os homens não
O coração, também, se entrega à loucura
Eu tenho a impressão que os livros sobrevirão ao holocausto,
O homem não,
Os livros são eternos, o homem não,
Escrevi nos livros, àquele que o meu coração ama, eu sou louco
Registrei uma citação para a eternidade
Lá eu seguirei, minha loucura também,
Os homens não
Charles Burck
O amor
O amor comeu o meu céu e a minha terra
Minha paz, a minha guerra e a minha alma.
Deu-me um dia de calma,
De noite, voltou
Charles Burck
Logo Ali
Morrer é como ir dar um passeio, no outro lado do mundo
Um lugar desconhecido, de onde viemos antes
Charles Burck
Filosofia
A filosofia transpira em nós, e nós achamos que é apenas suor
Sempre precisamos de ar mais puro, mais puro
Caminhamos na obscuridade e não sabemos do nosso lado mais obscuro,
Como caminhar de costas sem vermos o que vem atrás
Aos surtos de exuberâncias vazam-nos os olhos,
Ou entornam-nos o coração até esvaziarem-nos a mente
A anuência nossa ao medo pressupõe que a vida é dos covardes,
Mas à paixão que nos observa precisamos de olhos acordados, sempre.
Charles Burck
Os olhos dela
Aos olhos de ver da alma, o mundo é logo ali
Mas eu sempre me perco,
Ao que me demoro nos olhos dela
Charles Burck
Eu livro
Logo que eu aprendi as primeiras letras consegui sozinho formar as primeiras palavras, as primeiras frases, e saber-me um devorador de livros, depois, só bem depois, quando eu já sabia escrever, que me senti escritor. Foi a primeira sensação de ser algo.
Vocês já repararam como eu falo do tempo?
O tempo dentro das lembranças, poucos sabem das horas, pouco sabem das noites e dos dias
Não se pode manipular as lembranças, seria deformar o que somos, instalar um depósito de bugigangas dentro do ser. O que seria dos nossos mitos, dos nossos heróis, de nossos espelhos?
O meu pai era um homem cronológico, estabelecia horários para tudo, para eu ler também, determinava à minha mãe o que eu deveria fazer diariamente, depois sumia e só aparecia quando eu já dormia.
A minha mãe obedecia, e eu – Bem, eu lia, lia no banheiro, no almoço, na cozinha, lia acordado, dormindo, fazendo xixi, tomando banho e lia tudo, caixinha de fósforos, propaganda de chicletes, anúncios fúnebres e anúncio de bondes.
Vejo- me sempre pendurado a um livro, ele preenchendo meus vazios, dialogando com minha solidão de menino e forjando meu caráter.
A cronologia das lembranças nem sempre está na ordem certa, acho que antes de ser um leitor, eu fui um livro.
Charles Burck
Drama
Escrevia silêncios enorme, noites inexoráveis e nada se resumia,
Os olhos de viagem não se consumiam de todo
Os desafogos dos anjos pintados em vermelho tomavam suas faces
As vertigens áureas, as línguas desaforadas corrompendo as razões
A carne crua, o iluminado apalpando o obscuro
E o trágico nu despido de tudo, fazendo comedia
E onde tudo parecia drama, ele só queria festas
Charles Burck
A morte inqueita
A morte nunca se aquieta, no máximo silencia, ou assovia um canto que pensamos ser o vento
Por desembainhar a minha espada me fartei tanto,
E deixe poemas expostos, firmes como caules de ideias, por onde a flor deveria brotar, mas se assenta
E de trincheiras escondida, inventa
Que o homems não ama, luta, mata
Mais jamais seremos algozes, falo,
Embora tenhamos espadas
Charles Burck
Ladra
De noite os cães ladram e a noite ladra,
E há as ladras nos corações do silêncio
O ramo que se mexe como sombras e os lobos que vigiam todos
O insuspeitado repousar da vida se inquieta
E as respirações ficam suspensas quando a trupe dos mortos geme
Não dou ouvido às palavras mortas, mas me distendo sob a lua
E sopro as feridas metafísicas, e abro as páginas marcadas de dentro dos íntimos papeis guardados para suturar as lesões mais vivas
A meu favor, o que planto sem esperar recompensas dos jardins
Mas busco algum secreto recado dos teus olhos, entre as flores
Só me confundem as estrelas derrotadas, e as rosas mortas que por vezes traduzem os delírios de ódios enterrados no solo,
Tenho saudade do verde de onde cresci
Do gramado tapete de voar ao infinito
Das noites em que eu não me preocupava com nada
Dos esconderijos acima do burburinho
Quando a vida corrente carregava contos nossos escondidos entre a folhagem
Desempenhando as fainas das nossas incertezas de crescer
E quem colherá o suspenso fruto da luz ao avesso
Nos provisórios tempos de embusteiras realidades, donde os sonhos
imitam a luz,
Charles Burck
Trégua
Nos demos uma trégua hoje, e cantamos canções de paz,
E fizemos, juntos, um amuleto para o regresso do impossível
A respiração da alma – estamos a voltar sempre enquanto nos afastamos mais
Mas não hoje, hoje não, quando por tudo vivemos quando nada temos,
Não há resignação na luta e só há a recusa ao abandono –
Porque existimos para a vida, pela sobrevivência, para alongar o último suspiro,
Não fazemos julgamentos pelo não acontecido, o futuro será a nossa não aceitação a abdicar de nós
Na precisão do passo temos que aprender a caminhar com os olhos vendados,
A vida é um precipício que se movimenta
Mas há poemas em todos os lados, como flores que escapam de um sorriso,
Como a florescer dos teus olhos em tempos escassos de luz,
Quando nascer traz inúmeras semelhanças com a morte
Brindamos um caso de amor borbulhando vida
Charles Burck