Lista de Poemas

Mariposas

Havia uma mariposa cega perdida entre girassóis, morreu queimada de girar tanto,
Mas as pombas em torno da lâmpada tiveram mais sorte, o sol não estava forte o tanto de derreter as asas brancas,
A dona cafetina não se relaciona mais, só deita na cama e cheira os lençóis,
Ela está pálida de fome, faz tempos que não come, só aproveita o gozo sobrados dos outros
Ah! O meu coração interpelado, não chora, só geme
Vem-me à boca a procura dos teus beijos
Não irei afoga-la no que te dá prazer, mas mato tua sede molhando-te homeopaticamente os lábios
Roça só um pouco os teus mamilos nos meus, é ordinário o mundo que não passa por ti
Ah! Já me sinto perdido em tua boca numa canção que o acaso trouxe, teus bicos são rosas de boas noticias
Não há primaveras que se saiba, mas só as que brotam dos teus seios florados
Saber onde tocar todos sabem, mas a delicadeza da rosa pede mais..
Pois ela sabe, que gozar é morrer de prazer... e renascer logo depois

Charles Burck 


 

 

51

Estações de esperas no meio do nada

O outono guardará as novas folhas lilases e as sementes do próximo ano
E os pássaros cantarão adiantados os sons vindouros
Retirando as mordaças dos homens e curando as meninas mutiladas,
E as primaveras estarão sarada
E flores feridas, cicatrizadas
E as tribos do sol brincarão na chuva e darão asilo aos velhos sonhos
E colo às velhas senhoras
E os catadores de silêncios dirão, bem vinda as tuas vozes
E nascerão estrelas onde a noite semeava solidão
E leitos de linhos e sedas, onde os estéreis verões indicavam aos amantes as estações de esperas no meio do nada

 Charles Burck
71

Teus olhos

Éramos dois devassos fazendo sagrado amor
Mas ainda havia pudor nos teus olhos
E nos meus, todo o ardor por saber,
As visões do corpo nu embevecem
E os templos desmoronam, mas o altar permanece...
 

Charles Burck
77

Aspereza

Aspereza

Cegos, somos nós,
Temos tantas histórias bonitas para escrever, mas cadê você?
Por onde escoam os amores não dados?
Devo esquecer?
Pelos ralos da vida, eu vi descer,

Meu coração está na garganta,
Doido para gritar,
Desejar não é querer,
Engana-me a razão, com sua aspereza,

Que caso se justifique,
Eis o que dói,
Dói com certeza,

Talvez, rasgue mais ainda
Esse peito desprovido de defesas,
Essa feia ferida que não cicatriza,
E essa falta de encontro em vão,
Entre o seu e o meu coração,

Doido pra gritar,
Vou ainda lhe beijar,

Ilude-me então, a paixão...

 

79

História das águias

Serei uma história em que as águias contarão
Um voo do alto de ver tudo mais amplos,
Quando os dias se revestirem, de ouro e adernos de prata
E os perfumes selarão as dores todas,
E me desenharão o meu peito de flores
E saberei que sonho
E transporei o muro para o outro lado da história que eu nunca contei
E dormirei sem medo
E da tempestade apenas ouvirei a respiração,
E do fogo só precisarei da luz, o calor morando dentro de mim
E fecharei o meu diário com a página do meio guardando amor  
E na última página, o teu nome

 Charles Burck
71

Estrangeiro

Às vezes sou estrangeiro dentro de casa, às vezes passageiro na minha cama

A noite é café em xícaras brancas, hoje eu não pertenço a lugar nenhum

Um pé na lua, não há lugar para onde eu possa ir agora,

Lá fora me desconheço,

A praia é terra macia, repetindo um nome ao vento

A espumeira do mar, marola, fofoca repetindo história de ontem,

Mas tu me segues

E me chama de obvio, mas eu sou tantos por fora

Mas em algum ponto eu cedo, tenho receio de ser duro e te ferir tanto que te machuque por dentro


79

O homem está cru



O homem está cru, sem sal e sem tempero,

no deserto da pele os sobressaltos do mundo

O puxa saco do medo acarinha-lhe os bagos,

E ele goza sobre as faces rosas da moralidade,

A arte eregida há tempos memoriais deita exibida ao sol

O toque macio palmilha o quântico, o açucar salivar, a ilusão que a vida vestida é melhor

Larga os trapos e venha eu vou te ensinar o passo a passo da carne e dos ossos

Do amor mais profundo, do azul te fazendo parir um mundo mais denso

Não precisa ornamentos, no chão duro os elementos sentirão o teu corpo tremer

Nas mãos está o segredo, os toques dos dedos na origem da expansão,

Donde renascem os cortejos da vida  e os caminhos dos fluxos que sonham criarem universos outros,

