Acalma o meu coração
Acalma o meu coração,
Às portas da cidade há aves comendo as manhãs
Quem repousa à sombra da minha face? Quem é você que eu não vejo?
Peço e pergunto e você não me responde, apenas sorri
O quanto me atrevo a esperar que os seus olhos se ergam para mim
Não compreendo a natureza dos homens, mas a dos seus olhos, sim
A sutileza de sorrirem enquanto repouso,
Porém, sempre me incendeias, e eu esqueço o arbusto impregnado de sossego diurno, e colho ao anoitecer os frutos seus
À noite, à paisagem no ventre, a entrega pungente, o meu coração de sal e brandura
Não me obedece jamais
Ensinar a aprender sobre o corpo das mulheres, sobre os incensos que rompem os meus músculos
E ainda me diga por que eu sonho acordado, sobre os telhados das ruas,
Já a minha alma me perdoa, o meu coração entoa um cântico de sagrado silêncio, mas os meus instintos, não
Eles cantam alto, e não me deixam dormir, nem eu nem a cidade toda
Charles Burck
Bar paraíso
Tinha um bar no inferno, onde serviam absinto e enxofre, e o teu nome escrito no copo, faiscava
Então quando me chamas, por que o fazes?
Dói-me saber que escolhi ser livre no meio da tempestade
A liberdade não tem gravidade, gira solta assim, trança teias sem precisar das moscas,
Ri das minhas escolhas, ri de mim
É o feto ri do gênio, das loucuras do mar, do fio de seda, do homem que pintou a cara de palhaço
Eu perdi o senso de direção, os pingos de chuva me orientam pelo chão, temos fortes laços sim, ligaduras entre flores e raízes
Sou um bêbado afogado nas enxurradas, nos litros de sol, com um cordão no pescoço atado a ti,
As bandas do céu tocam Everybody's Coming To My House
Já bebi muito a tua falta, essa essência sofrida é uma armadilha de amor
Mas quem vai limpar o chão depois que tu passas?
As abstinências que chutam os baldes, os sopros de desafogos, as pétalas arrancadas ao peito, aos bocados
Todo dia rego os canteiros com esse novo sentido de alucinação
Estamos cheios um do outro, cheios, no bom ou no mau sentido
Prefiro hoje tocar à noite, a minha canção preferida, do que sentir a vida, à dor de arder a noite toda sem solução
O cheiro de anis é fatal, apenas o humor é uma ameaça à inteligência, eu sempre fui burro de fato, um animal comendo no teu quintal
Sinto o cheiro da dor no final da rua, entre as ervas daninhas
Sinto cheiro de ti,
Sinto muito
Charles Burck
Logo Ali
Morrer é como ir dar um passeio, no outro lado do mundo
Um lugar desconhecido, de onde viemos antes
Charles Burck
Drama
Escrevia silêncios enorme, noites inexoráveis e nada se resumia,
Os olhos de viagem não se consumiam de todo
Os desafogos dos anjos pintados em vermelho tomavam suas faces
As vertigens áureas, as línguas desaforadas corrompendo as razões
A carne crua, o iluminado apalpando o obscuro
E o trágico nu despido de tudo, fazendo comedia
E onde tudo parecia drama, ele só queria festas
Charles Burck
Os olhos dela
Aos olhos de ver da alma, o mundo é logo ali
Mas eu sempre me perco,
Ao que me demoro nos olhos dela
Charles Burck
Filosofia
A filosofia transpira em nós, e nós achamos que é apenas suor
Sempre precisamos de ar mais puro, mais puro
Caminhamos na obscuridade e não sabemos do nosso lado mais obscuro,
Como caminhar de costas sem vermos o que vem atrás
Aos surtos de exuberâncias vazam-nos os olhos,
Ou entornam-nos o coração até esvaziarem-nos a mente
A anuência nossa ao medo pressupõe que a vida é dos covardes,
Mas à paixão que nos observa precisamos de olhos acordados, sempre.
Charles Burck
Eu livro
Logo que eu aprendi as primeiras letras consegui sozinho formar as primeiras palavras, as primeiras frases, e saber-me um devorador de livros, depois, só bem depois, quando eu já sabia escrever, que me senti escritor. Foi a primeira sensação de ser algo.
