298 - O MEU ORIGINAL
Preparo o meu original que embalo
E envio às editoras do país.
Porém, por fim, nenhuma delas quis,
Por sua conta e risco, publicá-lo.
Talvez o que compus sem intervalo
Tenha sido um equívoco infeliz.
E quando com talento não condiz
Eu devo simplesmente engavetá-lo.
Que me dissessem, mesmo com desdém,
O que nos versos meus os desagrada
E o que nos temas meus não lhes convém!
Porém, a indiferença delas brada:
"Não és poeta! Tu não és ninguém!
Todos os teus poemas não são nada!"
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 06/10/2020)
297 - CASTELO ESCURO
A Solidão da dor protege o peito
E foi portão, muralha, torre, muro.
Sem fundação, o meu castelo escuro
Já foi ao chão por ser de areia feito.
A Solidão com único proveito
Da sensação: julgar-me tão seguro.
Com a ilusão: ser rei do meu futuro
Em servidão o meu passado aceito.
Cada grilhão, sem a esperança acesa,
Foi meu então na cela de incerteza
E escuridão em que por fim me deito.
Faço prisão da minha fortaleza.
Na proteção eu torno a mente presa
Se à Solidão eu me fizer sujeito.
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 06/10/2020)
296 - SOU DA ESTRADA
Estou de pé! Levanta-me a sagrada
E grande fé que, neste meu caminho,
Eu ande até não mais andar sozinho.
Sou quem não é daqui; eu sou da estrada.
Eu ontem vim depois que todo e cada
Lugar ruim de povo tão mesquinho
Tirou de mim a força e já definho
Antes do fim da minha caminhada.
Vou bem com quem chegou e enfim me ergueu.
Sou quem já vem de longe e logo vai.
Ninguém detém meus pés no passo meu.
Sou quem não tem amigo, mãe ou pai!
Porém, não sem a fé que Deus me deu
De quem vai bem além depois que cai.
(Aitor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 06/10/2020)
295 - COMO O CÃO
A Solidão seguiu-me fielmente
Em sujeição ao dono que a governa.
É como o cão que tem em cada perna
A proteção tenaz, audaz, valente.
A Solidão fareja bem e sente
Voraz leão faminto e mau que hiberna
No coração (a escura cova interna),
À qual paixão chegou bem de repente.
Até clarão do dia da esperança,
Não saberão do leito em que descansa
Este ermitão na alcova em que me deito.
Se a fera então em mim jamais avança,
E dorme tão furtivamente mansa,
A Solidão do mal protege o peito.
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 06/10/2020)
294 – SOLIDÃO LEAL, FIEL
A solidão é tão leal, fiel,
Sem sua mão seria bem pior.
Na negridão dos céus ao meu redor
Seus versos são escritos sem papel.
A solidão converte o mal em mel.
Dancei no chão até verter suor
Com a canção que canto e sei de cor:
Silencio são que soa tão cruel.
Que a solidão me siga a cada dia
Se a multidão me for indiferente,
Se o coração temer aquela gente.
Na maldição da mente mais sombria
Embora eu não lhe peça companhia
Seu vulto vão me segue eternamente.
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 05/10/2020)
293 – CÁRCERE PRIVADO
O cárcere privado em que me escondo
Tem sido a solidão em que me prendo,
Cadeia em que não me estivesse vendo
Enquanto lá eu me estivesse expondo.
Lá: cela em que o silêncio faz estrondo,
Prisão de escuridão que não acendo,
Masmorra fria de pavor tremendo,
E calabouço reles e hediondo.
Não verei nem o sol quadrado e lindo
E nem me tocará seu raio brando
Enquanto lá eu me estiver punindo.
De lá serei liberto – não sei quando.
Porém, enquanto eu me sentir bem vindo
Lá dentro eu sempre me estarei trancando.
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 05/10/2020)
292 - SOU E ÉS
Sou árvores, tu és as ventanias;
Sou pássaros, tu és as minhas asas;
Sou peixes, és melhor que as águas rasas;
Sou barcos, és as ondas tão bravias;
Sou sombras, és o sol dos novos dias;
Sou palhas, és o fogo e já me abrasas;
Sou intempéries, és as belas casas;
Sou pedras, és cinzéis se me esculpias;
Sou rio aos afluentes, és a foz;
Sou terras litorâneas, és marés;
Sou, línguas, dentes, lábios: és a voz;
Sou dunas dos desertos, és os pés;
Sou para ti por mim, tu és por nós;
Sou teu em ti por fim, tu és quem és.
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito para a minha esposa Ingrid da Rosa Rodrigues Oliveira em 06/10/2020)
291 - MÃE DAS FAVELAS
Ó, mãe, tão duro pelo pão trabalhas
E à noite enfim retornas às favelas.
Não queres que o teu filho goste delas
Ou que do crime viva das migalhas.
Nos becos recomeçam as batalhas.
Tu trancas toscas portas e janelas
E, como sempre, apenas o interpelas
Sobre o dia mas não responde e ralhas.
Há almas miseráveis, tão aflitas,
Em cujas faces foram já escritas
Angústias com a lama deste mangue.
Ó, mãe, de desespero agora gritas:
Sob os barracos sobre palafitas
Há lixo, esgoto, o corpo dele e sangue!
(Autor: Eden Santos Oliveira. Escrito em 05/10/2020)
230 - POETA ANÓNIMO
Ó, quem me dera fosse enfim poeta,
Desses com livro publicado e fama,
Que, na noite de autógrafos, declama
Do seu poema a parte predileta.
Mas, mesmo com a pena tão completa,
Cá sobre mim ainda se derrama
Do anonimato a pegajosa lama
E tudo o que componho se engaveta.
Poetas e leitores deste mundo
Vão todos logo ao túmulo profundo.
Por fim, ninguém se importará com isto.
Ó que me baste então que o Deus eterno
Conheça, neste mísero caderno,
Os versos meus que provam que eu existo.
(Escrito em 04/10/2020)
290 - SUTIL PROFUNDIDADE
Em mim agora irrompe a tempestade:
Relâmpago há nos olhos quando estronda
Trovão cá nesta boca mais redonda.
Um mar de lágrimas também me invade.
Então, não mais importa o quanto nade
Porque me traga sempre a reles onda.
Que o vórtice de angústia só me esconda
Na minha mais sutil profundidade.
E enquanto a vida ainda não avança
Eu já me engulo e logo me avolumo:
Não quero vir à tona na bonança.
Prefiro as profundezas em que sumo,
A agonizar com sede n'água mansa,
Sem velas e sem remos e sem rumo.
(Escrito em 01/10/2020)