charlesburck

charlesburck

n. 1950 BR BR

Heterônimo de Wilson Costa - Escritor, autor dos livros, O anjo do dia, Olhos ferinos, Compêndio de coisas guardadas, Alma, Oxigênio, Falsas impressões, Causos por acausos, Causos complicados, Ensaios de uma vida toda,

n. 1950-03-18, Salvador

Perfil
13 860 Visualizações

Velhas e novas primaveras

O amor é como a jovem que quer a virgindade eterna
mas que dorme nua
A eternidade exposta, entregue aos argumentos do tempo
Não existe pureza absoluta, nem pecado mortal
As floradas vingam como mato entre as pernas esquecidas das velhas senhoras
O diabo mora na estação ao lado
Precavenho-me e salto antes,
A Moça virgem salta uma estação depois
Deus é parceiro e o diabo aventureiro,
A moça geme a primavera recém-chegada
A canção lamentosa exposta na janela, por onde o amor passou
Das velhas senhoras que o cantam, agoniadas
Quanto poetas saltaram na estação errada
E são vistos a vaguearem pelos vales colhendo flores mortas
Fazendo poemas dizendo do que nunca praticaram
 
 
Charles Burck
 
Ler poema completo

Poemas

88

Dança comigo

Dança comigo então, 
Como uma entidade de causar rupturas nas crostas dos castelos e plantar florescências sem causas e sem nexos
A nos drogar de lúdicos florais afrodisíacos, vertidos em lágrimas de apregoar bandeiras e deflorar os mastros 
E a sede nascente de quem bebe a própria sede e provoca correntes de afogados, e eu a me entregar à fluidez das águas e mergulhar no mais fundo do colapso inteiro 
Nem sei do que falo, mas a cura se dá, ao certo, a quem sem ter estudado, busca, na libido da noite estrelada, o remédio

Charles Burck
103

Afogueamentos

Os afogueados desejos pousaram de asas em chama entre as pernas tuas, 
Mas nada veio depois, a não ser o cheiro do teu liquido espesso que não saciava a boca porque era perfume 
Mas minou pela minha vida toda, afora, na saudade pecaminosa que jamais foi embora

Charles Burck
52

Trégua

Nos demos uma trégua hoje, e cantamos canções de paz, 
E fizemos, juntos, um amuleto para o regresso do impossível
A respiração da alma – estamos a voltar sempre enquanto nos afastamos mais
Mas não hoje, hoje não, quando por tudo vivemos quando nada temos, 
Não há resignação na luta e só há a recusa ao abandono –
Porque existimos para a vida, pela sobrevivência, para alongar o último suspiro, 
Não fazemos julgamentos pelo não acontecido, o futuro será a nossa não aceitação a abdicar de nós
Na precisão do passo temos que aprender a caminhar com os olhos vendados, 
A vida é um precipício que se movimenta
Mas há poemas em todos os lados, como flores que escapam de um sorriso, 
Como a florescer dos teus olhos em tempos escassos de luz, 
Quando nascer traz inúmeras semelhanças com a morte
Brindamos um caso de amor borbulhando vida

Charles Burck
61

Pedras nas águas



Atirávamos pedras
para a água sorrir
para o silêncio deixar de existir
Para a luz se dividir em pedaços

 Charles Burck 

77

As rosas

Ah! Já me sinto perdido em tua boca, numa canção que o acaso trouxe, teus bicos são rosas de boas notícias
Não há primaveras que se saiba, mas só as que brotam dos teus seios florados
Saber onde tocar todos sabem, mas a delicadeza da rosa pede mais..
Pois ela sabe que gozar é morrer de prazer... para brotar logo depois

 

Charles Burck

70

Deus passou por aqui


Deus esteve aqui tão rente aos meus lábios para dividir uma palavra de consolo,
Que eu chorei e ele também,
Tem dias frios, onde a chuva mina dos olhos, e as goteiras caem das calhas dos telhados, os pássaros se acolhem nos vãos dos sótãos
E os destinos tremem de saudades,
Encolho-me então como os caracóis e peço perdão por
mexer no baú dos ossos,
Mas há uma delicada semelhança dos sentidos com os movimentos do mar,
Há os que nos falam manso, tão perto do ouvido que a alma assevera que está dentro
Como um canto de pássaro que mora na gente
Como ondas que tão remotas trazem as texturas da voz de Deus...
 

