Carol Ortiz

Carol Ortiz

A minha intensidade vomita existências...

n. 0000-09-18, Campinas, SP

Perfil
67 977 Visualizações

UM CANTO PARA A MORTE

Se a morte é sorte
que seja forte
quem vivenciá-la

porque encará-la
mesmo com coragem
supõe a bagagem
de ansiedade
incredibilidade
e medo
de achar que é cedo

tudo não tarda
e antes que parta
é bom se perder
nas entranhas da vida
que tão resumida
entrega-se à morte
que, cá entre nós, seja forte


2021
Ler poema completo
Biografia

Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: [email protected] (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
 https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber

Poemas

283

Carta a todos os borderlines


Ei, você, te conheço e muito bem. Sua vida é um furacão, cheia de enormes altos (verdadeiros Picos do Everest) e grandes baixos (típicas Fossas da Mariana). Seu humor é estranho, você não se enquadra em padrões, provavelmente é muito inteligente, sente-se entediado facilmente e também é muit empático e engraçado. Vive rodeado por aventuras e seus amigos "um poco mais normais" adoram. 
Provavelmente você já se feriu em crises de impulsividade. Já usou- e até abusou - de substâncias psicoativas. Sente aversão à sons, cheiros, luzes e coisas que te levam a momentos de irritabilidade dignos de causar orgulho ao Incrível Hulk. 
Dorme pouco, não é verdade? Quer parar de pensar em excesso mas não consegue. Vive se jogando em experiências e, inclusive, já pensou, sonhou e almejou ardentemente a morte... O suicídio límpido, cristalino, silencioso já foi percebido como a única forma de frear toda a loucura que é sua vida, não é mesmo?... 
Mas deixa te contar uma coisa: você está aqui, lendo essa carta, no presente, porque - pouco importa como você nomeia este motivo- decidiu continuar. Você não morreu, você seguiu com marcas, cicatrizes no corpo e no espírito, com o bom e velho cansaço e com memória da dor. 
Você respira e algo em você persiste, insiste, irritantemente, em continuar.  Algo pulsa - nem que seja um fiozionho de força- e te mantém.  Isso é o real. Isso é você. 
Nada do que você fez ou viveu foi drama - eu sei, entendo muito bem, também já estive nesse mesmo lugar. Você apenas quis parar a dor e, contradizendo o que quase todos pensam, sua meta sempre foi a sobrevivência. Isso é força e não fraqueza, isso é vida e não a morte. 
Mas, a confusão gerou a exaustão e a exaustão ligou-se ao desamparo que, por fim, encontrou o desespero. Ninguém nunca percebeu porque você sempre continuou seu sorriso, uma piada na ponta da língua e uma energia infindável - todas ferramentas de autoproteção.
Agora olhe ao redor, sente, descanse, respire: você ainda está aqui. A vida insiste em acontecer à sua volta. Você, guerreiro, continua. Toque seu corpo, você é real. Valide suas lágrimas- elas tem um fim. 
Nós,  TPBs, somos flores nascidas em terreno árido, pós guerra existencial. Por lutarmos em tantas batalhas pesadas, não existe algo que de fato consiga nos derrotar - a não ser nós mesmos... somos nossos próprios fantasmas graças a nossa autoimagem fragilizada.
Vamos continuar no "Só por hoje" - frase emprestada de outra irmandade,  primordial para nossa caminhada, e que muitos de nós conhece tão bem. Dê uma trégua ao seu sofrimento: aprenda técnicas de ancoragem, meditação, respiração, faça terapia, se necessário tome medicamento, cuide da alimentação, pratique exercícios, agradeça pequenas coisas e, principalmente, seja gentil, amável e acolhedor consigo mesmo.
No fundo, naquele fundo que ninguém vê, borderlines são apaixonados pela vida - muito mais do que as pessoas "comuns". O problema é que não nos ensinaram como fazer isso sem se perder na nossa intensidade. O aprendizado de uma vida nova é imprescindível para cura. Aprender implica em prática contínua, até que novas habilidades sejam adquiridas para, enfim, mudarmos o jogo. 
E, por último, não esqueça de construir e manter uma rede de afetos com pessoas que nos amem e aceitem como nós somos, afinal, a família de verdade quase nunca tem a ver com laços sanguíneo. 
Você não está sozinho. Boa vida pra você.
Obs: sou profissional de saúde mental e tento levar um abraço à quem sofre, mas também preciso ser abraçada porque, como TPB, preciso de conexões honestas e diálogos profundos. Falar sobre isso e ser escutada me dá forças pra continuar. Gratidão ⚘️ 

178

Quietude- um trecho de celibato e cura

Descanso meu corpo:
não há mais medo,
ameaça,
dor.

Não há toque,
não há sexo,
não há guerra,
nem pavor,
me pertenço sem anseios,
estou segura nesta ilha,
não por força ou fuga,
mas por amor
à toda calmaria.

