Lista de Poemas

Sereno povo

O povo anda seremo, sereníssimo
Concentrado na ''vidinha'' e miudezas
Enquanto o Governo se afunda em incertezas
Confiante na predilecção do Altíssimo

Será espécie de cobardia afoita
Ou descrente valentia acanhada ?
Será talvez a consciência que pernoita
No ''valium'' relento de vida nada

É que nem a sabedoria nem a juventude
Acaba com esta inquietude:

O povo mais antigo já nem protesta
Limita-se a calar, comer e ouvir a orquestra
Recordando a antiga glória, hoje vã

E se precisássemos hoje de Abril
Era preciso leitinho, o Facebook e antifebril
Para não constipar os meninos da mamã

Acorda povo, acabou a sesta
Acorda a revolta que a entranha manifesta !
Acorda para poder existir um amanhã !
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Impacto

Conheci-te. Foi como o colossal ''Big-Bang'' de onde
surgiu tudo, asteróides, planetas, sóis e meu sangue, agora frio e mudo...

Num dos planetas eu vivia, era um mundo de paixão sincera, as árvores brotavam alegria e o solo ouro. Cada palmo, cada quimera, fruto de um Sol que eu merecia. Sol tão quente, que nem parecia ser gente...

Mas um dia um Asteróide caiu e o meu planeta acabou, bebeu toda a minha terra de um só trago, tão rápido que nem desfrutou. Não precisava ser um mago para fazer tão simples magia: abraçava o meu Sol com tal energia, que pelo meu mundo se espalhava, o calor assim o cobria e o asteróide não entrava, simplesmente derretia !

Asteróides viessem, asteróides caissem, esses que me endoidecem... Que o teu odor e minha dor não me vissem nesta esfera ressequida.

Podias ser o anzol e eu um peixe cegueta numa água perdida. Mas neste poema tu és o Sol, o meu amor o planeta, o asteróide é a vida...
716

( sem título )

Nesta folha branca
Minh'alma perde-se em vida
Branco lembra pura
Pura lembra pele
Branca pele pura
Lembra-me teu corpo que perdura
Na minha mente tão confundida
que até a forma do poema
lembra tua cintura
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Desejo-te quando longe

Quero-te tanto não te tendo
Tendo-te tão pouco te quero
Não te tendo não me entendo
Ao ter-te não me tolero

Ao ter-te apenas pouco, te amo
Meros minutos . . . eternidades . . .
Logo cessam as vaidades
Quando partes, logo te chamo

Imploro aos ventos que apareças
E a prece ao ser ouvida
Sopra teu corpo, alegre promessa
Que terei depois da tua partida...
675

A morte da maldita

E de manhã de novo o sangue puro
O lacrimejar dos olhos ofuscados
A coragem não está e o dia escuro
Revela mil deuses ocupados

Na boca o bocejo interminável
Traça o duro rumo a ''Oriente''
Ficar parado é fatal, oxidável
E por agora o ''Norte'' está ausente

Na esquina o descuido espreita
Já longe a sombra roubada grita
Então o cérebro maravilhado se deleita
Com a inevitável morte da maldita

E de manhã de novo o sangue puro
E cada vez que ele abre os olhos há um muro
E de manhã de novo o sangue puro
E cada vez que ele abre os olhos é mais duro . . .
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Mar, vida que navego

Trago no peito um oceano de ondas quebradas
repleto de silvos feitos gaivotas embaciadas
por um céu-nevoeiro que se instalou no meu leito

As minhas mãos erguidas são como velas
Que se debatem frente ao vento, caravelas
Que avançam destemidas num mar desfeito

A mim já só me salva um novo mundo
Uma ténue brisa a roçar um céu fecundo
Uma terra de alvura oponente da clausura

Só paro quando vencer estas tormentas
Ó grande pélago apenas me acrescentas
com essa assaz voracidade mais bravura !
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Espécie anátema

O ambiente, infelizmente e incoerentemente
É assunto para cinco ricos e pouco mais
Até o oxigénio faltar lentamente
Nos pulmões dos humanos, animais

A floresta é diariamente cortada
A espécie hoje extinta, aponta outra ameaçada
Num desiquilíbrio perfeito e imoral

A nós mesmos fazemos mal
Ironia engraçada, charada fatal
Milhões de anos de evolução para nada

A Natureza lentamente morre
E a espécie anátema sem Ela
Extingue-se e Ela se voltar a ser bela
A suprema inversa ironia ocorre

Eu sou um homem também
Mas Deus está melhor sem mim, sem ninguém . . .
573

Maldiçaras

Que amanhã esteja um dia de inverno
E o céu vermelho-negro terror, cor do Inferno
Que chovam raios, trovões e coriscos
Que os peixes não mordam em seus iscos

Que todo o trigo padeça
E o pão deixe saudade
O canibalismo que aconteça
E o fim da amizade vos enlouqueça
Pondo termo à liberdade

Que ao sustento falte o tostão
Tormento de miséria vindo do Nada
E que a criança de fome desvairada
Lamba o pó que rasteja no chão

Que amanhã esteja um dia de inverno
O mar lívido, a outra cor do Inferno
Que defequem cobras, verdades e lagartos,
Do Fundo que trepem pestes, mentiras e ratos

Que reine a Ira e o Azar, num luto de almas sós
Da dor que nasça uma nova Grande Era
Num fim que o mar engula a terra
E o céu irado caia sobre vós !
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Fiat Lux

Serás tu a mais pura cor,
Essa que com seu esplendor
Esboça o Arco-Íris primeiro?

Ou serás a Lilith feroz
Que em vez de desatares meus nós
Ata-los com olhar interesseiro?

Será a paz, a grande busca, o espanto
Ou um vulto fugaz, luz fraca e fusca, desencanto?
Flatulência contida que me deixa inerte
Ou espirro nutrido que me liberte?

Serás o trigo que a terra rasga
E o vento que a pá esforça
Que retalha o grão, que o moe?

Não sei se és o fermento, minha força
Ou o pedaço de pão que me engasga
E o ombro do ser que o coze, que dói

Serás o dom de ver e ouvir
E o prazer que eu quero sentir ?
Serás tu um coma profundo
ou a razão de todo o meu mundo?
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Deus Natura

Deus é o mar que cria a chuva
E é a chuva que na terra cai
Suave solo molhado, água turva
Fonte por onde Deus sai

Há um ente que acredito :
A nossa Mãe Natureza
Essa eu tenho a certeza
Que tem um poder bendito

O próprio poder da vida
O ser que em mim se formou
Não uma força escondida
Aparte de quem eu sou

A Natureza é bela e antiga
Criada por um Deus de ninguém
Não remedeia o pecado e a mentira
Pois é apenas flor e a cor que o céu tem

O Homem o ambiente destrói, não percebe
Que Deus não faz, pede favores
Idolatrem os rios, o Sol e a neve !
Tirem dos jarros todas as flores !

Deus não tem face, tem faces
Nem tem cheiro, tem cheiros. . .
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Nasci em Lisboa, na freguesia da Penha de França, a 18 de Junho de 1979. Adoro poesia, aquariofilia, pintura e escultura.

Recentemente escrevi o meu primeiro livro de poesia, intitulado ''Inexperiências'', pela Corpos Editora / World Art Friends

Poesia para mim é um acto quase fisiológico, no sentido de que se torna quase uma necessidade escrever. Muitos poemas vêm em sonhos, pelo que tenho um bloco e caneta ao lado da cama. Talvez nem sejam meus...talvez sejam de todos nós e eu simplesmente os apanhe...