Vocês já repararam como eu falo do tempo?
O tempo dentro das lembranças, poucos sabem das horas, pouco sabem das noites e dos dias
Não se pode manipular as lembranças, seria deformar o que somos, instalar um depósito de bugigangas dentro do ser. O que seria dos nossos mitos, dos nossos heróis, de nossos espelhos?
O meu pai era um homem cronológico, estabelecia horários para tudo, para eu ler também, determinava à minha mãe o que eu deveria fazer diariamente, depois sumia e só aparecia quando eu já dormia.
A minha mãe obedecia, e eu – Bem, eu lia, lia no banheiro, no almoço, na cozinha, lia acordado, dormindo, fazendo xixi, tomando banho e lia tudo, caixinha de fósforos, propaganda de chicletes, anúncios fúnebres e anúncio de bondes.
Vejo- me sempre pendurado a um livro, ele preenchendo meus vazios, dialogando com minha solidão de menino e forjando meu caráter.
A cronologia das lembranças nem sempre está na ordem certa, acho que antes de ser um leitor, eu fui um livro.
Charles Burck
A morte inqueita
A morte nunca se aquieta, no máximo silencia, ou assovia um canto que pensamos ser o vento
Por desembainhar a minha espada me fartei tanto,
E deixe poemas expostos, firmes como caules de ideias, por onde a flor deveria brotar, mas se assenta
E de trincheiras escondida, inventa
Que o homems não ama, luta, mata
Mais jamais seremos algozes, falo,
Embora tenhamos espadas
Charles Burck
Ladra
De noite os cães ladram e a noite ladra,
E há as ladras nos corações do silêncio
O ramo que se mexe como sombras e os lobos que vigiam todos
O insuspeitado repousar da vida se inquieta
E as respirações ficam suspensas quando a trupe dos mortos geme
Não dou ouvido às palavras mortas, mas me distendo sob a lua
E sopro as feridas metafísicas, e abro as páginas marcadas de dentro dos íntimos papeis guardados para suturar as lesões mais vivas
A meu favor, o que planto sem esperar recompensas dos jardins
Mas busco algum secreto recado dos teus olhos, entre as flores
Só me confundem as estrelas derrotadas, e as rosas mortas que por vezes traduzem os delírios de ódios enterrados no solo,
Tenho saudade do verde de onde cresci
Do gramado tapete de voar ao infinito
Das noites em que eu não me preocupava com nada
Dos esconderijos acima do burburinho
Quando a vida corrente carregava contos nossos escondidos entre a folhagem
Desempenhando as fainas das nossas incertezas de crescer
E quem colherá o suspenso fruto da luz ao avesso
Nos provisórios tempos de embusteiras realidades, donde os sonhos
imitam a luz,
Charles Burck
as velhas bruxas
As velhas bruxas vivem dos cheiros e dos perfumes que tocam,
As substâncias da lua azeda e o cio dos meninos que bebericam os seios adocicados,
Um palmo de razão ao medo, mas o receio de beirar o prazer encanta
E cinge os beirais da cama e os risos soltos das meninas
A velha bruxa sabe do fluxo do mar e das pernas bambas,
Dos mareares dos marinheiros de primeira viagem
O solo rouco dos madeirames que rangem ao se tocarem
Da maresia das agoniadas flores jogadas nas camas
Dos nomes ditos nos olhos que cultivaram desejos,
As velhas bruxas sabem dos gozos matinais e das lamentações noturnas da fome
Vasas cabeleiras molhadas nas cristas das ondas, o sal de salgar os curtumes das peles claras de nuvens pálidas,
Beba mais leite que o desejo consome as forças, amarrem aos mastros as moças de olhos amareados
E sintas os cordames que circundam as tuas nádegas cruas
E orem os deuses dos mares que te mantenha puras até a praia seguinte
Mas as velhas bruxas sabem que isso não conta, apenas o tempo marca os desejos findos em cada célula madura,
Em cada olhar perdido no horizonte
Charles Burck