Lista de Poemas

Os tais

Já saltei muros, entrei em bairros
Um tanto ou quanto impenetráveis
Galguei caminhos, procurei atalhos
Nem por satélite observáveis

Troquei sonhos e afiadas filosofias
Vi com outros olhos, outros mundos
Com os mais nobres e fiéis vagabundos
Partilhei riquezas, espalhei alegrias

Comi merda que o diabo defecou
Gozei o beijo que Deus me enviou
Coisas que não sonham, se não sentiram

Tudo isto porque sou dos tais
Daqueles contra os quais
Os vossos pais vos preveniram. . .
654

Tubo de ensaio

Perigosas almas supremas
Pairam no ar sobre nós
Troçam dos maiores teoremas
Silenciosamente, de olhar atroz

A Terra uma enorme incubadora
Experiência morosa, mas promissora
Testando a Humanidade de perto

A extinção dos grandes sáurios explicada
Foi a eficaz solução encontrada
Para a natureza seguir o rumo certo

Sei tudo isto porque sonho
Vi também um ser medonho
E nem Deus será capaz
De perdoar a tal satanás.
610

Engodo

Num morremorrer cheio de ilusão
João compra a paz, vil tesouro
Dá o pão e o ás àquele cabrão
Alquimista que da morte faz ouro

Com a ânsia nos nervos camuflada
Vê-se com o garrote na veia
Então a ponta rompe, deslumbrada
Uma vida mais que então esperneia

E é naquela artéria já sem movimento
Sentença de uma sociedade empodrecida
O jovem rapaz vê um clarão, sente o vento
E eu daqui já sinto o cheiro a gente sem vida

Enterra-se um que nasceu defunto
E mais ninguém liga ao assunto.
674

O início da mudança

Hoje sou um homem alucinado
Que procura desesperado
Um sentido, uma guarida

O tempo passa e minha mente
Diz-me que o passado está presente
E o futuro ausente de minha vida

Procuro angustiado um rumo
Um contra-peso, um fio-de-prumo
Uma porta aberta, o fumo branco

Um novo dilema ou então uma bala perdida.
Prefiro a antecipada despedida
Que perder meu sorriso e seu encanto !
568

Apenas eu

Dizia-me Ela antes que eu era seu Deus
Ela agora diz-me que já não é crente
Deixei eu de ser gente por esse corpo quente
Neste mundo cão repleto de ateus

Dizia-me Ela antes que comigo voou alto
Ela agora diz-me que já não sou actor
Mas um mero delator, que não voo, apenas salto
Agora diz que sou fogo sem asas, sem fulgor

Disse-me ela há pouco que já não há paixão
Nesse segundo saltei de longe
E já falta pouco para ver o chão.
651

A gana e a ânsia

Um homem tinha um lápis sem bico
Um lápis novo, mas ainda abstinente
Inteligentemente afiou-o com afinco
E ao terminar tinha um útil lápis pungente

Porém, antes de começar a sua arte
Olhou para a extremidade oposta, mais à frente
E pensou ter um acto coerente:
Afiá-la para ter afiada a outra parte

Afiou e tornou a afiar, sempre a mesma história:
Os bicos partiam-se sucessivamente
Incrédulo mas insistente continuou
Até que ficou só com a memória
do lápis anteriormente existente . . .
634

Vermelho cor de amor

Percorro a tua noite cor de fogo
À distância um pôr-do-sol imaculado
E eu como um louco desvairado
Pergunto se o amor é mesmo um jogo

A minha jugular poética faz sentir
O sonho de ter-te, minha liberdade
E eu nesta eterna negra saudade
Funda caverna impossível de escapulir

Então a paz me alcança de repente
És tu, meu fogo, força que perdi
Minha acendalha de ódio decrescente
Vermelho é o amor que sinto por ti !
706

Negro olhar

A brilhante escuridão do teu olhar
Energiza e ilumina a minha vida
Divino feixe de luz negro-luar
Cor de paixão a toques de violeta nutrida

és de tal modo misteriosa
Que conhecer-te é pura cartomância
Teu interior é uma secreta prosa
Revestido por pele de fina elegância

és de tal modo um livro fechado
Que é deveras impossível folhear-te
E a subtil inatingível tarefa de amar-te
Desafio pelos Deuses planeado

Esse teu negro e quente olhar
Leva-me à porta das trevas
Consome-me no teu desabrochar. . .
Quero entrar ! Quero que te atrevas !
595

Deus Verde - Vida

Comi um prato cheio de fome
Bebi um copo cheio de sede
E com a fome e sede de um titã fiquei

Mas essa fome e essa sede
Não era de conduto, ou de água, mas de verde
De um verde que eu sempre amei

O verde das colinas, do mato agreste
O verde do caule da flor silvestre
O verde de todas as cores também

Um verde que já vi, mas nunca senti
Coloração que já mastiguei, mas nunca engoli
Cor que nunca vi na alma de alguém

Talvez numa rara e remota natureza
Onde o Homem não chegue, esteja a beleza
E a cor verde-vida, pertença de ninguém.
648

Arritmias

Meu coração tem uma arritmia acentuada
E nessa peculiar batida irregular
Toda a minha esperança fica prostrada
Diante da vontade de viver e continuar

Quando bate naquele ritmo certo
Vejo um futuro cómodo e garantido
Mas ao cessar o bombeamento repetido
Vem a excentricidade, aqui me liberto

Tal evento é um modo do meu coração
Por segundos chamar-me à razão
Dizer-me que estou vivo em contrapasso

Como tal, não vejo como um mal
Esta palpitação descontínua e anormal
Lembra-me apenas que o tempo é escasso.
681

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Nasci em Lisboa, na freguesia da Penha de França, a 18 de Junho de 1979. Adoro poesia, aquariofilia, pintura e escultura.

Recentemente escrevi o meu primeiro livro de poesia, intitulado ''Inexperiências'', pela Corpos Editora / World Art Friends

Poesia para mim é um acto quase fisiológico, no sentido de que se torna quase uma necessidade escrever. Muitos poemas vêm em sonhos, pelo que tenho um bloco e caneta ao lado da cama. Talvez nem sejam meus...talvez sejam de todos nós e eu simplesmente os apanhe...