Amo todos os stressados E mais aqueles que estão sempre a reclamar, E os músculos da voz a escavar Suas queixas de queixados!
Contenta-me as pessoas que nunca se contentam E não contentes com isso, Sempre se não contentam disso! E sempre se descontentam...
Honestamente, gosto! Os que não sabem fazer sacrifícios; Os púdicos, que são para mim um vício, Os que não se importam com os outros!
Adoro sentar-me à mesa com os escravos do prazer, Os que não aguentam estar sozinhos Os muy nobres elitistazinhos, Fico bêbado de os ver!
Os frios, de cortar os ouvidos; Os intolerantes como Jesus Cristo! Sérios, arrogantes, os de alma despidos Cegam-me de amor imprevisto!
Amo ainda todas as pessoas como eu: Os molengões mais criativos, tão sem jeito! Os mais felizes tristes passaréus...! E aqueles que não possuem estes defeitos,
Um dia os cabelos serão negros, ou loiros, num campo de trigo. Os lábios grossos em forma de beijo serão de menina
Um dia amar não será menos que amar o ciclo contínuo da vida Mas de verdade. Amar de verdade.
Um dia o Sol irá nascer dentro de uma janela escura.
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Espera
Tenho sono Até onde a vista me alcança Entre a aurora das pessoas que passam E os pássaros que demoram
Na paisagem verde e sonora os girassóis batendo no vento E as luzes claras são estrondos daquele silêncio tão eterno e tão lento
A minha cadeira virada para o coração das paredes frenéticas do tronco deste pinheiro É um sopro azul nesta sala de Aeroporto
Tantas palavras deitadas À espera - parece que gostam de esperar Mas a vida é feita de vidro Com duas portas entreabertas
E entro nos pinhais como um bicho que desfolha As estrelas altas da ramagem Muito para além da partida Onde não é preciso sonhar
Que chegue a Morte algum sinal
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Encontro
Olá, eu sou o macaco fingidor mas podes chamar-me Poeta. Não tenho sede, mas bebo, tenho sede. Para despir este segredo Que me dói e que te ofereço.
E tu, de onde vens?
Eu sou a macaca, não tenho nada de especial para fazer mas estou aqui sentada à espera Que alguém me leve E escreva a minha Biografia.
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A Vela
Acende um desejo simples Tépido como um aroma. Um momento que arda, na paz escura do tempo Tal estrela cadente.
Devorada em fragrâncias, tão breve É o soluçar de uma promessa... Pois que palavras são feitas de Primaveras, Soltemos os pássaros a cada madrugada.
Uma cereja madura no gosto Derrete-se como a bússola febril Deste clarão: a memória-bandeira Do nosso perfil transparente!
Risca o vazio com esta Lua de brincar E deixa que a noite embale sossegada... A flor efémera, que se ri, O teu olhar, que cintila
E eu vi!
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No Aeroporto
Olhos nos olhos E tenho a vida por um fio Como se fosse uma garça Em ti verto as minhas asas Coladas Na candura do vôo
Podemos falar um pouco Eu vou dobrar um sino Em searas amarelas Recortar caminhos Refém de uma vénia que te faço
Tu vais redondo em sobrecarga E nervos vertebrais, versáteis Semear Países Recitar no teu caminho O Verão e a Primavera
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Epopeia
Sou Capitão de navios; as almas Que não carrego jazem docemente, Como nos lábios se desfazem calmas As bátegas frias de Mar dormente. Fiz-me de casco, tâmaras e Palmas, Capitão de navios, não de gente; E na fúria do Mar que me quer santo, À crista das vagas navego e canto.
Só Deus bem alto, qual Vénus e Baco Cede; que na outra mão da tempestade, Da espuma caia arroz, ou só tabaco Que amarre por amor a Humanidade. Abismos também amo mas abarco Aqueles que se elevam de verdade; Meu lar é a Via-Láctea sempre escuro Porque é outra cintura que procuro.
Assim vou mareando, como as aves Assim que o Mar desce: o acorde breve De uma nota, e outra, e outras mais graves, Acelerando mais e mais o leme leve, dos meus últimos sonhos suaves. E à noitinha, numa onda que regresse É como se eu fizesse amor contigo, Repetindo um poema repetido.
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História da Gaivota
A gaivota desceu do Mar Para brincar Foi andar de balouço E largou-se Como um menino Caindo Antes de pousar
Mas deu-lhe o vento Um açoite Que é de muito mais idade E por sobre as ruas da gente Só chia de carro
Lá se fora a asita, aflita De papel assim fechada Estava fria E amuou as falas Na calçada
Desci um pano preto Pelos dois olhinhos dela Ensolarados Soltaram-se penas vivas De medo parado
Levei-a para casa Contei uma história de fadas Meti na TV os passarinhos Dei-lhe Vinte e oito Douradinhos
Qual?! Não quis! Nem pensos nem curativos Fundos: Apenas teimou num leve segundo:
- Sei um caminho Sossegadinho E voou
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Escrever poemas não cansa
Escrever poemas não cansa O que mais cansa é escrevê-los Postos ao Sol em tranças Sem ganchos a prendê-los
Qualquer verso que nasça é puro É por isso que os meus poemas Nunca rimam com muros Mas hão-de rimar sempre!
Um poema tem de caber Do Sol que ginga até ao fruto Se diz amor, ajudo E entrelaço fonemas
Eu sou tão sábio como um mocho E o meu desgosto não convém Escrevo para um todo Não mais para ninguém
E vão para o Diabo que as leve! Suas metáforas de pluma Suas corcundas, credo Abrindo a fechadura
Um dia vou pôr-me atrás delas Daquela tinta azul canela Sílabas só de penas Que não façam poemas
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Sádico
Vem divertir-te no meu jardim perverso Em flores estendido e ordinário Põe-te ilustrada por avesso E agita o teu chapéu como um corsário
Que eu te quero sem amor debaixo das Palmeiras e de Abacates Que eu quero-te lisa num banco estreito Sonhado a ouro de nenhum quilate
Porque Amor é droga seminal É soneto que se dobra de um regaço E o teu corpo é mais belo afinal Na demora de um astro
Tu que preferes os ventos por sentir Deixas-me, embora frágil, desmedido Na praia onde delira inexplorada A nossa Amizade arrebatada!
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Cientificamente
Cientificamente como um prumo Tanto e tão tombados O chão e o muro Vou antes chamá-los de búzios E goivinhas-da-praia
Seguindo a Elipse Vou ser seminarista Vou fazer madeixas às bruxas Com dedos de bambu e maresia
Nas quadrículas da vida Os palácios de colmo São degraus virgens E todas as ânsias do Mundo Levou-as o Mar que é salgado
Daniel, qualquer coisa se passou com a(s) rede(s) de algum telemóvel. Já sei que está tudo bem. Beijinho e continua a escrever.
Ana(bela) Martins
Daniel, só agora te descobri e gostei do que li. Voltarei mais vezes. Mas vou dizer-te a razão por que te encontrei: ligo para a tua mãe e ninguém atende. O que se passa? Um abraço e continua a escrever.
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