Lista de Poemas

Quando você é tão invisível...

"Quando você é tão invisível que comer deixa de ser um ato corriqueiro

 

Tudo começa assim: a gente quer parar de doer. Parece uma depressão. Paralisamos, gradativamente, as atividades e começamos a engolir absurdos: o lugar para doces, salgados, sucos, chás e água, deixa de existir. A tensão é tanta que o corpo endurece e passamos ter a falsa segurança na mudez da vida, tentando controlar o que ainda resta: nós. A fome é abismal, mas um nó interior bloqueia todas as passagens. Começamos a falhar: a menstruação cessa, o intestino seca, os rins falham, as gengivas sangram e as olheiras roxas denunciam. Estamos tão perturbadas à essa altura, que olhamos no espelho e não nos reconhecemos: eu, uma menina de quase 1,70, carregando meus míseros 40 kg... engana-se quem pensa se tratar de estética - "foda-se o outro. Foda-se o espelho". Esse fantasma tem nome : anorexia. Viver assim é cair num labirinto à procura da paz que nunca vem... (foto já em processo de "engorda") Hoje, quando alguém, aponta o dedo sobre questões de peso, dou gargalhadas e saio andando

155

Rua do Alumbramento

Rua do Alumbramento

Levei minha alma
a caminhar
na rua do alumbramento.
Procurava algo doce,
um tipo de estranhamento.

Como um belo improviso,
a vida trouxe um aviso:
“Não há nada que contente
além, apenas, o encantamento
desse dia tão sagrado,
cores desse sol dourado”

Fui buscar contemplação
no céu azul-roxo-esverdeado
e colhi, com ternura,
pra quem lê esta leitura,
um minuto intensificado,
nessa singela oração:

Que seu dia seja leve,
que você se cure,
se aventure
longe de todas suas dores
e dos seus dissabores...
Seja lá o que for,
vai passar

⚘️ Cacal

126

E se nunca passamos de um sonho?

E se fomos só um sonho? 
Um erro belo demais pra durar,
um sopro no avesso do tempo,
uma sombra de tudo o que somos?
E se o "nós" foi uma crua coincidência? Um toque breve,
duas dimensões que se repetem?
Você me olha 
de um passado estranho
Eu te sinto 
em um futuro nunca visto
Somos o que não conseguiu ser, 
inatingíveis, indecifráveis,
e, por isto, eternos
O mundo inteiro rui, 
as lembranças se embaralharam, 
as realidades colapsam
E continuo
te reconhecendo
na dobra do impossível, 
no eco do que não tem nome, 
no instante antes do despertar.
mesmo sabendo que nunca existimos

2025

128

MÃOS (Um grito de cura)

Temo tudo!
...assim me foi dito,
foi feito,
foi lido...

às vezes, 
e muitas vezes,
fui ferida:
um colo, 
um afeto
por um preço indizível, 
desprezível 
amargo,
solúvel nas minhas lágrimas

Um toque
me confunde,
me alerta,
me desperta 
medos indomáveis,
incansáveis
de me assombrar...

Vais me ferir?
Me acariciar?
Me odiar?
Me amar?
Sou só indefesa,
tentando a beleza
onde pode ter dor...
uma crua prudência,
insistência, 
pura sobrevivência 

As mãos me fizeram assim,
faltando pedaços de vida,
pedaços de rima,
pedaços de mim
Sempre alerta,
inquieta,
na ânsia de respirar
o ar que (me) faltava
nas horas de estranheza
e incerteza...

Não sei se sonho,
se pesadelo
às vezes carinho,
outras desespero

Sou criança assustada
e, tenho consciência, 
meio despedaçada...
Se não tens mãos sadias,
macias,
não me toques 
NUNCA MAIS!

Pensando bem, 
sem dramaticidade
(e o que tenho de melhor:
autenticidade e muita,
muita sinceridade),
mais valem as minhas mãos 
suaves e afáveis,
capazes de tocar o mundo,
de um modo todo profundo,
curar- me de restos
e curar outros feridos,
do que ter tido me perdido
num passado que não quero mais

Às mãos eu grito:
quebro minhas algemas,
sigo em frente,
com um motivo
e talvez medo
da humanidade,
mas, (re)descobrindo a dignidade,
resgato minha sanidade;
às mãos eu digo:
tu não és mais um perigo!

