Assasinato da flor
Flores sempre bonitas
Sejam Margaridas ou tulipas
Flores morrendo a toda hora
Rosas brancas ou rosas
Em sua romântica morte
Pobre girassól sem sorte
Arrancado do galho
Como prova de amor
Esquecido de vez
Num jarro sem cor.
Aninha
E ai, Ana ficou mocinha
Passa batom, mancha a calcinha
Cala a boca, vai pra cozinha
Fecha as pernas, e só abre de véu e grinalda
Não chame atenção, não seja deslechada
Mas que difícil ser mulher. Que nada
Não pensa de mais, mulher sabida é cilada
É vagabunda e mal amada
Agora bem crescida
O povo fofoca quando anda
Olhar firme, batom vermelho, pouca roupa
Satisfeita bem morada
Sim, ela é a vagabunda mal amada.
Meu futuro amor
Querida vida
Tudo que lhe peço é um amor
Exijo apenas que seja sincero
Despido de vaidade
Que seja de verdade
Singelo, carregado de Espontaneidade
Quero de um jeito que nunca vi
Mas anseio por sentir
Não desejo tal
Para tampar vazios
Isso é tarefa para mim mesma
Mas que meu amor
Seja minha fortaleza
Ternura em riqueza isso é beleza
Não exijo que fique comigo
Quero viver em zona de perigo
Dizem que amor é fogo... bem
Que me queime
Por cada átomo do corpo
Enfim poderei me tranquilizar
Ter algo por zelar
Meu segredo profundo
Vou amar até ser defunto
Que seja por acaso
Saberei por um simples esmo
Porque sou boa em sentir
Se não fosse ai de mim
Então não irei me preucupar
Minha hora vai chegar
Me resta apenas esperar.
Quem é o morto
E pela primeira vez
Não a diferenças
Entre o pobre e o doutor
A morte é a única justa
Quem morre é quem ficou
Porque morrer é para os vivos
Por isso se morre por quem
A morte levou.
Sufoco
Viver é tão desconcertante
Casca que inflama
Lágrima que não derrama
Estamos bem piores que antes
Piores que vampiros
Matando sem retirar o sangue.
Mãe Deus
Qual o motivo que me leva a acreditar
Ser íntima do mundo?
A pergunta me persegue atônita
Tão bruta cuspindo em minha cara o fato
Que não sou nada, totalmente abestada
Um animal fútil
Preso em superstições com um destino atado
Se achando acima de tudo por usar um sapato
Igualmente fútil e abestado
Que direito eu tenho?
De não só me satisfazer no seio do mundo
Como reconhece-lo como mãe
Depois de tudo que fiz, que quis!
De me sentir amada e acolhida
De oferecer meu tão pouco
Pela imensidão que me é oferecida
Será que é um amor recíproco?
Sou uma boba iludida?
Não pode ser; o carinho que sinto
É real. Tem de ser
Se não, nada ne importa
Pois então, rezo, dou
Todo minha alma na tentativa incerta
De retribuir, apenas
Assim como faço do mundo meu altar
Me prontifico a ele
Minha morada
Eu que nele
Hábito.
Amei
Comparam a mim um dia
O amor a um cálculo matemático. Quem ousa dizer
Que meus amores não passam de paixões banais!
Querendo convencer-me que amor só é amor reverente, partindo de fórmulas fundamentais
Bem, amo assim, com fim, em um momento que se eterniza em mim.
Amo despreocupada vivendo de puro amor inocente
E amo tanto amar sem ser carente, amar algo como que se vive dele.
Eu vivo do meu amor.
Peixe sem nome
Certa vez
Tal peixe doente
Miserável deficiente
Vagava no mar eminente
Com sua nadadeira dormente
A danada nascera quebrada
O coitado remexia e nada
Se arrastava em meio a lama encolhido
Não sei porque Deus o fez tão sofrido
Viverá apenas e unicamente
Para minha agonia de contar sua história
Pois toda história merece ser contada
Até a do peixe sem rosto, sem cor
E sem vida.
O óbvio é o asco
Eu que de tudo sou imensurável
Que para a matéria me perco
E o invisível sou hábil
E de tudo que vejo carrego o fardo
De fingir que não vi
Pior
Não senti
Minha dor está em saber
Totalmente consciente
Que meu dever no mundo é
Sofrer
Por saber demais da minha mesquinhez
De saber do meu monstruoso orgulho
E dessa minha percepção
Me orgulhar
Me fazendo assim oque mais temo
Oque vejo.
O porque de ser assim
Terei de aceitar
A vida e a morte
Em meu dia mais miserável
Entregar-me a sorte
Pois ao menos posso queixarme
Meu lamento incoerente
Entendem por charme
Pois vos digo
Minha fome não é de carne
Minha dor não é braço
É saudade do calor
De gente de verdade
Da vida que ardeu certa tarde
Sairei eu desse inverno gélido?
Não sei, sei apenas que
Não é preciso morrer
Para conhecer o inferno.