Claudio de Jesus

Claudio de Jesus

n. 1971 BR BR

n. 1971-06-24, Novo Hamburgo

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Fantasia de uma noite de verão

 

Eu hoje, às vezes, me pergunto como era:

Um pesadelo, algum boato ou se existia

Nos dias antes do brotar da primavera,

Só solidão, longo fastio, tarde sombria?

 

O sol chegou já revogando o que houvera

Com um gesto quente acalentou a noite fria 

Lambeu da terra sua geada mais severa

E a fecundou com mil sementes de alegria

 

E hoje há dálias, há alecrins e há violetas

A brisa morna é a terna mão que acaricia

Nesse jardim canta um coral de borboletas:

A dor da noite converteu-se em ardor do dia!

 

Eu beijo cores, toco cheiros, bebo flores 

E que me lembre sempre foi essa harmonia:

A noite avança em serenata de cantores

E o dia escorre em galopante sinfonia

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Poemas

48

Amor degradável

 

Nosso amor

tem um cheiro de comida

bem gostosa, bem cozida

temperada com primor

Só que há meses esquecida

no fundo da geladeira:

azedou, gerou bolor

 

Ninguém mais nega

que só serve 

para fartar

a barriga da lixeira

 

Ou serviria 

um banquete

para os germes

invisíveis

que pululam 

aos milhões

as terras 

de algum jardim?

38

Aizinhos

 

Ah, meu amigo,

minhas dores

são sem sal

Não sabem o nome

da rosa

nem colhem as flores

do mal

 

São dorzinhas

pequeninhas,

imaginárias

reais,

sobem descem

pela espinha

queimando febres 

locais

 

Essas dores,

meu amigo,

tem caráter

intestinal

não enxergam

além do umbigo

nem acusam

o mal social

 

Bem quisera

as minhas dores

fossem mágoas

mais morais

que abraçassem

o mundo inteiro

me irmanassem

aos marginais

 

Ou quem dera

a dor, amigo,

não fosse

apenas carnal

e esta mera

dor de ouvido

me elevasse

ao celestial

 

Me dói tanto,

caro amigo,

doer dores

tão banais

essas penas

chinfrinzinhas

puramente

corporais

 

Tantas vezes

fantasio

sofrer moléstia 

abissal

ou tormento

tão pungente

que me turve

a luz da mente

e me ascenda

ao surreal!

 

Chega o dia, 

mano velho,

que algum achaque 

fatal

(talvez desgosto

mais sério)

me traga a cura

afinal

soprando o pó

do mistério

dessa indolência 

animal

59

Fui pro ar perdi o lugar

 

Não gosto de me expandir

sempre que me retorno

está faltando um pedaço:

vai ficando dia a dia

largo o rasgo, grande o espaço

onde não cabe mais nada

que se ajeitar no escasso

 

E, no entanto, não encontro

das proporções, a devida

que costure em leves traços

os retalhos de uma vida,

 

quem conserte o estilhaço

e que me lamba a ferida,

quem me contorne um abraço

e me devolva à medida

 

Tudo aquilo que não toco

vaga pra sempre perdido

como um desejo moído

pela pedra do cansaço

44

Late, coração!

 

Enquanto meu pai 

enfartava

quem mais chorava 

era um cão

 

Este uivava

como bicho

maltratado

pelos chutes

de um senhor

sem coração

 

O mesmo bicho

que em vida

seguidas vezes

chutou

O mesmo bicho

que em vida

aos gestos bruscos

enxotou

 

Vai saber se o cão

chorava

pela partida 

do dono

ou ressentia

os maltratos

que o fedor

da morte brusca

lhe impingia

ao coração

56

Onda de frio

 

A queda da bolsa de valores

me deixa frio

As pernas do Cristiano Ronaldo

me deixam frio

Os 200 reféns do grupo terrorista

me deixam frio

A nevasca em Nebrasca

me deixa frio

A ressurreição do Tiranossauro rex

me deixa frio

Os cartazes com a Gisele semi-nua

me deixam frio

A prisão do Huguinho, do Zezinho e do Luisinho

me deixa frio

Os 828 metros do Burj Khalifa

me deixam frio

O aquecimento global 

me deixa frio

Até a alta da bolsa de valores

me deixa frio

 

Meu Deus! 

Alguém podia chamar um

eletricista para consertar 

a porra desse aquecedor?

58

Rilkean heart

 

Eu, o que mais gosto

é de coraçãozinho assado

Dizem que Rilke comia 

só coração cru

Eu não, só como assado

Talvez eu não seja

um bom gourmet

Talvez eu deva aprender 

a comer coração cru

(mas é que adoro a farofa!) 