Minha alma cansada
andou vales,
árduos terrenos,
gritarias e invasões.
Agora quer o silêncio,
aconchego preenchido,
longe do perigo -
não há pecado no toque,
não há engano na fala,
não há desencontros
ou horas exaustas,
vazias, perdidas
num hiato -
Celibato

E minha paz,
minha canção, 
tocando a melodia do aconchego...

Meu corpo pediu descanso
e ouvi,
acolhi
com sutil cuidado
e real significado:
meu ventre é templo
de um tempo de cura.

Enquanto o mundo aponta
“sou ausência”,
minha alma sussurra:
“sou presença
dentro de mim.”

Neste estilo de vida
acolhida,
até quando eu quiser,
um dia direi sim
(no momento certo
junto ao corpo certo,
paciente, inocente, 
pronto para entrega
à uma nova era
madura, segura
e serena)

Sou minha,
não busco confusão,
apenas a quietude da alma,
o equilíbrio,
e a beleza de saber,
finalmente, 
quem sou eu

Cacal

155

MÃOS (Um grito de cura)

Temo tudo!
...assim me foi dito,
foi feito,
foi lido...

às vezes, 
e muitas vezes,
fui ferida:
um colo, 
um afeto
por um preço indizível, 
desprezível 
amargo,
solúvel nas minhas lágrimas

Um toque
me confunde,
me alerta,
me desperta 
medos indomáveis,
incansáveis
de me assombrar...

Vais me ferir?
Me acariciar?
Me odiar?
Me amar?
Sou só indefesa,
tentando a beleza
onde pode ter dor...
uma crua prudência,
insistência, 
pura sobrevivência 

As mãos me fizeram assim,
faltando pedaços de vida,
pedaços de rima,
pedaços de mim
Sempre alerta,
inquieta,
na ânsia de respirar
o ar que (me) faltava
nas horas de estranheza
e incerteza...

Não sei se sonho,
se pesadelo
às vezes carinho,
outras desespero

Sou criança assustada
e, tenho consciência, 
meio despedaçada...
Se não tens mãos sadias,
macias,
não me toques 
NUNCA MAIS!

Pensando bem, 
sem dramaticidade
(e o que tenho de melhor:
autenticidade e muita,
muita sinceridade),
mais valem as minhas mãos 
suaves e afáveis,
capazes de tocar o mundo,
de um modo todo profundo,
curar- me de restos
e curar outros feridos,
do que ter tido me perdido
num passado que não quero mais

Às mãos eu grito:
quebro minhas algemas,
sigo em frente,
com um motivo
e talvez medo
da humanidade,
mas, (re)descobrindo a dignidade,
resgato minha sanidade;
às mãos eu digo:
tu não és mais um perigo!

És apenas sombra
de uma vida enterrada
que me desperta em pesadelos
cada vez mais escassos
talvez vencidos pelo cansaço, 
mas estou disposta a recomeçar,
estou pronta pra te enterrar,
seguir adiante 
e me libertar...

Cacal

123

E se nunca passamos de um sonho?

E se fomos só um sonho? 
Um erro belo demais pra durar,
um sopro no avesso do tempo,
uma sombra de tudo o que somos?
E se o "nós" foi uma crua coincidência? Um toque breve,
duas dimensões que se repetem?
Você me olha 
de um passado estranho
Eu te sinto 
em um futuro nunca visto
Somos o que não conseguiu ser, 
inatingíveis, indecifráveis,
e, por isto, eternos
O mundo inteiro rui, 
as lembranças se embaralharam, 
as realidades colapsam
E continuo
te reconhecendo
na dobra do impossível, 
no eco do que não tem nome, 
no instante antes do despertar.
mesmo sabendo que nunca existimos

2025

162

Não confio

Não confio!
Não julgo,
mas não confio

Sempre tem algo,
tem coisas,
tem alguém,
tem mentiras,
indiferença,
abandonos,
dissabores...

Não confio!
Interajo,
mas não confio:
soltar as mãos,
saltar sobre seu ego,
pisar suas dores, 
ficar pra trás: é sempre fácil,
ser esquecida, apagada?
é mais fácil

Sozinha se vive:
não tem abraço,
não tem respostas,
não há visitas 
quando a febre vem,
mas é seguro,
previsível,
reconfortante saber
que não tem ninguém
Tem um quê de alívio não esperar

Não confio,
não aprendi a confiar
apenas
sigo...

2025

157

Dissociação (Para a alma estilhaçada que flutua)

 Flutuo, entre um estímulo e outro, flutuo
 Fragmentada em ruínas, 
esquecida pelo nada,
 com olhos vazios,
 atordoados,
 cansados, 
procurando pelo real...
Duvido. 
Duvido tanto 
que nem me vejo
Será que existo? 
Alguém me lembre: 
'você está aqui, sã e salva" 
Esqueço de respirar 
esqueço de esquecer 
e meu cérebro hiperativo
 pensa, pensa, pensa 
girando, espirais de reticências
...
 Entrego os pontos、 
desço do palco, 
sou  palhaço dissociativo 
nesse frágil jogo de azar
 A luta é constante:
 Não sumir ou 
Estar não estando
Vendo o longe, 
Flutuando 
Nas ondas sonoras da vida...

