Lista de Poemas
Potencial inimigo
Nosso inimigo mora dentro de nós
Multiplicado e potencializado
Um tirano que detém o poder
O lobo do nosso homem
Um manipulador indetectável
Que devora a presa enquanto dorme
Enquanto a vida corre solta
Ele é o clone do eu verdadeiro
O oposto dissimulado da autenticidade
O sangue suga da divina imagem
Por isso somos vencidos
Pela sabotagem das aparências
Pela futilidade das ilusões
Prisioneiros da procrastinação
Ignorantes do nosso propósito
Do sentido da nossa transcendência
131
NOSSO RETRATO
Eu contemplo coisas e objetos
No silencio desse quarto abstrato
E me deparo com nosso retrato
Ainda firme e intacto
Desafiando as mudanças do tempo
Com aqueles rostos
Com aqueles olhares
Embebidos de sonhos e paixão
Ressuscitando historias e segredos
Dos bastidores do tempo
Com mascaras do passado
Peças vivas do palco da vida
Amortecidos pelos anos
E sepultados no coração
Enquanto observo nosso retrato
Com a beleza imaginativa
Vou extraindo o néctar
Das flores que juntos plantamos
Na força da juventude
Que pode adoçar nossa realidade
E decifrar o indecifrável
Perceber que tinhamos felicidade
E esbanjávamos ingenuidade
A qual não podíamos arrancar
Da razão lógica nossa unidade
A coragem aventureira nossa paixão
Porque o script de nossa vida era um sonho
E o que ficou atrás são lembranças
O que pesa hoje são saudades
O que permanece é o amor
147
Rua solitária
Essas ruas solitárias esparzidas de neve
Em meio ao frio de um vento indesejável
Afugenta sem remorso os corações
Dos que olham pela janela a noite vazia
Balbuciando palavras secretas
De desejos borbulhantes incontidos
Querendo decifrar os desígnios
Da estação que desfolha as árvores
Açoitando telhados dos que dormem
E arrancam da cama quente a criança
Aninhada no recôndito da mãe
Pra jogar nos braços da manhã fria
Criaturas inocentes a caminho da escola
138
Leveza d'alma
Que descanso de alma
Essa felicidade
De asas tão brancas
Tão leves
Tão soltas
Que viagem tão calma
Essa lembrança
Ecoando do passado
Tão distante
E tão perto
Que segredo tenho na palma
Essa firme calma
Como pluma ao vento
Tão envolvente
Tão inocente
Sunday, March 13, 2020
152
SONHOS AQUÁTICOS
Deixa me pensar poema
Com esse teu silêncio
De chuva noturna
Escorrendo na vidraça
Querendo e não querendo
Revelar me os segredos
Mas eu arrisco um pensamento
Em que essas gotas compõem
Dessa melodia calada
Que respinga nas lembranças
Dos meus tempos de criança
Cheiro das águas que passaram
Vozes de gente que sumiram
Embrulhados na inocência
Acariciados pela brisa
Da lama amassada
Na enxurrada da velha rua
Envoltos na alegria
Que não é minha e nem sua
116
Rota 21
Nunca deletei do meu arquivo de recordações, os melhore momentos
daquelas noites frisadas de inverno no estado de New Jersey, quando eu adorava ouvir
no silencio do meu quarto um som incrivelmente melodioso. Era o som do trem do
metrô parando nas estações paralela a rodovia da rota 21, há poucas quadras de minha casa.
Ele vinha de longe, todo místico e exuberante rompendo a noite em cima de
uma plataforma de ferro muito alta, onde jaziam postes de luzes ofuscadas pela
neblina da neve que caia suavemente.
Aquele som, ecoando entre as brisas geladas da solidão escura, vinham como camadas
de música imperceptível a serem decodificadas e desfrutadas num contexto poético.
Sua chegada suave no subway contrastava com o fundo ritimado de dezenas de rodas
freando lenta e calculadamente.
Parecia a galopagem cadenciada de uma tropa enorme de cavalos de aço rasgando
a paisagem urbana engolfada na noite.
Cada vez que isso acontecia eu ficava bem concentrado com a sensacao única
de não querer perder nenhuma fração do espetáculo. Em meu leito eu começava
absorver avidamente a quebra desse silencio embebido de expectativas que não durariam
mais que cinco minutos.
Meus sentidos eram então capturados pela imagem orquestrada da
harmonia nostálgica que fluía desse efeito sonoro ritimado, produzido pelo atritar
de ferro com ferro, soprar do vento, nevoeiro e alguma voz humana..
Era uma transferência espaço temporal de presente e passado, de real
e imaginário totalmente sincronizados. Um fenômeno do sentimento
que me transportava simultaneamente para uma outra viagem. A viagem no trem da
memória. Lembranças etéreas subtraídas da coreografia abstrata do passado
ativado pelas saudades. Saudades imortalizadas que esse fenômeno faz reviver!
129
Sutileza branca
Aquela ave que avisto ao longe
Singrando a imensidão azulada
Engolfada na brancura sustentável
Da beleza seduzida pela leveza
Na sutileza de movimentos acrobáticos
Transpassando a linha imaginaria
Do horizonte translúcido escondido
Na face solitária do tempo e do espaço
Vai a ave peregrina embebida em sonhos
Vinda dos trópicos temperados
Inalando tranquilamente a brisa quente
Exalando os odores do oceano
Ave branca, linda e solitária
Nem sequer imagina que nas orlas sinuosas
De um ponto distante
Existe alguem sonhando
Em trocar os pés molhados da areia
Por suas asas tão leves e soltas
108
abismos inexcrutáveis
Navegando em meus mares
De pensamentos e sonhos verdes
Mesclados de azuis vulneráveis
Embebidos de tons variáveis
De veronese acizentado
Refletindo o dourado cintilante
Esparzido pelo sol magestoso
Nestas águas de cristal líquido
Arte pura de cores mutantes
De pincéis fazendo espumas
Nas ondas enlouquecidas
Orquestrados por ventos sinuosos
Que serpenteiam abismos inexcrutáveis
Guardados a sete chaves
Extração concreta do abstrato
No sacudir das ondas dos neurônios
Disfarçadas em saudades arrastadas
Por brisas eternas do tempo
Do éco fragmentado
Que o passado sufocou
361
Comentários (2)
Iniciar sessão
para publicar um comentário.
belê
Muito bom! Gostei