Caronte
Vens a mim que os deuses serenam
Nasceste pequena, linha fina da teia, para abrigar a aranha
E a morte deita-se ao nosso lado e espera,
Esperou-nos aos dezesseis não viu os vinte,
E depilou os pelos das virilhas e das axilas
Aos trintas sorveu o tutano dos ossos e afiou os dentes na serra,
E enfeitou os cabelos com ouros, mas antes chamou a minha mãe,
Cada costela adorna de flores fixadas por espinhos,
Os choros eu não lembro estava vivendo os cinquenta
E ela lambeu os dedos dos pés, e salivou o mel do meu desejo,
E depois espocou flashes de luminosidade duvidosa, e cantou para os pirilampos,
Pôs duas brasas nos olhos e foi nos ver aos setenta
Sentiu a nossas sedes e nos ofereceu seu leite de bode,
Aos noventa rezou um tango por nós, e dançou “Por una Cabeza”
Sabe-se lá desde quando está assim trocando os passos
Aos cem estava cansada de esperar por nós, dormiu um sono mortal
O suficiente para revolver os labirintos da terra, as sementes dos amores mortos,
Falar dormindo dos brilhos definido dos espíritos dos anjos,
O bastante para dizer que nada morre, que ela é a invenção da sua grandeza,
Filha de Nix, a barqueira de Hades,
A condutora para os roteiros de uma nova esperança
A alinhavar nas pálpebras nossas, os astros nus
Para apagar em nós, nossas infinitas noites vazias
Tempestade
No meio do mar, tempestade, vou para lá,
Assumo os riscos de morrer sabendo me afogar,
Me afogo sabendo que morro
Sempre morri dentro dos teus olhos,
Como o bom senso pelejando para chegar à praia,
É nos teus olhos que eu morro
Cada dia nas águas mais mornas
Minha alma rasa ganha forma, e eu profundo morro
Sem saber nadar
Chegada
Como chegarás aos meus braços, despida de tudo ou vestida só de poemas?
As velhas senhoras
Arrumam os guardas roupas e organizam o infinito, os olhos longes, o tempo que foge, ao que abrem as portas
Pressinto haver mais, mas não pergunto
Quero escrever para ela sobre as roupas no varal, sobre o terreiro e o quintal,
Há mais, e não posso,
Associo os olhares evasivos, os disfarces das maquiagens a divagarem sobre o tempo
Faz tempo que tudo é igual
O jasmim florando, os sexos secando, as almas enrugando, as roupas balançando ao vento
Faz tempo que nada muda nessa vida muda
Até o silêncio é igual,
Elas vão aos quartos e ligam as músicas,
os sonhos ficam sentados, observando os gestos contidos, medrosos de se revelarem, de se entregarem à dança,
A velha história da velha mulher, da moça nova, da mulher sentada no bar
Da viúva sem marido morto, da menina das pernas tortas, da moça que me olha, de todas as vidas a exporem
As velhas história que escrevi e não sei contar,
Há composições dos beijos que guardaram para dar,
Dos corações que amam mesmo sem ter a quem amar,
Por vezes elas me chamam sem me chamar,
Pedem poemas sem me pedir,
Então eu conto
Charles Burck
História das águias
Serei uma história em que as águias contarão
Um voo do alto de ver tudo mais amplos,
Quando os dias se revestirem, de ouro e adernos de prata
E os perfumes selarão as dores todas,
E me desenharão o meu peito de flores
E saberei que sonho
E transporei o muro para o outro lado da história que eu nunca contei
E dormirei sem medo
E da tempestade apenas ouvirei a respiração,
E do fogo só precisarei da luz, o calor morando dentro de mim
E fecharei o meu diário com a página do meio guardando amor
E na última página, o teu nome
Charles Burck
Sobre Ela
E se eu e ela tivéssemos vidas como as borboletas eu voaria com ela, por sobre os mares que cantamos em poemas,
e se eu pudesse escolher, abriria mão dos ventos, para viver eternidades pousado no peito dela
E borboleta não seria mais, porque as minhas asas atrofiariam,
e se pudesse escolher ainda mais onde morrer, abrira mão do mar, porque deitado sobre ela eu teria os mares todos,
e as vidas todas para ouvi-la marear os mares que deixei
E seria eu apenas felicidade a formar redemoinhos, mansos à volta dela
E se as borboletas soubessem de nós viriam também abrir mãos dos voos,
E pousariam sobre o peito dela
E saberiam todas como é, estando sobre o amor, amar
Penas
Arranca pena a pena como se a alma moldada aos vícios prepostos se alinhassem aos teus gozos não dados
Como se a ave plena, dentro do peito se libertassem para os voos como se soubesse das dores maiores que nunca contastes
Lastrei os teus pés no piso para que nunca caminhes locais sagrados onde as chagas manchariam o chão
Pede o fogo apagado um carvão, as cinzas e pinta a cara e apaga os olhos à face escondida aos apelos de amor
Dobra as vestes de perdidas vontade de ser nua e alivia o contraste entre a boca e as palavras que alongam para dentro os desejos quando a parte mais sentida pede para ser tocada
Dê-se a todos os sentidos sem censura, pois a pureza concede mil desejos antes de cingir-se à imoral língua apregoada pelos santos,
Lambe e se farta antes que o sonoro cansaço a convença que a música não presta,
Mas saiba que dentro da presa a música boa é a da entrega quando não cabemos mais no desejo
Lava a alma boa, a vida pregressa sem a pressa de se vestir, deixa a brisa brinca na tua boca atrevida, nas partes mais íntimas
Deixa cada toque de vida te servir, pois a liberdade só vem depois que cada desejo deixar de existir
O Causo do o do u
O Causo do o do u
Que não sendo buraco seja fenda, porque a introdução do poema precisa referência,
E os meus olhos sentem a carência de sentir de perto, ponto por ponto, vírgula por vírgula,
Que não sendo a tua pele sejam os teus pelos, pois pelo menos o que escrevo carece de penugens, de plumagem de algum apelo que seja do teu corpo nu
Que não sendo rua seja nua, pois eu troco as letras com frequência e a senda sendo a linha há de querer se escrita, mas que se esse(S) for efe (F), pode ser por onde a boca úmida comece, a dar forma às palavras orais, verbalmente ditas, sentidamente proferida, ou intencionalmente confundida, sendo fundida com ungida e benta, sacrilegamente penetrada como uma saída à falta de rima nobre, mas tendo a indecência busca dar algum uso aos confusos pensamentos de quem desorientado pensa que saída é entrada e entra.
Que não sendo jardins seja rosa, de preferência amarelo bem forte, para preencher o poema de ardência e amplidão, e que não sendo folha seja pétala cedida à cadência do poeta e que fingido acredita que ela é flor, ainda que sendo mulher
Faz poesia acreditando que perfume é tinta e pinta a escrita como flor, enquanto com ela faz amor
Do meu livro Causos Complicados