Lista de Poemas

Não sei como dizer-te

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
Contudo que os meus dois versos são poucos
com que o poema que encerra num ponto e numa virgula
Sem ser totalmente traduzido
Uma epístola sobre as palavras curtas ao sentido amor expandido
sobre o mar, o vento por dentro, sobre o tempo da maresia
Um beijo que alça voo sem saber onde pousar
 Um pensamento nas espinhas dos peixes
O coração do herege que se entrega a Deus
A vida no breu onde termina o mar
Onde findam as palavras, onde eu vou te buscar nos silêncios dos que amam
Um dia depois de morrer, quando o tempo acende o verde
A tua face, os teus olhos de semáforo e as nossas bocas se cruzam e ecoam
E arrancam pedaços na intenção de florir
a atenção começa a florir, quando sucede a noite
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se cortam e se unem aos meus
O sangue não fala, nem mata, nem morre
Apenas os sentidos nos levam do nada ao tudo
E a vida escolhe as palavras, e nos mata de amor e nos fala da vida
Dos anjos, dos demônios, e das bênçãos e das heresias do amor e dos sexo
 
Charles Burck
209

Chá quente

Estou sentada na cozinha, enquanto o chá ferve.
Amo as coisas concretas e as arbitrárias
O açúcar mascavo me dói o dente
Descobri a tua presença em pequenos goles de arnica
E chá de cidreira
Os desconfortos dos nomes, proibi
Mas ainda me sentam ao colo, como filho ilegítimo
As bolsas de plástico, o rio azul, o vizinho ao lado dança bolero
Um assunto encerrado sem alongar as vistas já tão exaustas de esperas
Desperto do meu amor sob a chuva na calçada, os biquinis nas ruas amis profundas
Os supermercados apostam nos dias mais quentes
Vendem amores frescos em compotas,
um vinho amigo,
O meu amor é lânguido e necessário
Eu falei das coisas concretas, mas não minto, fiz uma estatueta cimentada com frisos dourados e carmim
Eu olho para ela, e ela olha para mim,
Por hoje é o que me basta para fugir às incertezas
 
 
Charles Burck
87

Gotejamento

Ontem os olhos de rímel e sobrancelhas sobrepostas riam da forma límpida de amor
Ontem vaguejei pelo leito sem saber o sentido de amar
A dor nos passeia, e nos carrega no colo maltratado por onde formos
Ontem queimei a língua atrevida por desejar demais
As cicatrizes das mordidas ainda ardem à brisa que passa
A mordaça concebida para apagar os delírios
fiz amor sozinho no melhor dos dias mais frios
Na televisão ainda se diz das bonanças dos campos de lírios
Um triangulo colorido com os lados tortos e os casais jogados à sanha de parir falidos amores
Graças às informações distorcidas escapei à dor
Mas morri mil vezes numa mesma tarde
Despido e desgraçado ainda sou censurado se gemo
E ainda pago penitências aos santos desalmados
Um pedaço de mim a cada dia é arrancado,
Pelas saudades liquidas, gotejando de dentro do peito.
Charles Burck
124

Dialeto

Em qual dimensão se revela o homem?
coração é uma cantiga reinventada a cada momento
Um trepadeira que sobe ao céu
A luz que nos resgata o fundo do poço
Pertencimentos em seu quadro de aviso, o tempo revelando seus canteiros,
As sementeiras de flor que geradas sozinhas foram juntadas sobre os teus seios
Defino um código alternativo:
alheio às palavrassem adereços às palavras
Onde a língua do amor desbaste o desejo de dizer qualquer coisa
uma linguagem associada aos sentimentos
Com um sentido introdutório
Numa não condenação à memória,
Uma trincheira de flores aberta ao amigo, com cama, café e bolo
Um dialeto mudo de abraços infindos
uma fonte única de beijos concebida para dar eterno prazer
Cheia de fonemas de significados ambíguos,
um modo de expressar tudo quanto não pode ser expresso. 
O portal quântico aberto ao que foi proibido
Uma prosa póetica de pagar as promessas que eu te fiz
 
