David Lobo Cordeiro

David Lobo Cordeiro

n. 1979 PT PT

Nasci em Lisboa, na freguesia da Penha de França, a 18 de Junho de 1979. Adoro poesia, aquariofilia, pintura e escultura.Recentemente escrevi o meu primeiro livro de poesia, intitulado ''Inexperiências'', pela Corpos Editora / World Art Friends.

n. 1979-06-18, Lisboa, Penha de França

Perfil
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Virgem Maria Rita

Sabia tudo sobre mim
Fruto da brizomancia aplicada
Era eu o sonho e o escolhido para o fim
Da tal ''inocência imaculada''

A obcessão crescia como nunca antes
Perseguição cruel da harpia feroz
Então ouvi um silvo; era ela e sua voz
Lábios mel carnudos, olhos brilhantes

Expliquei-lhe então: ''que o amor
cresce em nós como uma flor,
e para isso é preciso uma semente
Entre a gente não houve calor,
e a raiz sem esse morno ardor
teria um fulgor decadente''


Dei-lhe um abraço, beijei-lhe a face e por fim
disse-lhe que não desistisse de outro amor assim.
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Biografia
Nasci em Lisboa, na freguesia da Penha de França, a 18 de Junho de 1979. Adoro poesia, aquariofilia, pintura e escultura.

Recentemente escrevi o meu primeiro livro de poesia, intitulado ''Inexperiências'', pela Corpos Editora / World Art Friends

Poesia para mim é um acto quase fisiológico, no sentido de que se torna quase uma necessidade escrever. Muitos poemas vêm em sonhos, pelo que tenho um bloco e caneta ao lado da cama. Talvez nem sejam meus...talvez sejam de todos nós e eu simplesmente os apanhe...

Poemas

36

Tubo de ensaio

Perigosas almas supremas
Pairam no ar sobre nós
Troçam dos maiores teoremas
Silenciosamente, de olhar atroz

A Terra uma enorme incubadora
Experiência morosa, mas promissora
Testando a Humanidade de perto

A extinção dos grandes sáurios explicada
Foi a eficaz solução encontrada
Para a natureza seguir o rumo certo

Sei tudo isto porque sonho
Vi também um ser medonho
E nem Deus será capaz
De perdoar a tal satanás.
621

Deus Verde - Vida

Comi um prato cheio de fome
Bebi um copo cheio de sede
E com a fome e sede de um titã fiquei

Mas essa fome e essa sede
Não era de conduto, ou de água, mas de verde
De um verde que eu sempre amei

O verde das colinas, do mato agreste
O verde do caule da flor silvestre
O verde de todas as cores também

Um verde que já vi, mas nunca senti
Coloração que já mastiguei, mas nunca engoli
Cor que nunca vi na alma de alguém

Talvez numa rara e remota natureza
Onde o Homem não chegue, esteja a beleza
E a cor verde-vida, pertença de ninguém.
660

Insensitivo

Pergunto-me se sentir é indispensável a todo o ser
Se a dor é inevitável no acto de parir
Se a lágrima tem de cair num esgar a rir
Se a pena tem de vir com o lento retrato de morrer

Pergunto-me se o mundo seria perfeito
Se a saudade fosse ausente depois de anos de ausência
E se a mentira não fosse um direito
A essência da verdade não abria falência?

Será o mundo belo derivado ao amor?
Ou será bom o amor apenas por contraposição à dor?
Haverá saudade sem o abraço da chegada?

Deixarão todos os pássaros de trinir
Deixará porventura o Homem de os ouvir
Se uns olhos cegos não colorissem a madrugada?

Se terminasse o reino do exprimir
Estar calado seria pura eloquência?
Seria o mundo uma eterna maledissência
Sem a arte, sem o toque, sem o sorrir?
649

A gana e a ânsia

Um homem tinha um lápis sem bico
Um lápis novo, mas ainda abstinente
Inteligentemente afiou-o com afinco
E ao terminar tinha um útil lápis pungente

Porém, antes de começar a sua arte
Olhou para a extremidade oposta, mais à frente
E pensou ter um acto coerente:
Afiá-la para ter afiada a outra parte

Afiou e tornou a afiar, sempre a mesma história:
Os bicos partiam-se sucessivamente
Incrédulo mas insistente continuou
Até que ficou só com a memória
do lápis anteriormente existente . . .
649

Impacto

Conheci-te. Foi como o colossal ''Big-Bang'' de onde
surgiu tudo, asteróides, planetas, sóis e meu sangue, agora frio e mudo...

