Fazes-me crer que não sou quase nada. Mal sirvo para ser mulher, mãe ou namorada Saí para ir às compras, entro em casa, assustada. Na pior das hipóteses, esta noite sou violada.
Fazes-me crer que não sou quase nada. Só me queria divertir, quando me abordaste à entrada. “a p*ça serve para tudo” e eu não sirvo para nada. Ninguém vai acreditar, acho que vou ficar calada.
Fazes-me querer acabar com a minha vida. Não posso sequer sair à rua bem vestida. Roubaste-me a voz e deixaste-me perdida, Até quero fugir mas não encontro uma saída.
Fazes-me crer que não quero acordar Num mundo onde a mulher não é livre de andar Vestida como quer, com confiança no olhar Sem nada a temer, sem traumas p’ra recordar.
Fazes-me crer que isto não é um problema. Todas as queixas fazem parte de algum esquema. Machismo, opressão, esturpo. É um dilema. Quando saio à rua diz-me algo que eu não tema.
A verdade é que a mulher ainda sofre com o machismo. Vivemos num mundo onde reina o patriarquismo. Juntemos as vozes, quero provocar um sismo Não vou viver, nem mais um dia, à beira deste abismo.
Fazes-me crer que não sou quase nada. Mal sirvo para ser mulher, mãe ou namorada Saí para ir às compras, entro em casa, assustada. Na pior das hipóteses, esta noite sou violada.
Fazes-me crer que não sou quase nada. Só me queria divertir, quando me abordaste à entrada. “a p*ça serve para tudo” e eu não sirvo para nada. Ninguém vai acreditar, acho que vou ficar calada.
Fazes-me querer acabar com a minha vida. Não posso sequer sair à rua bem vestida. Roubaste-me a voz e deixaste-me perdida, Até quero fugir mas não encontro uma saída.
Fazes-me crer que não quero acordar Num mundo onde a mulher não é livre de andar Vestida como quer, com confiança no olhar Sem nada a temer, sem traumas p’ra recordar.
Fazes-me crer que isto não é um problema. Todas as queixas fazem parte de algum esquema. Machismo, opressão, esturpo. É um dilema. Quando saio à rua diz-me algo que eu não tema.
A verdade é que a mulher ainda sofre com o machismo. Vivemos num mundo onde reina o patriarquismo. Juntemos as vozes, quero provocar um sismo Não vou viver, nem mais um dia, à beira deste abismo.
482
Tivesse eu sofrido
Deixa-nos o tempo com a impressão De que a vida é uma corrida. Corremos de verão a verão Sem saber qual é o ponto de partida. Nem de partida nem de chegada, Deste ponto não sabemos nada, Num dia o avô conta um conto, No outro choramos na almofada. Choramos porque não alcançamos A tão desejada linha da meta. De que meta falamos? Da morte à espreita, discreta.
Corremos em caminhos apertados Palas nos olhos, corações desolados Queremos alcançar um amor, Que nos abrace com braços apertados. Não digo que esteja mal, é bom sentir alguém que se sente igual Mas com calma, sem pressão, Nunca forçando nenhum coração, Nenhum gesto nem nenhuma palavra Não é preciso pedir ao amor que se abra. Damos por nós de sorrisos nos dentes Talvez forçados, pouco contentes.
Porque tínhamos as palas, os olhos vendados Mais depressa sorrimos quando não estamos acordados. Revestimo-nos de olhos e expressões dormentes, Pensamentos ambíguos, cabeças quentes. Triste aquele que entra nesta miséria aparente Não se conhece a si nem ao mundo à sua frente.
Não conhece porque não quis largar a pala Escolhe o caminho de mais pequena escala Porque tudo o resto é penoso e faz pensar Faz sentir dor, quase tanto como amar.
Privamo-nos disso e perto da chegada Damos por nós moucos e de pele enrugada, A pensar como seria se tivéssemos tido a coragem De rasgar a venda, de ser mais do que uma miragem Mais do que um horizonte e ter algo mais sofrido, “Era capaz de doer mas pelo menos tinha-o vivido.”
~Sara Filipa Quintaneiro dos Santos
332
Sem querer, escrevi-te
Meditei na praia no final de uma tarde de verão, final de agosto no Algarve. O sol já quase se deitava mas o ar estava quente e abafado quase como se fossem duas horas da tarde, qualquer brisa que me batia no corpo era bem-vinda e sabia a mel, foi assim aos poucos que fui refrescando as ideias e a pele também. Quase sem roupa, de bikini sentada numa toalha em cima de uma rocha. Foi das tardes mais leves que tive.
~Sara Filipa Quintaneiro dos Santos
325
Revolta
Acho que o que achamos da vida depende da prespetiva. Não querendo ser negativa.
De que serve a máscara sorridente se passando essa corrente tudo se torna estranho?
