Lista de Poemas

Virgem Maria Rita

Sabia tudo sobre mim
Fruto da brizomancia aplicada
Era eu o sonho e o escolhido para o fim
Da tal ''inocência imaculada''

A obcessão crescia como nunca antes
Perseguição cruel da harpia feroz
Então ouvi um silvo; era ela e sua voz
Lábios mel carnudos, olhos brilhantes

Expliquei-lhe então: ''que o amor
cresce em nós como uma flor,
e para isso é preciso uma semente
Entre a gente não houve calor,
e a raiz sem esse morno ardor
teria um fulgor decadente''


Dei-lhe um abraço, beijei-lhe a face e por fim
disse-lhe que não desistisse de outro amor assim.
686

Sonho de voar

À revelia de todos os meus sentidos
Meu espírito abraçou a rebeldia
O momento chegou e nem o sentia
O dia estava calmo, sem ruídos

Tal paz me invadiu, inconsciente
Dormente, minha atenção nem pressentiu
A razão posta de parte consentiu
Tal acto irracional mas coerente

E quando lá do alto me atirei
Por milagre ganhei asas e voei
A vontade venceu gloriosa a gravidade

Hoje sei que nem a morte apaga a vida
Se sonhar for realidade conseguida
Hoje sou alma etérea, luz branca sem idade

No momento da verdade
Salta de encontro à vontade !
660

Círrosis Divinis

Resíduos se acumulam
No fígado de Deus
Detritos filhos seus
Por ganância deambulam

A cirrose vai avançada
É incurável como o não crente
A Terra, Mãe destroçada
A morte, Era eminente

A Divindade vai sorvendo
A maldade desta gente
E a cirrose vai crescendo
Numa contagem decrescente
661

De tantas maneiras me mataste

Levei dois tiros no amor
E uma facada na paixão
Toda ela e seu ardor
Pertence a outro coração

Enforquei-me no desejo
Afoguei-me na ternura
Na doce e suave brandura
Da boca que já não beijo

Atirei-me do alto da loucura
Cortei as veias da empatia
Então morri de monotonia
Saudoso dessa candura !
722

Poesia omnipresente

Minha poesia por Lisboa espalhada
Em cada esquina e colina, misteriosamente
Pode ser pouco, para muitos nada
Mas é como ter minh'arte omnipresente

Letra a letra, rima a rima, o povo entende
Que alguém resolveu su'alma partilhar
E se ao passares, um teu breve olhar se prende
É o bastante, e tal dádiva não se vende
Dá-se, para o tempo o perpetuar.
652

As leis cientificas do amor

A linha à volta da tua face
À Lei de Darwin iluminada
Levou a ciência a um impasse:
Ter tal linha num humano recortada

E se olharmos teu corpo, tuas proporções
Vemos a Regra de Ouro e suas noções
Exemplarmente exemplificadas

Por isso meu amor por ela é de forma tal
Que até as Teorias da Relatividade Geral
Sem ele teriam de ser alteradas

Este meu doce encanto por ti
Consegue-se ver chegando a Pi
E inutiliza a Lei da Gravidade

O Efeito Borboleta levou assim
À Teoria do Caos que provoca em mim
A reacção química da saudade . . .
652

Aguaceiro

Foi a manhã, vista um pouco turva
Sorriso breve antes do beijo lento
Foi a rosa entreaberta antes da chuva
Foi a brisa encontrada antes do vento

Foi a noite e a inocência da demora
Foi o amanhã; verde janela aberta
Dois corpos nús que não vão embora,
E acordam uma praia ainda deserta

Foi a paz, o silêncio antes do grito
Foi a nudez antes do amor consumado
E foi depois o cântico interdito
E todo este poema questionado...

Mas o que vale e o que fica
E indubitavelmente se auto-justifica
São aqueles momentos bons
Os cheiros, os toques, os sons...
685

Prestidigitador

O som de um cometa a passar
Um gemido puro sem fim
É o bicho que tenho em mim
Que não pára de pensar

Vai, dissolve-me o corpo no espaço
Inócuo, estridentemente mudo
Verdadeira e eterna ilusão, tudo
Logro mais fraco que um forte abraço

Isto não é arte nem poesia, não é nada !
É maresia, alquimia, a magia de um vulgar ser
Pois mais vale não ser do que apenas parecer
Visão molhada em pão e ovo, enfim, panada

Este poema é sobre o que não é
Sobre quem não tem pretensões a ser
Fala da força de querer aprender
E de quem se ri da inteligência até

É tudo uma pura ilusão
Algumas palavras, um papel, uma caneta na mão. . .
595

Dégradé Noir - Blanche

Ontem pensei morrer
E levar comigo toda a amargura do pós-ternura
Levar todo meu corpo, parte da minha alma e deixar a loucura
Transpôr o outro lado do anoitecer


Ontem pensei morrer
e deixar este mundo belo e imperfeito
Dar o último suspiro com um estranho trejeito
Ontem pensei no definitivo adormecer

E porque ontem pensei morrer
Hoje acordei cravado de gana
Hoje meu espírito intensamente emana
uma enorme vontade de viver

E porque quem vive, morre
quem morre, viverá
E nada melhor me ocorre
para viver de novo, já !
644

Pó e azia

Se a poesia fosse virtude
Seria eu um virtuoso?
Dar-me-ião espasmos de vaidoso ?
Grunharia impropérios amiúde ?

Se a poesia fosse visco esbranquiçado
Ou um vomitado intelectual
Seria eu um asco verde, um anormal
Ou batoque a ponto-cruz costurado ?

A poesia não é, nem tem de ser
Estudo aprofundado de ciências
Ou remédio santo para carências
Nada que a palavra possa descrever

Poesia é simples pura energia
O ''eu'' espiritual mais profundo
A minha cerebral alquimia
É meu céu, minha terra, meu mundo !
668

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Nasci em Lisboa, na freguesia da Penha de França, a 18 de Junho de 1979. Adoro poesia, aquariofilia, pintura e escultura.

Recentemente escrevi o meu primeiro livro de poesia, intitulado ''Inexperiências'', pela Corpos Editora / World Art Friends

Poesia para mim é um acto quase fisiológico, no sentido de que se torna quase uma necessidade escrever. Muitos poemas vêm em sonhos, pelo que tenho um bloco e caneta ao lado da cama. Talvez nem sejam meus...talvez sejam de todos nós e eu simplesmente os apanhe...