Num dos planetas eu vivia, era um mundo de paixão sincera, as árvores brotavam alegria e o solo ouro. Cada palmo, cada quimera, fruto de um Sol que eu merecia. Sol tão quente, que nem parecia ser gente...

Mas um dia um Asteróide caiu e o meu planeta acabou, bebeu toda a minha terra de um só trago, tão rápido que nem desfrutou. Não precisava ser um mago para fazer tão simples magia: abraçava o meu Sol com tal energia, que pelo meu mundo se espalhava, o calor assim o cobria e o asteróide não entrava, simplesmente derretia !

Asteróides viessem, asteróides caissem, esses que me endoidecem... Que o teu odor e minha dor não me vissem nesta esfera ressequida.

Podias ser o anzol e eu um peixe cegueta numa água perdida. Mas neste poema tu és o Sol, o meu amor o planeta, o asteróide é a vida...
726

Maldiçaras

Que amanhã esteja um dia de inverno
E o céu vermelho-negro terror, cor do Inferno
Que chovam raios, trovões e coriscos
Que os peixes não mordam em seus iscos

Que todo o trigo padeça
E o pão deixe saudade
O canibalismo que aconteça
E o fim da amizade vos enlouqueça
Pondo termo à liberdade

Que ao sustento falte o tostão
Tormento de miséria vindo do Nada
E que a criança de fome desvairada
Lamba o pó que rasteja no chão

Que amanhã esteja um dia de inverno
O mar lívido, a outra cor do Inferno
Que defequem cobras, verdades e lagartos,
Do Fundo que trepem pestes, mentiras e ratos

Que reine a Ira e o Azar, num luto de almas sós
Da dor que nasça uma nova Grande Era
Num fim que o mar engula a terra
E o céu irado caia sobre vós !
648

Engodo

Num morremorrer cheio de ilusão
João compra a paz, vil tesouro
Dá o pão e o ás àquele cabrão
Alquimista que da morte faz ouro

Com a ânsia nos nervos camuflada
Vê-se com o garrote na veia
Então a ponta rompe, deslumbrada
Uma vida mais que então esperneia

E é naquela artéria já sem movimento
Sentença de uma sociedade empodrecida
O jovem rapaz vê um clarão, sente o vento
E eu daqui já sinto o cheiro a gente sem vida

Enterra-se um que nasceu defunto
E mais ninguém liga ao assunto.
686

Amor cerebral

Meu cérebro pertence-te, é teu
Ele oferece-te exclusividade
É assim desde o dia que absorveu
Tuas feromonas, pura amorosidade

A minha área tegmentar ventral
Idolatra teu corpo com avidez
E com sofreguidão animal
Anseia pelo teu corpo outra vez

Até que a área do núcleo caudado
Banha-me a futura expectativa
Terá a forca corda esquiva ?
Espera-me o enlace por ela esperado ?

O amor mata, o amor cura
E esse teu olhar de felina
Atira-me do premontório dopamina
Mergulho incessante de loucura !
648

O início da mudança

Hoje sou um homem alucinado
Que procura desesperado
Um sentido, uma guarida

O tempo passa e minha mente
Diz-me que o passado está presente
E o futuro ausente de minha vida

Procuro angustiado um rumo
Um contra-peso, um fio-de-prumo
Uma porta aberta, o fumo branco

Um novo dilema ou então uma bala perdida.
Prefiro a antecipada despedida
Que perder meu sorriso e seu encanto !
577

Dégradé Noir - Blanche

Ontem pensei morrer
E levar comigo toda a amargura do pós-ternura
Levar todo meu corpo, parte da minha alma e deixar a loucura
Transpôr o outro lado do anoitecer


Ontem pensei morrer
e deixar este mundo belo e imperfeito
Dar o último suspiro com um estranho trejeito
Ontem pensei no definitivo adormecer

E porque ontem pensei morrer
Hoje acordei cravado de gana
Hoje meu espírito intensamente emana
uma enorme vontade de viver

E porque quem vive, morre
quem morre, viverá
E nada melhor me ocorre
para viver de novo, já !
652

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