Como podemos achar que a vida corre bem se vivemos num mundo onde tudo desaba, onde todos falam mas ninguém sabe de nada.
Eu quero mudar. Eu quero pensar e libertar-me deste vazio de mentes, destas crianças descontentes porque não vêem futuros reluzentes.
~ Sara Filipa Quintaneiro dos Santos
360
Correria
Foste e não voltaste, Quiseste sair do sonho e dele acordaste. Pergunto-me se também vagueias, Se pensas em mim e anseias Por um minuto a sós, Por um momento “só nós”. E pergunto-me o que diria, Se te encontrasse, um dia E que diferença faria Falar-te do teu sorriso Era lembrar-me e perder o juízo.
E o que me dirias tu… Que sempre deixaste que te visse De alma nua, transparente, Com um olhar mais que quente. E será que ainda me sentes? Será que és feliz enquanto mentes? (e se não) Procura-me e encontra-me agora, Chega e salva-me antes da hora.
Corro por um caminho inclinado, Dou o passo e desço para todo o lado, Sigo e já não sei parar. Procura-me, por favor, Quero levar-te para descansar.
~ Sara Filipa Quintameiro dos Santos
311
Espero
Se tens a ir, vai-te. Vais e desapareces, Comigo já não mexes Em mim já não cresces. Vais e o teu orgulho reclamas Quando afirmas o fim das chamas.
Preferes ignorar Continuar a enganar A máquina que não deixas funcionar.
Quando ela parar não me vais encontrar Não me vais ter, nas tuas mãos Para te satisfazer Para te fazer dizer Que me queres Que é em mim que te perdes.
Preferes deixar morrer, Fazer passar o que nunca passou, Apagar o que não se apagou.
Mas agora, Quem eu era, já não sou. E, um dia, Espero
E, por fim,
Já não te quero.
~Sara Filipa Quintaneiro dos Santos
337
Dualidade Humana
Ouve.
A batida perdida, a semente esquecida, o vibrar intenso de não saber onde pertenço. A corrida, o alento, faz sol de céu cinzento. Deixo que flua… esta verdade, nua e crua, se algum dia fosse tua e se algum dia fosse nossa, a realidade onde o sonho fizesse menos moça.
Fecho os olhos e viajo, eu sei que aqui não me encaixo. Um tempo relativo, um viver aparente, não sabe fazer-se gente. Se fico triste, sou contente. É assim que funciona, a dualidade humana, não sabe o que é nem sabe como se chama.
O que é o tempo? Voas nele, procuras o teu sustento. E depois? Morres.
Ficaram as marcas de corações pobres e o desgosto de momentos menos nobres.
Não sabe dar valor, não sabe viver se não for com rancor. De que serve? Guardar num quadrado algo que te enerve? Deixa-te, solta-te, envolve-te. Não queiras viver dentro do mesmo molde. Voa, rompe esse tolde que tens sobre ti, que te aperta as veias. Conhece o teu espírito, de todas as maneiras.
Vive.
~ Sara Filipa Quintaneiro dos Santos
325
Matrizes
A utopia de inventar uma fala para aquilo que se sente com a alma. Sentir no silêncio e escrevê-lo com calma Foge entre as paredes e organiza-se em redes
Divide-se
Quer esconder-se em várias matrizes Porquê? Porque o corpo não escreve o que a alma não vê Se tudo fosse explicado não tinha lugar para o errado. Se tens a perceber, percebe-o no momento, Vasculha em ti e guarda-o lá dentro. Não podes escrever a brisa Nem explicar o ritual Que é ver o mar e, na alma, Sentir o sal.
O sal, a liberdade, o amor,
A saudade.
~ Sara Filipa Quintaneiro dos Santos
335
Felicidade
Felicidade. Destino, caminho? Jardim que não se rega sozinho. Para uma grande alegria, Umas gotinhas por dia.
Onde hei de as ir buscar?
Infeliz aquele que deixou de procurar. A culpa não é minha, tua ou de alguém, É do tempo egoísta, só faz sol quando convém. A terra fica dentro de cada pessoa e Não conta se é má, honesta ou boa.
Rega com aquilo que tem, Com aquilo que encontra ou com o que lhe faz bem. Jardim que não se rega sozinho, Cuida bem do teu e descobres o caminho.
~Sara Filipa Quintaneiro dos Santos
350
Perspetiva do Lugar
Não tenho a certeza de como ou quando foi, sei que aconteceu e me deixou a pensar. Porque é que estava ali a reclamar? Porque é que, em tudo, era preciso complicar?
Seria mais fácil mudar o mundo ou a perspetiva do lugar?
O truque não é ter tudo em conta, é contar com as coisas certas. É ver e amar cada coisa no seu lugar, cada diferença que se possa encontrar.