Heterônimo de Wilson Costa - Escritor, autor dos livros, O anjo do dia, Olhos ferinos, Compêndio de coisas guardadas, Alma, Oxigênio, Falsas impressões, Causos por acausos, Causos complicados, Ensaios de uma vida toda,
O amor é como a jovem que quer a virgindade eterna
mas que dorme nua
A eternidade exposta, entregue aos argumentos do tempo
Não existe pureza absoluta, nem pecado mortal
As floradas vingam como mato entre as pernas esquecidas das velhas senhoras
O diabo mora na estação ao lado
Precavenho-me e salto antes,
A Moça virgem salta uma estação depois
Deus é parceiro e o diabo aventureiro,
A moça geme a primavera recém-chegada
A canção lamentosa exposta na janela, por onde o amor passou
Das velhas senhoras que o cantam, agoniadas
Quanto poetas saltaram na estação errada
E são vistos a vaguearem pelos vales colhendo flores mortas
Fazendo poemas dizendo do que nunca praticaram
Charles Burck
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Perdidos Oceanos
Sento-me à mesa. Porque é de ti o alimento, a agua e o sal marinho Os gestos da verdade, a erva e a estrela plantadas no mesmo caule O que me vem em ondas Onde tentei dormir na embriagues do coração faminto O navegante de velas sonoras fazendo cantigas de mar e lamentos Sem rotas de fugas, entregue as palavras corroendo a minha língua oceânica Aumentando a capacidade de suportar o sol nas costas, e iludir os ventos E diluir o tempo nas mais puras imagens Eu que apelei à cegueira para ver com mais perfeição Aceno com alguma recordação do tato, à ciência das perdidas coisas, Ao que me entrego, a razão do meu espirito teima em insuflar o fogo com pólvora e resina Sobre o peso lúdico hasteando bandeiras do amor no mar Onde apenas na imensidão do nada se deixa ver, Eu, um único barco a percorrer a linha do destino Sem horizontes, sem timão, só e sem carta de navegar
Charles Burck
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Frestas
Tem uma flor nascendo na lua cheia, Numa fresta da rua, Cansada de mim,
Foste tu o escolhido, Disse-me o beija flor, Mas a flor está com raiva de ti
Eu te amo pelas tuas faltas, inexoravelmente eu te amo Pela tua falta de corpo Pelas minhas mãos que não sabem o que dizer, Pelas tuas pétalas que vacilam, Por tudo que me produzes de contraditório e o vazio
Dia e noite, ainda assim, te amo Porque antes de ti, eu nunca me amei
Charles Burck
922
Olhos Ferinos
Olhos Ferinos
Curvo-me, vergo-me, mas não apodreço, Meço a umidade dos ventos a quem há muito tempo peleja Afasto-me dos olhos doces que tentam tantas coisas me dizerem, Mas o mel de açucena envenena e fecha a garganta da presa, Curvo-me humildemente devido a ignorância que me permeia, Tendo aos acenos do saber, que me estendem os braços Mas esses olhos me acenam também, são feitos de aço banhados em azul Ou seja, o reflexo do céu no polido metal de armadilhas A boca que brilha o vermelho batom escondendo as presas aguçam-me os sentidos Há nos teus olhos a divina presença que condensa o homem incauto, Revestido de tramas sutis, admirares cáusticos ou de mel deixar a língua surpresa, Curvo-me ao beijar-te os pés, mas os permeios das ancas falam a língua dos menestréis, Dos paraísos aos bordeis, de tantas piedosas más intenções a induzirem-me a beber do ventre das águas, das profundezas dos astros, dos infinitos sumidouros dos céus, A virgem madura serpente, da maçã que come gente, a redemoinhar como vento querendo desviar-me os passos, Curvo-me ao lamento dos olhos que choram lágrimas de fulgor difuso, Mas não bebo do liquido que salivas, oferecendo-me os lábios, substância que me oferta os alimentos, Se bebo, a minha boca morre, as veias secam, e o meu sangue me consumirá feito vinho tinto fervente a cozer-me o cérebro, a alma e a vida que ainda esteja a contar-me os dias, Curvo-me ao amor, as miragens e aos desertos, E os teus pés caminham seguindo os meus, atiçam-me as areias aos olhos e a pele que me resta, tosta-as ao sol Desfiei os músculos e moí os ossos, a carne desfez-se ao contato das tuas, Padeço de insanos desejos a deflorar-me as vontades, Curvo-me enfim ao destino do homem perdido, entregue, como um servo penitente e louco, E tu ris assim de mim, olhos inocentes, tão sem piedade
