Estrangeiro
Às vezes sou estrangeiro dentro de casa, às vezes passageiro na minha cama
A noite é café em xícaras brancas, hoje eu não pertenço a lugar nenhum
Um pé na lua, não há lugar para onde eu possa ir agora,
Lá fora me desconheço,
A praia é terra macia, repetindo um nome ao vento
A espumeira do mar, marola, fofoca repetindo história de ontem,
Mas tu me segues
E me chama de obvio, mas eu sou tantos por fora
Mas em algum ponto eu cedo, tenho receio de ser duro e te ferir tanto que te machuque por dentro
O Causo do o do u
O Causo do o do u
Que não sendo buraco seja fenda, porque a introdução do poema precisa referência,
E os meus olhos sentem a carência de sentir de perto, ponto por ponto, vírgula por vírgula,
Que não sendo a tua pele sejam os teus pelos, pois pelo menos o que escrevo carece de penugens, de plumagem de algum apelo que seja do teu corpo nu
Que não sendo rua seja nua, pois eu troco as letras com frequência e a senda sendo a linha há de querer se escrita, mas que se esse(S) for efe (F), pode ser por onde a boca úmida comece, a dar forma às palavras orais, verbalmente ditas, sentidamente proferida, ou intencionalmente confundida, sendo fundida com ungida e benta, sacrilegamente penetrada como uma saída à falta de rima nobre, mas tendo a indecência busca dar algum uso aos confusos pensamentos de quem desorientado pensa que saída é entrada e entra.
Que não sendo jardins seja rosa, de preferência amarelo bem forte, para preencher o poema de ardência e amplidão, e que não sendo folha seja pétala cedida à cadência do poeta e que fingido acredita que ela é flor, ainda que sendo mulher
Faz poesia acreditando que perfume é tinta e pinta a escrita como flor, enquanto com ela faz amor
Do meu livro Causos Complicados
A Sombra
A sombra estava só,
Queria companhia e sentou-se ao meu lado, na normalidade dos dias cinza,
Assoviei uma música de George Harrison
é um bonito gesto dividir uma canção,
Eu nunca cobicei o que não possa ser consumido no ato
Dou prova de mim ao que o amor não se deve adiar,
Faz tempo que aprendi, mas ela não voltou
Tenho isso num papel, escrito
Para não esquecer jamais
Penas
Arranca pena a pena como se a alma moldada aos vícios prepostos se alinhassem aos teus gozos não dados
Como se a ave plena, dentro do peito se libertassem para os voos como se soubesse das dores maiores que nunca contastes
Lastrei os teus pés no piso para que nunca caminhes locais sagrados onde as chagas manchariam o chão
Pede o fogo apagado um carvão, as cinzas e pinta a cara e apaga os olhos à face escondida aos apelos de amor
Dobra as vestes de perdidas vontade de ser nua e alivia o contraste entre a boca e as palavras que alongam para dentro os desejos quando a parte mais sentida pede para ser tocada
Dê-se a todos os sentidos sem censura, pois a pureza concede mil desejos antes de cingir-se à imoral língua apregoada pelos santos,
Lambe e se farta antes que o sonoro cansaço a convença que a música não presta,
Mas saiba que dentro da presa a música boa é a da entrega quando não cabemos mais no desejo
Lava a alma boa, a vida pregressa sem a pressa de se vestir, deixa a brisa brinca na tua boca atrevida, nas partes mais íntimas
Deixa cada toque de vida te servir, pois a liberdade só vem depois que cada desejo deixar de existir
Esta noite
Todas as noites escrevo para busca-la, mas está noite viestes tão perto,
Tuas mãos forçando as minhas a escrever sobre aquilo que ainda sonho
Escrevo tão indefeso, tão conscientemente de ti, a silhueta de cada ilha na penumbra, um corpo que brilha feito estrela
Os barcos voltando das loucuras marítimas, as dores do corpo que nunca aceitam os vazios
Os abismos desconexos, o olhar que passeia no quarto tentando distinguir cada coisa, as tristezas oferecidas que não cabem mais
Cada aldeia nas suas rotinas de ferir a terra, o cheio do solo, o sangue correndo nas veias das plantas,
O copo de água macia que alivia a garganta das sedes eternas, os suores noturnos escrevem também
Os olhos estáticos das estrelas agora cintilam mais, como bons presságios a afastar o negrume dos corvos
As tuas mãos são as escritas das minhas e sinto que há mais do que desejo das palavras ditas,
Há as buscas dos longos estios das peles esquecidas nas ausências,
O toque a perceberem mais do que as lembranças que ondulavam sem definições precisas
Há os consolos de quem acredita no ressurgimento das coisas perdidas, da carícia da terra a acolher a semente que brota,
Por cada gota ensopada de orvalho, num diminuto sermão da vida,
A folha branca da aurora estendida ao longo da estrada a nos chamar a escrever outra história,
E se o silêncio pudesse ouvir as palavras ditas por nossos olhares, diria que, o amor nunca se cansa de tentar
.
Aspereza
Aspereza
Cegos, somos nós,
Temos tantas histórias bonitas para escrever, mas cadê você?
Por onde escoam os amores não dados?
Devo esquecer?
Pelos ralos da vida, eu vi descer,
Meu coração está na garganta,
Doido para gritar,
Desejar não é querer,
Engana-me a razão, com sua aspereza,
Que caso se justifique,
Eis o que dói,
Dói com certeza,
Talvez, rasgue mais ainda
Esse peito desprovido de defesas,
Essa feia ferida que não cicatriza,
E essa falta de encontro em vão,
Entre o seu e o meu coração,
Doido pra gritar,
Vou ainda lhe beijar,
Ilude-me então, a paixão...
Tempestade
No meio do mar, tempestade, vou para lá,
Assumo os riscos de morrer sabendo me afogar,
Me afogo sabendo que morro
Sempre morri dentro dos teus olhos,
Como o bom senso pelejando para chegar à praia,
É nos teus olhos que eu morro
Cada dia nas águas mais mornas
Minha alma rasa ganha forma, e eu profundo morro
Sem saber nadar
Sobre Ela
E se eu e ela tivéssemos vidas como as borboletas eu voaria com ela, por sobre os mares que cantamos em poemas,
e se eu pudesse escolher, abriria mão dos ventos, para viver eternidades pousado no peito dela
E borboleta não seria mais, porque as minhas asas atrofiariam,
e se pudesse escolher ainda mais onde morrer, abrira mão do mar, porque deitado sobre ela eu teria os mares todos,
e as vidas todas para ouvi-la marear os mares que deixei
E seria eu apenas felicidade a formar redemoinhos, mansos à volta dela
E se as borboletas soubessem de nós viriam também abrir mãos dos voos,
E pousariam sobre o peito dela
E saberiam todas como é, estando sobre o amor, amar