dpesteves

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Nem tento

Há dias em que sucumbo
desperto morto, isolado por dentro
numa ilha entre a terra e mais terra
de alma esmagada
e não reconheço o gigante
esse sonâmbulo que me habita
enfrento os dias como castigo
uma rendição
nas mãos apoucadas
de anti-ansia
nada me existe
além da muda necessidade do amanhã
pergunto
qual deles serei detrás da cortina?
quando mais ninguém existe
quantos perdedores sou?
quantos humanos?
e porque devem ser todos
tão cegos
à janela da existência?
Nem o vento tardio
do beira-rio me refaz
deste sempiterno desistir
sem sombras nas folhas
que eram outrora regozijo
servindo de remédio
ao esquecimento
a morte deve ser
apenas um pouco mais
taciturna e infinita
que este negrume que levo dentro
até as palavras saem tristes
como de outro
pois a minha boia furou
em pleno mar violento
torno-me rígido
pálido
mantendo-me à tona
só flutuam os restos mais verdes
que devem nascer amanhã
porque hoje
este hoje tão pesado
sou um cadáver
sem história ou vontade
sou anomalia
tentando trepar à árvore do adeus
talvez lá encontre
a parte que me falta.
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Poemas

4

Amanhã é uma tumba demasiado apertada



o futuro do povo nada de concreto tem
único lugar-comum a morte
e por mais forte que voe o corvo
os filhos abandonarão o colostro pela aguardente
sublimando o amor em prol de deuses estetas
terminando assim por rebentar o crânio com uma bala barata
vendida na escola pública, pagina cinco
onde uma cruz continua a dar poder ao ditador
para eles tornarem a medicação mais castanha
e tu mulher, já não és digna de reclamar pela violação
tens um, dois, três amantes
com trombas de elefantes nas ilhargas
caninos sanguinários sugando-te a jugular
e procrias num mundo dentro da caixa de Pandora
onde só falta a esperança para cobrir
as tumbas a céu aberto, enormes jardins botânicos
perto das chapas finas crepitando ao sol
onde elas abortam como quem serve um jantar
mas eles voltam a meter crianças lá dentro
metem e metem até deixar de respirar
até a bola azul derreter para vermelho
e este futuro apodrece para aquele passado de fata morgana
num adeus límbico, um final cíclico
a morte!
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o cansaço dos pinguins

fleuma é o meu estado natural
já nada mexe o coração
nem a coreografia do sangue
abala a mole apoplética
igual a uma hipopatologia congénita  
estreita nas artérias
morta de saúde
essa fleuma é o lingoteiro dos poemas
cada estrofe um lingote
e peteco-lhe letras
onde não devia
quando não devia
dopando as palavras de sentido hiperbólico
doravante as fífias passarão no crivo
direto ao lixo ou à história
pois quando sujeito a caneta
rumo a esmo
por linhas e linhas sem fim
entre verbos adormecidos
beijando-me o rosto
daqueles que odeiam a existência
por não ser vegetariana.
66

Sou o interior do frasco de veneno

Corre a tinta
descrevendo espelhos no mar
ou
as lanças acutilantes do sol
ou
o voou em picado das borboletas
e mais um saco cheio de nada
só nenhum poeta
embarca na estrofe
desenhando a cascata de pus
de uma borbulha esmagada
ou
o amarelo de um escarro
ou
o vapor envolvente da urina
tão lírico
ou
os pelos chuvosos do sovaco
ou das virilhas
ou
a cor azulada das tripas
do cão atropelado
ou
a coleção de dentes pelo asfalto
ou
o sigilo do final do coito
entre o padre e o acólito
ou
entre pai e filho
avó e neto
ou
a calma de um caixão branco
de meio metro
ou
o sabor das lágrimas
Quem gasta letras com isso?
os poetas?
não
esses são rebanhos
com medo do lobo
acreditando serem o lobo

quanto a mim
Represento o ofício
de envenenador saturado
encaixando o pescoço entre os barrotes
e vivendo cabisbaixo
anulado
escrevo discursos para mudos
e teço vendas para cegos
pressionando as veias até estoirarem
com o peso das letras
esse é o meu eu poeta
pobre do mundo
que me tem como cancro
então
restam-me as leituras
e espero ser verdade
isso de que
cedo ou tarde
os grandes poetas
acabam se parecendo!
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pequeno almoço

São curiosas as vidas dos demais
parecem-me rampas
obstáculos
com que facilidade enxotam os pombos
e acendem um cigarro
e cospem para o chão
se colocam de frente para o sol
vestem calças vermelhas
sapatos sem meias
ou saias horrendas
uma categoria de estilo
fabricado em braile
existem até os menires
falando alto
como se a sua opinião contasse
ou interessasse
o certo 
é que de manhã
o odor a torrada propaga-e
unido ao perfume barato e vazio
criando uma nebulosidade morna
que ocupa todos os espaços
e permite às comadres discutirem de 
ex-maridos
unhas mal pintadas
faturas por pagar
sem pagar
ou o fulano de bigode com sopa
pensar na adolescente
que lhe come o dinheiro
e lhe rouba a razão
tem uma unha encravada
deve ir ao mecânico
e a mim, cheira-me a torrada
a calçada é trilho
para loiras de cabelo lambido
são de puta ou de juíza
a lei funciona com essa liberdade 
livres para a tal mania da roupa justa
em corpo de dinossauro
e como pode tão cedo esse tipo palitar os dentes?
a senhora tem os pés inchados
tantos mosquitos na vitrine 
e mesmo assim, 
a galega dá uma nata ao filho
também 
parece desnatado
e cheira a lota
vou comer a torrada.
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