Amo todos os stressados
E mais aqueles que estão sempre a reclamar,
E os músculos da voz a escavar
Suas queixas de queixados!
Contenta-me as pessoas que nunca se contentam
E não contentes com isso,
Sempre se não contentam disso!
E sempre se descontentam...
Honestamente, gosto!
Os que não sabem fazer sacrifícios;
Os púdicos, que são para mim um vício,
Os que não se importam com os outros!
Adoro sentar-me à mesa com os escravos do prazer,
Os que não aguentam estar sozinhos
Os muy nobres elitistazinhos,
Fico bêbado de os ver!
Os frios, de cortar os ouvidos;
Os intolerantes como Jesus Cristo!
Sérios, arrogantes, os de alma despidos
Cegam-me de amor imprevisto!
Amo ainda todas as pessoas como eu:
Os molengões mais criativos, tão sem jeito!
Os mais felizes tristes passaréus...!
E aqueles que não possuem estes defeitos,
Um dia os cabelos serão negros, ou loiros, num campo
de trigo. Os lábios grossos em forma de beijo
serão de menina
Um dia amar não será menos que amar o ciclo contínuo da vida
Mas de verdade. Amar de verdade.
Um dia o Sol irá nascer dentro de uma janela escura.
1 073
Espera
Tenho sono
Até onde a vista me alcança
Entre a aurora das pessoas que passam
E os pássaros que demoram
Na paisagem verde e sonora os girassóis
batendo no vento
E as luzes claras são estrondos daquele silêncio
tão eterno e tão lento
A minha cadeira virada para o coração
das paredes frenéticas do tronco
deste pinheiro
É um sopro azul nesta sala de Aeroporto
Tantas palavras deitadas
À espera - parece que gostam de esperar
Mas a vida é feita de vidro
Com duas portas entreabertas
E entro nos pinhais como um bicho que desfolha
As estrelas altas da ramagem
Muito para além da partida
Onde não é preciso sonhar
Que chegue a Morte
algum sinal
980
Encontro
Olá, eu sou o macaco fingidor
mas podes chamar-me Poeta.
Não tenho sede, mas bebo,
tenho sede. Para despir este segredo
Que me dói e que te ofereço.
E tu, de onde vens?
Eu sou a macaca, não tenho nada de especial para fazer
mas estou aqui sentada à espera
Que alguém me leve
E escreva a minha
Biografia.
1 118
Cientificamente
Cientificamente como um prumo
Tanto e tão tombados
O chão e o muro
Vou antes chamá-los de búzios
E goivinhas-da-praia
Seguindo a Elipse
Vou ser seminarista
Vou fazer madeixas às bruxas
Com dedos de bambu
e maresia
Nas quadrículas da vida
Os palácios de colmo
São degraus virgens
E todas as ânsias do Mundo
Levou-as o Mar que é salgado
987
História da Gaivota
A gaivota desceu do Mar
Para brincar
Foi andar de balouço
E largou-se
Como um menino
Caindo
Antes de pousar
Mas deu-lhe o vento
Um açoite
Que é de muito mais idade
E por sobre as ruas da gente
Só chia de carro
Lá se fora a asita, aflita
De papel assim fechada
Estava fria
E amuou as falas
Na calçada
Desci um pano preto
Pelos dois olhinhos dela
Ensolarados
Soltaram-se penas vivas
De medo parado
Levei-a para casa
Contei uma história de fadas
Meti na TV os passarinhos
Dei-lhe
Vinte e oito Douradinhos
Qual?! Não quis!
Nem pensos nem curativos
Fundos:
Apenas teimou
num leve segundo:
- Sei um caminho
Sossegadinho
E voou
1 072
Epopeia
Sou Capitão de navios; as almas
Que não carrego jazem docemente,
Como nos lábios se desfazem calmas
As bátegas frias de Mar dormente.
Fiz-me de casco, tâmaras e Palmas,
Capitão de navios, não de gente;
E na fúria do Mar que me quer santo,
À crista das vagas navego e canto.
Só Deus bem alto, qual Vénus e Baco
Cede; que na outra mão da tempestade,
Da espuma caia arroz, ou só tabaco
Que amarre por amor a Humanidade.
Abismos também amo mas abarco
Aqueles que se elevam de verdade;
Meu lar é a Via-Láctea sempre escuro
Porque é outra cintura que procuro.
Assim vou mareando, como as aves
Assim que o Mar desce: o acorde breve
De uma nota, e outra, e outras mais graves,
Acelerando mais e mais o leme
leve, dos meus últimos sonhos suaves.
E à noitinha, numa onda que regresse
É como se eu fizesse amor contigo,
Repetindo um poema repetido.
1 139
A Vela
Acende um desejo simples
Tépido como um aroma.
Um momento que arda, na paz escura do tempo
Tal estrela cadente.
Devorada em fragrâncias, tão breve
É o soluçar de uma promessa...
Pois que palavras são feitas de Primaveras,
Soltemos os pássaros a cada madrugada.
Uma cereja madura no gosto
Derrete-se como a bússola febril
Deste clarão: a memória-bandeira
Do nosso perfil transparente!
Risca o vazio com esta Lua de brincar
E deixa que a noite embale sossegada...
A flor efémera, que se ri,
O teu olhar, que cintila
E eu vi!
1 108
No Aeroporto
Olhos nos olhos
E tenho a vida por um fio
Como se fosse uma garça
Em ti verto as minhas asas
Coladas
Na candura do vôo
Podemos falar um pouco
Eu vou dobrar um sino
Em searas amarelas
Recortar caminhos
Refém de uma vénia que te faço
Tu vais redondo em sobrecarga
E nervos vertebrais, versáteis
Semear Países
Recitar no teu caminho
O Verão e a Primavera
989
Sádico
Vem divertir-te no meu jardim perverso
Em flores estendido e ordinário
Põe-te ilustrada por avesso
E agita o teu chapéu como um corsário
Que eu te quero sem amor debaixo
das Palmeiras e de Abacates
Que eu quero-te lisa num banco estreito
Sonhado a ouro de nenhum quilate
Porque Amor é droga seminal
É soneto que se dobra de um regaço
E o teu corpo é mais belo afinal
Na demora de um astro
Tu que preferes os ventos por sentir
Deixas-me, embora frágil, desmedido
Na praia onde delira inexplorada
A nossa Amizade arrebatada!
1 100
O relógio
Os ponteiros do relógio
Do alto da torre
Giram conforme o vento;
Quem é que marca as horas exactamente,
O relógio, ou o vento?
Aquela menina de leite
Hoje é de Estio e centelha, bonita
como uma fruta;
Quem é que ficou vermelha,
Foi ela, ou foi a Lua?
No fundo do meu coração
Nascem versos que me põem
de joelhos;
É o Mundo que me quer velho, ou eu
é que celebro a solidão?
Daniel, qualquer coisa se passou com a(s) rede(s) de algum telemóvel. Já sei que está tudo bem. Beijinho e continua a escrever.
Ana(bela) Martins
Daniel, só agora te descobri e gostei do que li. Voltarei mais vezes. Mas vou dizer-te a razão por que te encontrei: ligo para a tua mãe e ninguém atende. O que se passa? Um abraço e continua a escrever.