És apenas sombra
de uma vida enterrada
que me desperta em pesadelos
cada vez mais escassos
talvez vencidos pelo cansaço, 
mas estou disposta a recomeçar,
estou pronta pra te enterrar,
seguir adiante 
e me libertar...

Cacal

90

Dissociação (Valsa para alma estilhaçada)

Dissociação 
(Valsa para alma estilhaçada)

Flutuo, entre estímulos, flutuo 
Fragmentada em ruínas, 
esquecida pelo nada,
com olhos vazios, atordoados,cansados, 
procurando o real...
Duvido. 
Duvido tanto 
que nem me vejo
Será que existo? 
Alguém me diga: 
"Você está segura!"
Esqueço de respirar, 
esqueço de esquecer,
e meu cérebro hiperativo
pensa, pensa, pensa 
girando em espirais de reticências
...
Entrego os pontos、 
desço do palco, 
sou  palhaço dissociativo 
nesse frágil jogo de azar
A luta é constante:
Não sumir ou 
Estar não estando?
Apenas o silêncio 
dos meus desejos congelados, 
flutuando 
nas ondas sonoras da vida...

*Dissociação: ferramenta de defesa emocional Experiência aterrorizante desgastante. Muitos afirmam que é a única forma de sobreviver a traumatismos emocionais moderados e severos. 

2025

126

Quietude- um trecho de celibato e cura

Descanso meu corpo:
não há mais medo,
ameaça,
dor.

Não há toque,
não há sexo,
não há guerra,
nem pavor,
me pertenço sem anseios,
estou segura nesta ilha,
não por força ou fuga,
mas por amor
à toda calmaria.

Minha alma cansada
andou vales,
árduos terrenos,
gritarias e invasões.
Agora quer o silêncio,
aconchego preenchido,
longe do perigo -
não há pecado no toque,
não há engano na fala,
não há desencontros
ou horas exaustas,
vazias, perdidas
num hiato -
Celibato

E minha paz,
minha canção, 
tocando a melodia do aconchego...

Meu corpo pediu descanso
e ouvi,
acolhi
com sutil cuidado
e real significado:
meu ventre é templo
de um tempo de cura.

Enquanto o mundo aponta
“sou ausência”,
minha alma sussurra:
“sou presença
dentro de mim.”

Neste estilo de vida
acolhida,
até quando eu quiser,
um dia direi sim
(no momento certo
junto ao corpo certo,
paciente, inocente, 
pronto para entrega
à uma nova era
madura, segura
e serena)

Sou minha,
não busco confusão,
apenas a quietude da alma,
o equilíbrio,
e a beleza de saber,
finalmente, 
quem sou eu

Cacal

122

Dissociação (Para a alma estilhaçada que flutua)

 Flutuo, entre um estímulo e outro, flutuo
 Fragmentada em ruínas, 
esquecida pelo nada,
 com olhos vazios,
 atordoados,
 cansados, 
procurando pelo real...
Duvido. 
Duvido tanto 
que nem me vejo
Será que existo? 
Alguém me lembre: 
'você está aqui, sã e salva" 
Esqueço de respirar 
esqueço de esquecer 
e meu cérebro hiperativo
 pensa, pensa, pensa 
girando, espirais de reticências
...
 Entrego os pontos、 
desço do palco, 
sou  palhaço dissociativo 
nesse frágil jogo de azar
 A luta é constante:
 Não sumir ou 
Estar não estando
Vendo o longe, 
Flutuando 
Nas ondas sonoras da vida...

 *Dissociação: ferramenta de defesa emocional Experiência aterrorizante desgastante. Muitos afirmam que é a única forma de sobreviver a traumatismos emocionais moderados e severos.

115

COREOGRAFIA CÓSMICA

A CHAVE DA NOSSA GRANDE COREOGRAFIA CÓSMICA ?

Acordei agora, encharcada de suor e ofegante, depois de um sonho (? - real demais!) bizarro e ligado à raiz de todas as minhas crises de id: O QUE MAIS ASSUSTA NÃO É A IDEIA DE UM FIM, MAS A AUSÊNCIA DELE..

