cena, um cenário 
Um lugar só de nós dois, 
Uma memória construída 
No silêncio de uma noite fria...
Era íntima, era secreta,
Era escondidinha 
porque criava laços, 
Conexõe  entre nossas vidinhas...
E foi assim, sumindo, 
Deixando a magia se perder
Na exposição desnecessária

Pra você pode ser pouco,
Mas senti uma invasão...

Não fizemos um roteiro,
Mas um ninho,
Não atuamos no cinema,
Era só um pedaço de carinho

Em que eu brilhava na lembrança, 
Entre estrelas e planetas
Mas agora sou invisível, 
De novo...

Eu me vi ausente
Na memória que também era minha

Cacal 

135

Lucidez brutal

(não sou monstro e menos ainda um projeto de salvação)

Nasci sem pele,
descascada,
nua de proteção
Meu sorriso infeccionava
todo dia...
ardia aqui,
queimava ali
até ter pus

Sons profundos 
cheiros adoeciam
sabores indizíveis 
e até desprezíveis
tudo era demais

Criava mundos de sonhos 
de Bicho-papão 
num modo sobrevivência 
à correnteza de confusão 

Cresci no furacão,
redemoinho de gente
tudo era forte, 
gritando, 
acontecendo,
sem um porquê
informações, todas juntas,
conflitando
com o fato de eu ser...
...ser o quê?....

A verdade-curto-circuito 
de intensidade,
num grande mar de sensações inundando as vidas que toquei
e, de verdade,
(eu sei) modifiquei 
naquele louco frenesi

Sucumbi ao vendaval 
tantas vezes!
Mergulhava na vida,
lambuzava as feridas,
criei, voei, cruzei marcas
e - me - marquei
foram inúmeras 
as vezes que enlouqueci
e chorei...como chorei

Estou cansada,
cansei de ser eu:
intensa e desperta
uma ilha deserta
uma peça quebrada
estragada
no meio de todo um mundo
que não sabe acolher

Minhas lágrimas pedem trégua 
já andei por tantas léguas 
que estou sem condição  
de lutar por todo o sempre
não quero que me temam
muito menos me salvem,
quero respirar sem dor, 
sem essa coisa de ser extrema
quero o vômito das mágoas 
e o perdão de um poema

Cacal 
2025

147

Quando você é tão invisível...

"Quando você é tão invisível que comer deixa de ser um ato corriqueiro

 

Tudo começa assim: a gente quer parar de doer. Parece uma depressão. Paralisamos, gradativamente, as atividades e começamos a engolir absurdos: o lugar para doces, salgados, sucos, chás e água, deixa de existir. A tensão é tanta que o corpo endurece e passamos ter a falsa segurança na mudez da vida, tentando controlar o que ainda resta: nós. A fome é abismal, mas um nó interior bloqueia todas as passagens. Começamos a falhar: a menstruação cessa, o intestino seca, os rins falham, as gengivas sangram e as olheiras roxas denunciam. Estamos tão perturbadas à essa altura, que olhamos no espelho e não nos reconhecemos: eu, uma menina de quase 1,70, carregando meus míseros 40 kg... engana-se quem pensa se tratar de estética - "foda-se o outro. Foda-se o espelho". Esse fantasma tem nome : anorexia. Viver assim é cair num labirinto à procura da paz que nunca vem... (foto já em processo de "engorda") Hoje, quando alguém, aponta o dedo sobre questões de peso, dou gargalhadas e saio andando

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Comentários (6)

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Ademir domingos zanotelli.
Ademir domingos zanotelli.

Minha cara poetiza Carol Ortiz - quanto tempo.... menina ... até que enfim nos conectamos... seu texto é maravilhosamente contundente... como esta você.... está bem de saúde... está viajando muito.... me visite menina... estava com saudade de você no Escrita . org. vê se faz alguns poemas para nós.... manina já estou com 1.840 textos escritos. fui indicado para compor o pessoal de Poesias para as escolas Br. em outubro do ano passado.... vamos ver o que vai dar. abraços. é bom saber que estas bem... me visite aqui no site... Ademir o poeta. rsrsrsrsrsr. até mais.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli

Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.

Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.

Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.

Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.