 *Dissociação: ferramenta de defesa emocional Experiência aterrorizante desgastante. Muitos afirmam que é a única forma de sobreviver a traumatismos emocionais moderados e severos.

141

Angústia

Tem dias simplesmente preto e branco... 
nem a luz, 
nem o chá, 
nem o canto dos passarinhos 
Apenas o preto e branco 
e o tic-tac da existência... 
Angústia! 
Mas passa.

98

Dissociação (Valsa para alma estilhaçada)

Dissociação 
(Valsa para alma estilhaçada)

Flutuo, entre estímulos, flutuo 
Fragmentada em ruínas, 
esquecida pelo nada,
com olhos vazios, atordoados,cansados, 
procurando o real...
Duvido. 
Duvido tanto 
que nem me vejo
Será que existo? 
Alguém me diga: 
"Você está segura!"
Esqueço de respirar, 
esqueço de esquecer,
e meu cérebro hiperativo
pensa, pensa, pensa 
girando em espirais de reticências
...
Entrego os pontos、 
desço do palco, 
sou  palhaço dissociativo 
nesse frágil jogo de azar
A luta é constante:
Não sumir ou 
Estar não estando?
Apenas o silêncio 
dos meus desejos congelados, 
flutuando 
nas ondas sonoras da vida...

*Dissociação: ferramenta de defesa emocional Experiência aterrorizante desgastante. Muitos afirmam que é a única forma de sobreviver a traumatismos emocionais moderados e severos. 

2025

158

Tradutora do Estranho

*TPB- Transtorno de Personalidade Borderline 
**TEA- Transtorno do Espectro Autista
***neuroatípico- pessoas ditas normais, sem diagnóstico 
****neuroatípico- nós, os charmosos esquisitinhos

Pessoas "normais"
seguem códigos, 
dizem o que deve ser dito 
e me entedia.
É tudo previsível, 
irritantemente suave, 
sem alma,
burocraticamente raso,
numa mesmice sem fim...
Gosto de quem cabe no DSM,
que percebe o mundo 
de forma crua, 
sem verniz, 
sem roteiro, 
sem filtro
Sou tradutora emocional
e traduzo, 
com prazer, 
os que sentem demais,
que vivem no limiar do caos (TPB) 
ou os que sentem diferente (TEA)
Mesmo sem palavras,
sou compreendida, 
amada como tem que ser: 
Real,
sem tutoriais,
apenas sendo...
Gosto do desafio 
de mergulhar,
profundamente, 
no outro
e me sentir  viva, 
desperta, 
inteira
Não preciso me explicar
nem fingir com essas pessoas
Sou aceita,
livremente aceita!
Nos entendemos 
sem pressa...
Pessoas neurotípicas,
ditas normais,
ensaiam para viver
É tudo morno, 
certo,
num palco
vazio...
Eu, TPB,
definitivamente 
não aprecio o morno:
ou é gelo
ou é fogo,
ou é nada ou é tudo,
mas que seja alguma coisa!
Meu farol é o neuroatípico
Me reconheço nele,
somos espelhos,
tentamos existir num mundo estranho
Ao seu lado
posso florescer,
posso ser eu,
posso transbordar, 
porque sempre haverá uma ponte,
um elo,
uma linguagem
que só nós falamos 
e que comunica
o mais belo e sensível 
significado da existência 

2025



 





 








 

115

Acolhedora do Inusitado

Não me cabem os "certinhos"
Gente reta demais me entedia 
Prefiro os tortos, os diffceis, 
os que tropeçam nas próprias ideias 
e ainda assim continuam dançando Sou feita daquelas que choram
no meio da risada,
que sentem demais, ou de menos  
mas sentem real
Amo quem não sabe fingir, 
quem me deixa curiosa, 
quem carrega um mundo escondido atrás de um olhar meio fora de lugar
Tenho carinho por tudo
que escapa do molde:
o riso nervoso, 
o silêncio incômodo, 
a pergunta que não se encaixa
É ali que mora a verdade...
Não me venha com conversa normal, gente normal, 
vida normal 
Quero o esquisito bonito,
o sensível mal lapidado, 
o caos com ternura
Sou abrigo pra quem nunca pertence, e, mesmo em pedaços
sei reconhecer a beleza 
daquele que ainda tenta, 
aprende,
luta pra ser inteiro
(o mundo neurotípico é mais despedaçado do que nós...)

2025

98

Comentários (6)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Ademir domingos zanotelli.
Ademir domingos zanotelli.

Minha cara poetiza Carol Ortiz - quanto tempo.... menina ... até que enfim nos conectamos... seu texto é maravilhosamente contundente... como esta você.... está bem de saúde... está viajando muito.... me visite menina... estava com saudade de você no Escrita . org. vê se faz alguns poemas para nós.... manina já estou com 1.840 textos escritos. fui indicado para compor o pessoal de Poesias para as escolas Br. em outubro do ano passado.... vamos ver o que vai dar. abraços. é bom saber que estas bem... me visite aqui no site... Ademir o poeta. rsrsrsrsrsr. até mais.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli

Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.

Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.

Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.

Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.