Poemas
48Amor degradável
Nosso amor
tem um cheiro de comida
bem gostosa, bem cozida
temperada com primor
Só que há meses esquecida
no fundo da geladeira:
azedou, gerou bolor
Ninguém mais nega
que só serve
para fartar
a barriga da lixeira
Ou serviria
um banquete
para os germes
invisíveis
que pululam
aos milhões
as terras
de algum jardim?
38
Aizinhos
Ah, meu amigo,
minhas dores
são sem sal
Não sabem o nome
da rosa
nem colhem as flores
do mal
São dorzinhas
pequeninhas,
imaginárias
reais,
sobem descem
pela espinha
queimando febres
locais
Essas dores,
meu amigo,
tem caráter
intestinal
não enxergam
além do umbigo
nem acusam
o mal social
Bem quisera
as minhas dores
fossem mágoas
mais morais
que abraçassem
o mundo inteiro
me irmanassem
aos marginais
Ou quem dera
a dor, amigo,
não fosse
apenas carnal
e esta mera
dor de ouvido
me elevasse
ao celestial
Me dói tanto,
caro amigo,
doer dores
tão banais
essas penas
chinfrinzinhas
puramente
corporais
Tantas vezes
fantasio
sofrer moléstia
abissal
ou tormento
tão pungente
que me turve
a luz da mente
e me ascenda
ao surreal!
Chega o dia,
mano velho,
que algum achaque
fatal
(talvez desgosto
mais sério)
me traga a cura
afinal
soprando o pó
do mistério
dessa indolência
animal
59
Fui pro ar perdi o lugar
Não gosto de me expandir
sempre que me retorno
está faltando um pedaço:
vai ficando dia a dia
largo o rasgo, grande o espaço
onde não cabe mais nada
que se ajeitar no escasso
E, no entanto, não encontro
das proporções, a devida
que costure em leves traços
os retalhos de uma vida,
quem conserte o estilhaço
e que me lamba a ferida,
quem me contorne um abraço
e me devolva à medida
Tudo aquilo que não toco
vaga pra sempre perdido
como um desejo moído
pela pedra do cansaço
44
Late, coração!
Enquanto meu pai
enfartava
quem mais chorava
era um cão
Este uivava
como bicho
maltratado
pelos chutes
de um senhor
sem coração
O mesmo bicho
que em vida
seguidas vezes
chutou
O mesmo bicho
que em vida
aos gestos bruscos
enxotou
Vai saber se o cão
chorava
pela partida
do dono
ou ressentia
os maltratos
que o fedor
da morte brusca
lhe impingia
ao coração
56
Onda de frio
A queda da bolsa de valores
me deixa frio
As pernas do Cristiano Ronaldo
me deixam frio
Os 200 reféns do grupo terrorista
me deixam frio
A nevasca em Nebrasca
me deixa frio
A ressurreição do Tiranossauro rex
me deixa frio
Os cartazes com a Gisele semi-nua
me deixam frio
A prisão do Huguinho, do Zezinho e do Luisinho
me deixa frio
Os 828 metros do Burj Khalifa
me deixam frio
O aquecimento global
me deixa frio
Até a alta da bolsa de valores
me deixa frio
Meu Deus!
Alguém podia chamar um
eletricista para consertar
a porra desse aquecedor?
58
Rilkean heart
Eu, o que mais gosto
é de coraçãozinho assado
Dizem que Rilke comia
só coração cru
Eu não, só como assado
Talvez eu não seja
um bom gourmet
Talvez eu deva aprender
a comer coração cru
(mas é que adoro a farofa!)
Rilke que me perdoe
mas sou velho demais
pra comer coração cru
Minha mãe sempre dizia:
Coração descompassado
só se aquieta no grelhado
62
Só pra feira dos poetas
Eu tenho inveja de quem
tem amigo poeta
Se eu tivesse um só
amigo poeta
doava a ele toda minha
amargura
Ele faria doces
e os venderia em feiras
de poetas,
pois poetas, esses sabem,
pôr candura
na amargura
Não há poeta
que não curta
um doce amargo de mel. Vão à feira
e compram quilos
das mais amargas doçuras
Como não tenho a quem dar
eu a guardo na gaveta
(pois quem sabe
chegue o dia
que me promovam
a poeta?)
Tivesse a mão
mais soltura
eu até que me arriscava
criar doces
de amargura
53
Sono de pedra
Eu tudo daria
para poder dormir
o sono da pedra
em meio ao deserto
O sono grande
sem ronco
sem intenção de acordar
Sono embalado
por um só sonho:
de luzes extintas
e fóssil esplendor
Daria tudo
daria
plantações
meus cavalos
as refeições
os retratos,
a quem quisesse
eu daria
para dormir no deserto
sob o teto negro e mudo
onde miríades de estrelas
piscam sem nem mais ser
Que
de solidão de pedra
só entende mesmo o vento
Só não pergunte
o porquê
com certeza já esqueceu
como a estrela lá piscante
que não sabe
a magnífica
que há muito
feneceu
Quero só
sono de pedra
que nunca jamais acorda
para revelar os seus sonhos
Ou não acorda jamais nunca
para não esquecer o que sonhou?
Só quero o sono de pedra
Quero sonhar não ser eu
57
Sorte do cão
as pernas na Paraíso
só tem gosto de sabão
todo mundo aposta em bicho
Macaco, Porco ou Leão
Por que não?
Por que não?
eu tinha a maior ciumeira
das canelas do Rufião
dia foi ganhei um chute
com cheirinho de sabão
Por que não?
Por que não?
a gurizada da vila
só vive na aperreação
quando brincam de esconder
todo mundo passa a mão
Por que não?
Por que não?
tua mãe é lavadeira
nem pisou nunca em avião!
mas mamãe tem geladeira
do sorteio do Faustão!
Por que não?
Por que não?
dona Mercedez ganhou
três vezes com o Pavão
e quase morreu um dia
de ataque do coração
(se eu botasse fé no bicho
apostava era no Cão!)
Por que não?
Por que não?
lá na vila Paraíso
só se lava roupa à mão
e a cachorra da Mercedez
era a amiga do Rufião
(ainda trago nas ventas
seu cheirinho de sabão)
Por que não?
Por que não?
um dia o Rufião se foi
trepado num caminhão
a Mercedez fez chacota
é melhor que em camburão
(se eu botasse fé no bicho
te levava é de avião!)
Por que não?
Por que não?
me toquei correndo atrás
latindo com emoção
e as rodas da Mercedes
faziam um baita poeirão
(dia vem me acabo embaixo
dos pneus dum caminhão!)
Por que não?
Por que não?
se eu botasse fé no bicho
ia embora com o Rufião
me enroscava em sua canela
com cheirinho de sabão
Por que não?
Porque não?
66
Ponto de fuga
Em frente à janela se estende
uma rua
lavrada de puro asfalto
ladeada de altas paredes
armadas de cimento liso
Listras de janelas
sobem
descem
abaixo
acima
No cabo da rua,
um paredão
branco
duro
põe ponto às paralelas
que bem se sabe,
noutro caso,
se cruzariam nem mesmo
no oceano
do infinito
E além dos muros?
Aí já não sei
O que sei é que
que entre eles
isso sim
se vem morrer
se vem sofrer
e se curar. É hospital
Mas às vezes
me pego na crença
que além do beco
pisca um recomeço
ou
que atrás da fria
pálpebra
da esfinge adormecida
um tenso olhar
sonha
e espreita
E não de raro
me peço
que dos confins
deste sono
a sã pergunta
decifre
todas vãs
servis respostas
que me amiúde
devoram
a graça infinda
de ver
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