Rilke que me perdoe

mas sou velho demais

pra comer coração cru

Minha mãe sempre dizia:

Coração descompassado

só se aquieta no grelhado 

62

Só pra feira dos poetas

 

Eu tenho inveja de quem

tem amigo poeta

 

Se eu tivesse um só

amigo poeta

doava a ele toda minha

amargura

 

Ele faria doces

e os venderia em feiras

de poetas,

pois poetas, esses sabem,

pôr candura

na amargura

 

Não há poeta

que não curta 

um doce amargo de mel. Vão à feira

e compram quilos

das mais amargas doçuras

 

Como não tenho a quem dar

eu a guardo na gaveta

(pois quem sabe

chegue o dia

que me promovam

a poeta?)

 

Tivesse a mão

mais soltura

eu até que me arriscava

criar doces 

de amargura

53

Sono de pedra

 

Eu tudo daria 

para poder dormir

o sono da pedra 

em meio ao deserto

O sono grande

sem ronco

sem intenção de acordar

Sono embalado

por um só sonho:

de luzes extintas

e fóssil esplendor

 

Daria tudo 

daria 

plantações

meus cavalos

as refeições

os retratos,

a quem quisesse

eu daria

para dormir no deserto

sob o teto negro e mudo 

onde miríades de estrelas 

piscam sem nem mais ser

 

Que

de solidão de pedra

só entende mesmo o vento

Só não pergunte 

o porquê

com certeza já esqueceu

como a estrela lá piscante

que não sabe

a magnífica

que há muito

feneceu

 

Quero só

sono de pedra

que nunca jamais acorda

para revelar os seus sonhos

 

Ou não acorda jamais nunca

para não esquecer o que sonhou?

 

Só quero o sono de pedra

Quero sonhar não ser eu

57

Sorte do cão

 

as pernas na Paraíso

só tem gosto de sabão

 

todo mundo aposta em bicho

Macaco, Porco ou Leão 

 

Por que não?

Por que não?

 

eu tinha a maior ciumeira

das canelas do Rufião

 

dia foi ganhei um chute

com cheirinho de sabão

 

Por que não? 

Por que não?

 

a gurizada da vila

só vive na aperreação

 

quando brincam de esconder

todo mundo passa a mão

 

Por que não? 

Por que não?

 

tua mãe é lavadeira

nem pisou nunca em avião!

 

mas mamãe tem geladeira

do sorteio do Faustão!

 

Por que não? 

Por que não?

 

dona Mercedez ganhou 

três vezes com o Pavão

 

e quase morreu um dia

de ataque do coração

 

(se eu botasse fé no bicho

apostava era no Cão!)

 

Por que não?

Por que não?

 

lá na vila Paraíso

só se lava roupa à mão

 

e a cachorra da Mercedez

era a amiga do Rufião

 

(ainda trago nas ventas

seu cheirinho de sabão)

 

Por que não? 

Por que não?

 

um dia o Rufião se foi

trepado num caminhão

 

a Mercedez fez chacota

é melhor que em camburão

 

(se eu botasse fé no bicho

te levava é de avião!)

 

Por que não? 

Por que não?

 

me toquei correndo atrás

latindo com emoção

 

e as rodas da Mercedes

faziam um baita poeirão

 

(dia vem me acabo embaixo 

dos pneus dum caminhão!)

 

Por que não? 

Por que não?

 

se eu botasse fé no bicho

ia embora com o Rufião

 

me enroscava em sua canela

com cheirinho de sabão

 

Por que não?

Porque não?

 

66

Ponto de fuga

 

Em frente à janela se estende 

uma rua 

lavrada de puro asfalto

ladeada de altas paredes 

armadas de cimento liso

Listras de janelas

sobem

descem

abaixo

acima

 

No cabo da rua, 

um paredão 

branco 

duro

põe ponto às paralelas

que bem se sabe,

noutro caso,

se cruzariam nem mesmo 

no oceano 

do infinito

 

E além dos muros?

Aí já não sei

O que sei é que

que entre eles 

isso sim

se vem morrer

se vem sofrer

e se curar. É hospital

 

Mas às vezes 

me pego na crença

que além do beco

pisca um recomeço 

ou

que atrás da fria

pálpebra

da esfinge adormecida

um tenso olhar

sonha

e espreita

 

E não de raro

me peço

que dos confins

deste sono

a sã pergunta

decifre

todas vãs

servis respostas

que me amiúde

devoram

a graça infinda

de ver

66

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