E se somos apenas ecos de existência, num loop infinito pela Eternidade? Não há vida, não há morte, apenas o de novo, de novo,  de novo... Tudo sem razão de ser, presos ao caos? Não existe linearidade, nem escapatória,  giramos, assim como plsnetas, numa órbita atemporal de um nada...

A primeira coisa que estou fazendo hoje é escrever aqui, pra me lembrar sempre sobre essa rachadura na estrutura da realidade: esse pensamento, praticamente uma intuição, anscestral, familiar, finalmente foi traduzido! O meu desespero não é por terminar, mas sim por continuar pra sempre, num oco exaustivo, sem sentido, vazio...

Fui uma criança que entrava em parafusos quando pensava sobre existir, findar ciclos, morrer e sempre parava nesse mesmo ponto: "e se dançamos, prisioneiros do caos, uma valsa sem fim?" A única palavra p descrever tudo é  ANGÚSTIA!!!!

É por isso que Dark é uma das melhores e mais significativas séries já feitas até hoje e Nietzsche é um dos filósofos mais lidos na minha biblioteca. Eles repetem e traduzem todo esse meu desespero desde sempre (e sempre e sempre e sempre...)

121

Tradutora do Estranho

*TPB- Transtorno de Personalidade Borderline 
**TEA- Transtorno do Espectro Autista
***neuroatípico- pessoas ditas normais, sem diagnóstico 
****neuroatípico- nós, os charmosos esquisitinhos

Pessoas "normais"
seguem códigos, 
dizem o que deve ser dito 
e me entedia.
É tudo previsível, 
irritantemente suave, 
sem alma,
burocraticamente raso,
numa mesmice sem fim...
Gosto de quem cabe no DSM,
que percebe o mundo 
de forma crua, 
sem verniz, 
sem roteiro, 
sem filtro
Sou tradutora emocional
e traduzo, 
com prazer, 
os que sentem demais,
que vivem no limiar do caos (TPB) 
ou os que sentem diferente (TEA)
Mesmo sem palavras,
sou compreendida, 
amada como tem que ser: 
Real,
sem tutoriais,
apenas sendo...
Gosto do desafio 
de mergulhar,
profundamente, 
no outro
e me sentir  viva, 
desperta, 
inteira
Não preciso me explicar
nem fingir com essas pessoas
Sou aceita,
livremente aceita!
Nos entendemos 
sem pressa...
Pessoas neurotípicas,
ditas normais,
ensaiam para viver
É tudo morno, 
certo,
num palco
vazio...
Eu, TPB,
definitivamente 
não aprecio o morno:
ou é gelo
ou é fogo,
ou é nada ou é tudo,
mas que seja alguma coisa!
Meu farol é o neuroatípico
Me reconheço nele,
somos espelhos,
tentamos existir num mundo estranho
Ao seu lado
posso florescer,
posso ser eu,
posso transbordar, 
porque sempre haverá uma ponte,
um elo,
uma linguagem
que só nós falamos 
e que comunica
o mais belo e sensível 
significado da existência 

2025



 





 








 

103

Angústia

Tem dias simplesmente preto e branco... 
nem a luz, 
nem o chá, 
nem o canto dos passarinhos 
Apenas o preto e branco 
e o tic-tac da existência... 
Angústia! 
Mas passa.

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Comentários (6)

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Ademir domingos zanotelli.
Ademir domingos zanotelli.

Minha cara poetiza Carol Ortiz - quanto tempo.... menina ... até que enfim nos conectamos... seu texto é maravilhosamente contundente... como esta você.... está bem de saúde... está viajando muito.... me visite menina... estava com saudade de você no Escrita . org. vê se faz alguns poemas para nós.... manina já estou com 1.840 textos escritos. fui indicado para compor o pessoal de Poesias para as escolas Br. em outubro do ano passado.... vamos ver o que vai dar. abraços. é bom saber que estas bem... me visite aqui no site... Ademir o poeta. rsrsrsrsrsr. até mais.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli

Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.

Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.

Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.

Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.

Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: cacal.ortiz@hotmail.com (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
 https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber