Lista de Poemas

Amor e fermento

Minha avó dizia: Que para amar não precisa talento, só açúcar e fermento nas doses certas.

Charles Burck
29

Acalma o meu coração

Acalma o meu coração,
Às portas da cidade há aves comendo as manhãs
Quem repousa à sombra da minha face? Quem é você que eu não vejo?
Peço e pergunto e você não me responde, apenas sorri
O quanto me atrevo a esperar que os seus olhos se ergam para mim
Não compreendo a natureza dos homens, mas a dos seus olhos, sim
A sutileza de sorrirem enquanto repouso,
Porém, sempre me incendeias, e eu esqueço o arbusto impregnado de sossego diurno, e colho ao anoitecer os frutos seus
À noite, à paisagem no ventre, a entrega pungente, o meu coração de sal e brandura
Não me obedece jamais
Ensinar a aprender sobre o corpo das mulheres, sobre os incensos que rompem os meus músculos
E ainda me diga por que eu sonho acordado, sobre os telhados das ruas,
Já a minha alma me perdoa, o meu coração entoa um cântico de sagrado silêncio, mas os meus instintos, não
Eles cantam alto, e não me deixam dormir, nem eu nem a cidade toda
                                         

Charles Burck
42

Logo Ali

Morrer é como ir dar um passeio, no outro lado do mundo
Um lugar desconhecido, de onde viemos antes

Charles Burck

27

Eu livro

Logo que eu aprendi as primeiras letras consegui sozinho formar as primeiras palavras, as primeiras frases, e saber-me um devorador de livros, depois, só bem depois, quando eu já sabia escrever, que me senti escritor. Foi a primeira sensação de ser algo. 
Vocês já repararam como eu falo do tempo? 
O tempo dentro das lembranças, poucos sabem das horas, pouco sabem das noites e dos dias
Não se pode manipular as lembranças, seria deformar o que somos, instalar um depósito de bugigangas dentro do ser. O que seria dos nossos mitos, dos nossos heróis, de nossos espelhos? 
O meu pai era um homem cronológico, estabelecia horários para tudo, para eu ler também, determinava à minha mãe o que eu deveria fazer diariamente, depois sumia e só aparecia quando eu já dormia. 
A minha mãe obedecia, e eu – Bem, eu lia, lia no banheiro, no almoço, na cozinha, lia acordado, dormindo, fazendo xixi, tomando banho e lia tudo, caixinha de fósforos, propaganda de chicletes, anúncios fúnebres e anúncio de bondes. 
Vejo- me sempre pendurado a um livro, ele preenchendo meus vazios, dialogando com minha solidão de menino e forjando meu caráter.
A cronologia das lembranças nem sempre está na ordem certa, acho que antes de ser um leitor, eu fui um livro.

Charles Burck
31

Os olhos dela

Aos olhos de ver da alma, o mundo é logo ali
Mas eu sempre me perco, 
Ao que me demoro nos olhos dela 

Charles Burck
41

Filosofia

A filosofia transpira em nós, e nós achamos que é apenas suor
Sempre precisamos de ar mais puro, mais puro
Caminhamos na obscuridade e não sabemos do nosso lado mais obscuro,
Como caminhar de costas sem vermos o que vem atrás
Aos surtos de exuberâncias vazam-nos os olhos,
Ou entornam-nos o coração até esvaziarem-nos a mente
A anuência nossa ao medo pressupõe que a vida é dos covardes,
Mas à paixão que nos observa precisamos de olhos acordados, sempre.


Charles Burck

 

18

Drama

Escrevia silêncios enorme, noites inexoráveis e nada se resumia,
Os olhos de viagem não se consumiam de todo
Os desafogos dos anjos pintados em vermelho tomavam suas faces
As vertigens áureas, as línguas desaforadas corrompendo as razões
A carne crua, o iluminado apalpando o obscuro
E o trágico nu despido de tudo, fazendo comedia
E onde tudo parecia drama, ele só queria festas

Charles Burck

 

35

A morte inqueita

A morte nunca se aquieta, no máximo silencia, ou assovia um canto que pensamos ser o vento
Por desembainhar a minha espada me fartei tanto,
E deixe poemas expostos, firmes como caules de ideias, por onde a flor deveria brotar, mas se assenta
E de trincheiras escondida, inventa
Que o homems não ama, luta, mata 
Mais jamais seremos algozes, falo,
Embora tenhamos espadas
 
Charles Burck
47

Ladra

De noite os cães ladram e a noite ladra,
E há as ladras nos corações do silêncio
O ramo que se mexe como sombras e os lobos que vigiam todos
O insuspeitado repousar da vida se inquieta
E as respirações ficam suspensas quando a trupe dos mortos geme
Não dou ouvido às palavras mortas, mas me distendo sob a lua
E sopro as feridas metafísicas, e abro as páginas marcadas de dentro dos íntimos papeis guardados para suturar as lesões mais vivas
A meu favor, o que planto sem esperar recompensas dos jardins
Mas busco algum secreto recado dos teus olhos, entre as flores
Só me confundem as estrelas derrotadas, e as rosas mortas que por vezes traduzem os delírios de ódios enterrados no solo,
Tenho saudade do verde de onde cresci
Do gramado tapete de voar ao infinito
Das noites em que eu não me preocupava com nada
Dos esconderijos acima do burburinho
Quando a vida corrente carregava contos nossos escondidos entre a folhagem
Desempenhando as fainas das nossas incertezas de crescer
E quem colherá o suspenso fruto da luz ao avesso
Nos provisórios tempos de embusteiras realidades, donde os sonhos
imitam a luz,


Charles Burck
36

Dança comigo

Dança comigo então, 
Como uma entidade de causar rupturas nas crostas dos castelos e plantar florescências sem causas e sem nexos
A nos drogar de lúdicos florais afrodisíacos, vertidos em lágrimas de apregoar bandeiras e deflorar os mastros 
E a sede nascente de quem bebe a própria sede e provoca correntes de afogados, e eu a me entregar à fluidez das águas e mergulhar no mais fundo do colapso inteiro 
Nem sei do que falo, mas a cura se dá, ao certo, a quem sem ter estudado, busca, na libido da noite estrelada, o remédio

Charles Burck
93

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