Charles Burck
97

Estorvo

Creio que ganhei a existência pela vontade dos elementos

Sou um nêutron de gesso maior que a maioria, vulnerável num ponto abaixo da cabeça

Meça três palmos e acerte-me o peito em cheio,

Poderia ficar assim sentado observando a evolução dos planetas, mas o tempo é curto

O lençol é curto,

O mundo é curto para os meus desejos,

A vida é interpretativa e mal cabe num contexto, qual parte do mundo evolui?

é difícil identificar num texto à parte

Poderíamos ter um fim de papo honesto, não sou filho dileto do céu, até voo, mas sou um estorvo às aves de voos bons

 

 

Charles Burck
79

Anjos e Demônios

Os amantes cairão sob o cansaço dos beijos, como andorinhas depois da migração,
Outros verões surgirão e outras estações de beijar,
Os amigos também esperam,
A mesa e a cama têm lugares vagos,
Aos indefinidos sentimentos um bilhete de despedida, aos amores plenos um cenário de biografias totais,
Consomem-se as chamas alugadas e sol manipulado,
Plantem-se raízes em uma cama no quintal, as plantas copulam melhor com a natureza solta,
E escrevem na terra sobre saudades e romance ao sentido adequado dos olhos,
Os abraços desfigurados sonham peitos de acolhimentos mais largos,
E eu peço desculpas com a cabeça ao amparo dos teus ombros,
Os amantes hoje voltaram ao final da tarde, enchendo a casa de perfumes,
O lado musicado da vida, os registros de poemas nos espelhos e nos vidros, se espalham
vejo olhos dos que desprezaram a aritmética, as métricas quadradas, os cabelos presos na nuca,
E ela solta aos ventos os cabelos que quase voam e brincam com as folhas e se tornam elementos dos desenhos das colchas,
Vi tudo isso no olhar da moça que passava, nas pregas do vestido, no sorriso desdenhando as regras,
Vi e ouvi os anjos discutindo com os demônios,  
Mas o amor fizeram juntos, era algo em comum, a única fonte de concordância
 

Charles Burck
70

Gretas de Estrelas

Dê-me ao tato os sabores dos outros sentidos se de olhos fechados te leio interpretando as entrelinhas
Buscando recuperar os tempos perdidos entre outros amores
Não pinte os lábios e nem me mostre pelo espelho as ancas, 
Não ponha roupas com fechos ou entraves maiores, 
Não plantes discórdias no meio dos diálogos da pele com os dedos, 
Não me chame de senhor quando eu for menino confessando nada saber de amor, 
Nem me evite à boca aos seios, 
Morro de medo de morrer de sede tão perto do aguadeiro 
Quando no meio das chamas os beijos transformem os dias quente em paraísos melhores, 
Leio-te devagar misturado às flamas e o doce sonhar que me aproxima dos dias de felicidades, 
Outrora tive olhos maiores, mas a fome não me deixava sentir o sabor da tua necessidade de caminhar devagar
Rogo aos amores que me façam um amante melhor, que venham pousos raros 
Momentos de suaves encantos, 
E que ao amar, a tua beleza com a minha alma peregrina, me faça entregue a tudo que de ti me prende, 
Com sincero amor e a face pedida nas gretas infestadas de estrelas.

Charles Burck

89

Estações de esperas no meio do nada

O outono guardará as novas folhas lilases e as sementes do próximo ano
E os pássaros cantarão adiantados os sons vindouros
Retirando as mordaças dos homens e curando as meninas mutiladas,
E as primaveras estarão sarada
E flores feridas, cicatrizadas
E as tribos do sol brincarão na chuva e darão asilo aos velhos sonhos
E colo às velhas senhoras
E os catadores de silêncios dirão, bem vinda as tuas vozes
E nascerão estrelas onde a noite semeava solidão
E leitos de linhos e sedas, onde os estéreis verões indicavam aos amantes as estações de esperas no meio do nada

 Charles Burck
81

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.