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Aos amigos Amigos
Aos amigos Amigos
Lembro-me dos amigos, dos que ainda me chamam pelo nome de juventude Devagar, amo a cada eternidade que se abre em cortinas de tempo Os amigos enlouquecem perante a solidão, e quietos se assentam na sala, diante da televisão Os números vão contando os que partem e os que ficam, fecham os olhos Eu os chamo e eles voltam imediatamente. Sentemos diante do fogo Não temam que as suas almas queimem instantaneamente, Não precisamos criar lugar de silêncio e tristezas, os assuntos profundos nos carregam para baixo Com uma rosa no peito nos identificamos Viva e cheire oxigênio, os pulmões são uma caixa de ressonância, cantem mais alto e libertem as gargantas De que matéria é feita os teus medos? As mãos direitas se reconhecem como um manual secreto de amor A rosa cresce para dentro dos olhos e vejo os espelhos das retinas ganharem mais brilhos Só haveremos de partir quando nossas amizades se extinguirem Quando novas flores chegarem Ou o sol se fixar no meio do céu e cada espelho se quebrar E as constelações se refletirem nos pedaços dos cacos
Charles Burck
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Deus
Deus — talvez esteja aqui, na textura da minha língua, Inerente sem dizer palavras Talvez espere de mim que eu diga quem somos Uma alma mexida demais, cingida como as cascas e conchas espalhadas numa praia infinita Para lá das brisas nômades, das noites insones Dos amores que não fizemos, Quem sabe se encolha em meus medos e nos caminhos vazios Onde as copas frondosas das arvoes gigantes me escondem os céus Ou nas memorias que eu invoco e não me veem Em meus dedos feridos de trabalhas nas pedras, Do tempo que me escreve nas mãos as orações esquecidas Venha sussurrar ao meu ouvido alguma antiga lembrança de ti e de mim Alguma sonora melodia onde eu possa vê-lo Ainda que sejas a imensidão que me engula inteiro, me digira e me vomite como um feto, um verme ou a saliva bendita de um beijo
Charles Burck
428
Rebanho
Sonhava, faz tantos anos, e escrever e sonhar, sempre a enfrentar a necessidade de profundidade
Hoje, sentia essa admiração desesperada, viver apenas, não era o suficiente
Transitar entre as coisas banais, triviais e o outdoor que esqueceram de mudar
Para ver estrelas, nem sempre se precisa de céus, mas o imaginário se misturava ao carnal existencial,
Alguma coisa a dificultar o caminho, a justificar o ganho de uma vida
A aldeia cobra entrada, uma cicatriz no coração, um ardor bêbado na alma
Um rebanho subindo a montanha
Uma ovelha que escapa e ganha o céu
Charles Burck
435
Chorar para dentro
Réstias de abandonos nos olhos adormecidos, Não me deixes saudades, eu não as mereço, A ausência é coisa que mora longe, O amor que não se move Que rasga os mapas, E chora para dentro dos olhos
Charles Burck
390
O menino
O tempo bebe o menino, come almoça e janta Daqui a pouco nem se dá conta que foi amadurecido, Da planta do tempo que come os frutos, Os caules arranca, A semente que suga, chupa, adoça, Daqui a pouco serão raízes mortas, o tempo findo, estancado Na terra já posta, a flor que brota, mas o menino nunca morre O menino vela o sono do homem adormecido
Charles Burck
258
Até que a chuva passe
Um a um esqueci os motivos porque me perdi, Quando todas as coisas se fizeram mudas, esperei, Até que como chuvas se soltassem de mim, as lágrimas, O coração nos pesa e a alma anda ensopada, Desenha então com a ponta dos teus dedos As linhas da tua face, os contornos da chuva, os olhares esquecidos nos desvios do tempo Dê-me detalhes, como sinais, marcas de expressões, rugas, ou cicatrizes, Os esforços das lembranças o lento sulco da lâmina fazendo o leito do mistério do amor no peito Diz-me que não chore, E eu direi, Somente até que a chuva passe então