Só tu e eu no rosnar macios dos bichos no cio, a tarde a espera do ócio,

As tuas portas abertas ao meu desejo, o tempo fazendo de conta que se importa com o dia que não veio, o tempo somos nós

E a alma pulsa e a tua carne lateja no meu peito,

E os nossos beijos apagam os avisos que indicam o caminho ao infinito

67

Tempestade

No meio do mar, tempestade, vou para lá,
Assumo os riscos de morrer sabendo me afogar,
Me afogo sabendo que morro
Sempre morri dentro dos teus olhos,
Como o bom senso pelejando para chegar à praia,
É nos teus olhos que eu morro
Cada dia nas águas mais mornas
Minha alma rasa ganha forma, e eu profundo morro
Sem saber nadar
78

O causo dos jumentinhos

O causo dos jumentinhos

 Afê égua, bicho atentado, peste de sete pragas, praga de sete peles, bicho danado, bicho matreiro, por que a flor da vizinha ao lado sempre tem o melhor cheiro?

A égua teve um jumentinho de dois pais diferentes, é jumento demais para tão pouca inteligência, mas o menino ganhou diplomação, saiu doutor e montou no primeiro burro que passou.

Eu não confesso as minhas mazelas a padre nenhum, ponho-nas de molho e as deixo fermentar e virar cerveja. Bebo-as devagar, sem pressa nenhuma, há quem ache que os pecados matam, mas é preciso acreditar antes, que pecado existe, depois se deixar matar por eles, eu os curto como formas saudáveis de aprender com eles, só não aceito que eles preguem peças nos outros.

Chorei, chorei, depois parei, mas antes chorei de novo, os acréscimos de águas são bons para o sertão, ajuízo esses aguaceiros a tornar tudo verde, estou parecendo pé de pitomba, cheinho de flores brancas, as alegrias veem depois de cada chuvarada, já atinei isso pela criançada que brinca nas poças d’água, solta. 

De cabeça para baixo viu o mundo rasteiro, mais rasteiro do que é, um pé que vai primeiro não avisa ao outro do caminho, o buraco é mais fundo para quem olha apenas o firmamento, mas pé torto e anjo morto também entram no céu.

Domingas da ferida aberta casou-se com Monsolo, tiveram três filhos homens, dois morreram solteiros, e um casou-se depois de morto, ele trocou o sagrado pelo profano e brindou o fim do mundo em janeiro, mas o mundo tinha acabado em dezembro e o padre não professou o casamento.

Beijo de mulher brava não traz prazer algum, ficamos com medo de perder os beiços, ou que ela nos coma a língua toda, mas nem todos os sapos têm boca grande, mas há as pererecas que nem querem saber, só querem saber dos beijos.

Porém escrevo temente às coisas que digo, se alguma alma malévola descobre-me por dentro, e pode percebe que eu não tenho suficiente inteligência para zombar do coitado do jumento, melhor que eu me cale então e passe a cuidar da burrice que me cabe.

 
Do mue livro Causos Complicados
 

75

Caronte

Vens a mim que os deuses serenam
Nasceste pequena, linha fina da teia, para abrigar a aranha
E a morte deita-se ao nosso lado e espera,
Esperou-nos aos dezesseis não viu os vinte,
E depilou os pelos das virilhas e das axilas
Aos trintas sorveu o tutano dos ossos e afiou os dentes na serra,
E enfeitou os cabelos com ouros, mas antes chamou a minha mãe,
Cada costela adorna de flores fixadas por espinhos,
Os choros eu não lembro estava vivendo os cinquenta
E ela lambeu os dedos dos pés, e salivou o mel do meu desejo,
E depois espocou flashes de luminosidade duvidosa, e cantou para os pirilampos,
Pôs duas brasas nos olhos e foi nos ver aos setenta
Sentiu a nossas sedes e nos ofereceu seu leite de bode,
Aos noventa rezou um tango por nós, e dançou “Por una Cabeza”
Sabe-se lá desde quando está assim trocando os passos
Aos cem estava cansada de esperar por nós, dormiu um sono mortal
O suficiente para revolver os labirintos da terra, as sementes dos amores mortos,
Falar dormindo dos brilhos definido dos espíritos dos anjos,
O bastante para dizer que nada morre, que ela é a invenção da sua grandeza, 
Filha de Nix, a barqueira de Hades,
A condutora para os roteiros de uma nova esperança 
A alinhavar nas pálpebras nossas, os astros nus
Para apagar em nós, nossas infinitas noites vazias
377

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments