Olhar embriagado
Vi
Uma mulher
Bela e
Formosa
Pena que a danada
Não foi
com a minha prosa
Tentei me aproximar
Tropecei
que nem senti
Só ouvi quando berrou
Bebo fedido sai daqui
Cai bem do seu lado
Babando afobado
Eita
que arrogância
Eu só queria um trocado.
Instante
Num colapso, desatino frente
O instante perdido, a doce garoa
Vem das nuvens ferozes
Assim como a compreenção
Minutos desatenta no chão frio
Em devaneios soluveis
Não irei estragar-me com razão
Tendo em mente que nada sei
Entendo apenas que me perdi.
Amarro
Nunca fui boa com nóz
Sejam no cadarço, na corda
Até a nóz moscada
Quem dirá no coração
Sou boa com palavras
Em dizer, sem dizer
Talvez por isso
Jamais
desatarei nóz com maestria
Como poderei?
desfazer o nó sem tocá-lo?
Mas sinto que... talvez;
Não seja de toda verdade
Pois acabei de o fazer
O nó em meu peito
Desprendi com poesia.
Conforto
E quando a doce razão morre
No orizonte, só, na névoa do ar
Tudo que sou foge na brisa
E algo maior vem despertar
Como uma esperança funebre
Em um suspiro de gozo dor
Vem a leveza da vida
De um conforto amador
E de súbito tudo se pontua
A um fato pior
O mesmo cálice que cura
Perpetua uma dor maior.
Anônimo desejo
O coração derrete
O libido pulsa
Somos Afrodite e Hera
Inocente luxúria
Faça-me te amar loucamente
arfar docemente
Viciar em seu aperto forte
Se te viver for pecado
Quero pecar até a morte.
Amei
Comparam a mim um dia
O amor a um cálculo matemático. Quem ousa dizer
Que meus amores não passam de paixões banais!
Querendo convencer-me que amor só é amor reverente, partindo de fórmulas fundamentais
Bem, amo assim, com fim, em um momento que se eterniza em mim.
Amo despreocupada vivendo de puro amor inocente
E amo tanto amar sem ser carente, amar algo como que se vive dele.
Eu vivo do meu amor.
Mãe Deus
Qual o motivo que me leva a acreditar
Ser íntima do mundo?
A pergunta me persegue atônita
Tão bruta cuspindo em minha cara o fato
Que não sou nada, totalmente abestada
Um animal fútil
Preso em superstições com um destino atado
Se achando acima de tudo por usar um sapato
Igualmente fútil e abestado
Que direito eu tenho?
De não só me satisfazer no seio do mundo
Como reconhece-lo como mãe
Depois de tudo que fiz, que quis!
De me sentir amada e acolhida
De oferecer meu tão pouco
Pela imensidão que me é oferecida
Será que é um amor recíproco?
Sou uma boba iludida?
Não pode ser; o carinho que sinto
É real. Tem de ser
Se não, nada ne importa
Pois então, rezo, dou
Todo minha alma na tentativa incerta
De retribuir, apenas
Assim como faço do mundo meu altar
Me prontifico a ele
Minha morada
Eu que nele
Hábito.
Quem é o morto
E pela primeira vez
Não a diferenças
Entre o pobre e o doutor
A morte é a única justa
Quem morre é quem ficou
Porque morrer é para os vivos
Por isso se morre por quem
A morte levou.
O óbvio é o asco
Eu que de tudo sou imensurável
Que para a matéria me perco
E o invisível sou hábil
E de tudo que vejo carrego o fardo
De fingir que não vi
Pior
Não senti
Minha dor está em saber
Totalmente consciente
Que meu dever no mundo é
Sofrer
Por saber demais da minha mesquinhez
De saber do meu monstruoso orgulho
E dessa minha percepção
Me orgulhar
Me fazendo assim oque mais temo
Oque vejo.
O porque de ser assim
Terei de aceitar
A vida e a morte
Em meu dia mais miserável
Entregar-me a sorte
Pois ao menos posso queixarme
Meu lamento incoerente
Entendem por charme
Pois vos digo
Minha fome não é de carne
Minha dor não é braço
É saudade do calor
De gente de verdade
Da vida que ardeu certa tarde
Sairei eu desse inverno gélido?
Não sei, sei apenas que
Não é preciso morrer
Para conhecer o inferno.