Lista de Poemas

A musa

Bebi nos teus flancos a loucura
Sabor a jovem nuvem de absinto
És o calor que a sonhar sinto,
A noite que à noite me procura

Quando ris, teus olhos param no tempo
De tão subtil teu corpo flutua
Pisas ao caminha o próprio vento
E tuas pegadas ficam, como na lua

Eternamente gravadas na minha mente
Facas cravadas que meu corpo não sente
Ainda está dormente daquela última vez
Que a tua língua humedeceu minha tez...

Cheiras a rocha que toca o mar,
E eu mar que marés-vivas inventa,
Somente para te abraçar,
com paixão cega, numa fúria lenta

Agora finje que nada leste
Ou que nada entendeste...
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Amor cerebral

Meu cérebro pertence-te, é teu
Ele oferece-te exclusividade
É assim desde o dia que absorveu
Tuas feromonas, pura amorosidade

A minha área tegmentar ventral
Idolatra teu corpo com avidez
E com sofreguidão animal
Anseia pelo teu corpo outra vez

Até que a área do núcleo caudado
Banha-me a futura expectativa
Terá a forca corda esquiva ?
Espera-me o enlace por ela esperado ?

O amor mata, o amor cura
E esse teu olhar de felina
Atira-me do premontório dopamina
Mergulho incessante de loucura !
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Insensitivo

Pergunto-me se sentir é indispensável a todo o ser
Se a dor é inevitável no acto de parir
Se a lágrima tem de cair num esgar a rir
Se a pena tem de vir com o lento retrato de morrer

Pergunto-me se o mundo seria perfeito
Se a saudade fosse ausente depois de anos de ausência
E se a mentira não fosse um direito
A essência da verdade não abria falência?

Será o mundo belo derivado ao amor?
Ou será bom o amor apenas por contraposição à dor?
Haverá saudade sem o abraço da chegada?

Deixarão todos os pássaros de trinir
Deixará porventura o Homem de os ouvir
Se uns olhos cegos não colorissem a madrugada?

Se terminasse o reino do exprimir
Estar calado seria pura eloquência?
Seria o mundo uma eterna maledissência
Sem a arte, sem o toque, sem o sorrir?
637

O biblioclasta

Não me rendo perante a escrita
Quanto mais vergar-me à memória
Entregar-me? Nem à Bíblia bendita
Nem à criação, nem a ti nem à História

Destruiria todas as rimas, todas as prosas
Todas as frases e pensamentos
Todas as mulheres escritas e as rosas
Criadas para tais carnais momentos

Não me vergo perante o teu Deus
Quanto mais vergar-me à poesia
Entregar-me ? Nem à noite nem ao dia
Nem ao mundo, nem aos céus, nem a Zeus !

O momento sublime que escolheria?
A lenta conflagração em Alexandria...
Ardia tudo em fogo lento:
O Homem e seu testamento !
568

Uma réstia

Eu amo-te tanto... Portanto
Um dia destes, porventura
Se deixares de amar-me com essa ternura
Se deixares de amar-me com esse encanto

Um rasgo nos céus de abrirá
E um manto de lágrimas cobrirá
Toda, toda a terra de pranto

Então o mundo incrédulo saberá
Que um outro amor não haverá
Com tal lucidez, com tal espanto

Então o mundo compreenderá
Que meu amor não cessará
Crescerá quem sabe outro tanto

Permanecerá, como tal
ávido de teu encanto...
605

Despertar

Um dia acordas e acordas também para o mundo
Sonhas em adulterar este tempo infecundo
Anseias por dar corpo à semente feita ideia

Primeiro debastes-te por sair da sonolência
Depois ficas viciado na coerância
Luz que não cega ou incendeia

Do imaginário partes para o objectivo
Do imaterial para algo efectivamente
E coerente ou incoerentemente
Cedes ao irreal, dás à luz o teu crivo

Tudo o que fora antes pensado, é processado
Do limitado profanas o limite
E o tal acto nunca antes imaginado
É subitamente alcançado, e rejubilas . . . admite !
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Nasci em Lisboa, na freguesia da Penha de França, a 18 de Junho de 1979. Adoro poesia, aquariofilia, pintura e escultura.

Recentemente escrevi o meu primeiro livro de poesia, intitulado ''Inexperiências'', pela Corpos Editora / World Art Friends

Poesia para mim é um acto quase fisiológico, no sentido de que se torna quase uma necessidade escrever. Muitos poemas vêm em sonhos, pelo que tenho um bloco e caneta ao lado da cama. Talvez nem sejam meus...talvez sejam de todos nós e eu simplesmente os apanhe...