Charles Burck
106

Dialeto

Em qual dimensão se revela o homem?
coração é uma cantiga reinventada a cada momento
Um trepadeira que sobe ao céu
A luz que nos resgata o fundo do poço
Pertencimentos em seu quadro de aviso, o tempo revelando seus canteiros,
As sementeiras de flor que geradas sozinhas foram juntadas sobre os teus seios
Defino um código alternativo:
alheio às palavrassem adereços às palavras
Onde a língua do amor desbaste o desejo de dizer qualquer coisa
uma linguagem associada aos sentimentos
Com um sentido introdutório
Numa não condenação à memória,
Uma trincheira de flores aberta ao amigo, com cama, café e bolo
Um dialeto mudo de abraços infindos
uma fonte única de beijos concebida para dar eterno prazer
Cheia de fonemas de significados ambíguos,
um modo de expressar tudo quanto não pode ser expresso. 
O portal quântico aberto ao que foi proibido
Uma prosa póetica de pagar as promessas que eu te fiz
 
Charles Burck
104

O grande ventre

Amar é como se iluminar na escuridão,
Um decalque nos ossos com o nome de alguém
A tatear o bem-amado até um abraço cheio
até ao mais fundo da alma
Desenhando palavras no ar
Faz tempo que o tempo não me visita
Recuperando no tempo o que se perdeu
Mil vezes o espontâneo sorriso dizendo
oculto em cada eco que se soletra, um gesto de amor
Escrevendo mil vezes eu te amo, até esfolar os dedos
Tudo está fora e tudo está dentro, como o coração em um grande ventre
O homem parindo a mulher e a mulher dando vida ao homem
 
Charles Burck
111

Ferida Limpa

Estar morto sem limpar a ferida seria, de fato, muito pior
O gato olha o pombo, olhos atravessados e estáticos
Há hábitos tão antigos quanto a vida
A religião e a heresia
A fidelidade e a bigamia,
O amor de um, os de dois, os de muitos
As crianças fazem fotos dos casais, as esposas atentas se desviam dos beijos
Em algum tempo os amantes haverão de voltar e se amarem mais vezes
Hoje os pombos comem arroz e os gatos passam fome,
A fome dos ingratos tingindo muros, quintais e igrejas,
As sonoridades de alguns nomes passeiam no parque em dia de sol
Alguns anjos deixam o pombal
Os amimais no cio zombam dos homens
Há muitas mulheres da minha infância nas minhas lembranças
As que cuidaram, as que tinham fome, gulas maiores que a pança,
Outras fomes maiores, as que desciam abaixo do nível dos olhos 
Que por vezes gozaram outras sangraram
Sou arredio a deixar os poemas sem finais
Não há normalidades nos dias de finados
Falo coisas estranhas, mas nada eu estranho
Há dias em que tudo parece que finda,
Mas estes dias são dias comuns
 
 
Charles Burck
90

Destino Certo

Os parasitas artificiais são mais densos do que se pensa
Coabitam a morte e se alimentam das sobras
Mas a cura se reveste de cores quentes,
Do que desenluta o coração
Veste o infinito e me cobre de asas longas do sempre
E se alguém contar essa história depois,
Lembra a esse alguém do que foi além
O destino certo do amor que se reza, é o coração
 
 
Charles Burck
109

Marginal

Sou marginal a contar os dias
no mundo das palavras tenho abrigos,
Rosa posta ao colo a exalar distâncias
Escrevo no escuro infindável e quente a contornar a carne improvável
Só possuo um único rosto que a saudade cobra
Contornos buscados à face, universos dissolvidos na necrologia ameaçadora da contínua erosão.
Tenho a escrita e a escrita é o corpo que tenho
Preciso resumir a minha inutilidade no mundo, tecer a raiz do anonimato
Um lugar meu na pátria dos vivos,
Um poema não mais à deriva,
Não mais um delírio exposto à própria solidão.
 
 
Charles Burck
126

A escrita

A escrita é a morte interminável, a vida sugando o oxigênio, a atmosfera submersa, o lugar onde o corpo dança, jazz, os pés longe do chão
O gozo antecipando o sexo, os ingênuos mitos das línguas mortas,
A ponta tão perto da entrada, e o perfume das flores exalando a solidão que me chama
Estou diante da porta entre as cortinas dos dias e a fábula da pele
As mãos ocupadas tendo a ferver na gramatica de dentro
A escrita é o único corpo, medíocre é o amor que pensa tudo saber
 O sangue adulto pulsa na gramática. Escrevo explicitamente e o sensualidade lê bem dentro dos olhos, de baixo para cima de fora para dentro
No meio da frase escrevo, o olho virado pró sol e os astros gemem tentando o usufruir da carne quente e dos contornos das intermináveis das linhas do amor
 
Charles Burck
166

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