Se o mundo já não fosse assim, esculpido Para as retinas curiosas das crianças, Sobrar-nos-ia encontrar paisagens Na desolação dos viciados da praça. Quanta arte há na granulometria Dos sais que abandonam o corpo humano No sinal da primeira inconformidade? Tanto faz. Para o inferno com os artistas. Tragam-me a ciência e amarrem-na Junto à cômoda onde guardo papéis Rabiscado com versos como este.
202
02/11/2023
Bocejos e começos de algo que não sei o que será ao certo.
Minha cabeça dói por tentar comportar tamanha estultice.
Desprezo-me, e o faço em silêncio. cúmplice do próprio engodo.
Por que amar-me é matéria de tanto esforço cognitivo?
Serei eternamente a criança que busca uma pulsão de vida?
Quem sabe à noite, na anistia do sono, eu descubra o porquê,
apenas para acordar renovado pelas dores de um novo esquecer.
O pior foi evitado e o cárcere extinto. Não graças a mim.
Sequer estendi a mão para saudar a sua, que deu-me a vida.
Não olhei tuas cartas, mal beijei seus lábios, encerrei sem anunciar.
Acontece que, finado, não pude continuar a dor do fingimento.
E o poeta, bem sabes, é apenas uma sombra de cada verso. Inverso.
216
01/11/2023
Uma manhã feita de alegrias perecíveis. Ideias que permanecem na cama enquanto o corpo, exausto, levanta.
Uma tarde feita de razões inconcebíveis. Esquecer-se de olhar para quem chama e, no opróbrio, tornar-se planta.
Uma noite feita de feitos risíveis. Invisíveis como tudo que inflama das fantasias que o sono decanta.
221
31/10/2023
Minha pele tornou-se vermelha naquele local em que me tocaste por impulso e convenção. Manchas vermelhas e presentes da memória, as únicas coisas que flutuam no éter do raciocínio. Espalham-se em mim, como células cancerígenas. Talvez realmente o sejam, mas que posso fazer? Tudo que sei é que, até o momento, tenho sido um aracnídeo. Escalando as muralhas de um passado inexistente para descobrir-se preso nas teias de um futuro falso. O que me resta é somente a mancha vermelha no braço, estigma dos sorrisos cordiais e impróprios. Há algo mais obsceno que a condescendência? O olhar inocente e trôpego de quem busca conhecer aquele fogo-fátuo no centro do bosque. Perseguir ilusões. Nada mais que guiar-me pelas teclas brancas do seu sorriso... nada mais que afundar meu pé na lama espessa ao tentar imitar a leveza em teu caminhar.... nada mais que ouvir o arfar da sua excitação direcionado para qualquer coisa fora de mim. Não minta. Seja completamente verdadeira. No fundo, seu gênio ultrapassa uma mancha vermelha crescendo na periferia do meu braço. Mais que um objeto. Mais que paixão, doença ou tédio. Uma pessoa. O que nos dá o direto de sermos pessoas? Todos esses ritos de transporte e culpa. A irregularidade do quadro em nossos quartos. O ritmo das máquinas e das batidas do pé. Tudo isso é apenas um ensaio, não há plateia, diretor ou palco que o sustente. Risco meu nome do roteiro e abandono meu corpo para que a mancha vermelha tome o meu lugar. Dessa vez, sendo mais que mero elemento.
266
31/10/2023
Encara-me com tua presunção e deixe-me contorná-la. Acenos de cabeça e cordas amarradas no cotidiano. Sinto tudo enquanto sonho, como a morte de um inseto esmagado pelos dedos de outras presunções. Deixe-me no sarcófago, conjecturando sobre a fumaça que carrega toda essa gente, apressada para sabe-se o que, cegas para tudo que há por vir. Devir. Deixar. Derrapar e capotar na ribanceira. Antes de cair e morrer, relembrar aquelas vozes que afirmavam: "burro, burro, burro". Olhem para este burro, vejam se não é um belíssimo exemplar do espécime. Confuso, cansado, corrompido pelas agruras do toque entre lábios nunca desejados. Não há mais tempo algum, e isso é maravilhoso. A pelugem da morte em epiderme... espalha meus pensamentos sobre a lataria amassada e o diesel, serpenteado, pelo chão.
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O mensageiro da alegria
Há dias em que imagino a terra colidindo com Jupiter. Prédios, livros, mentes, corações, mortos, vivos, oceanos, céus, poesia, trânsito, trabalho, ciência, filosofia, camiseta, raios, eu, você e nossos egos. Toda a arrogância despedaçando-se em uma tempestade vermelha centenas de vezes maior do que tudo que conhecemos. Veja se há qualquer subjetividade em compor o óleo sobre tela de uma atmosfera intransponível. Jupiter... extinguiste a mansarda por onde olhava-se o topo do átomo e dizia-se: ali está o universo. E o pior de tudo, nada mudou. "Sem ti correrá tudo sem ti". Há outros, ainda maiores. Há infinitas insignificâncias em um mar de bactérias confusas. Óh, Álvaro de Campos. Acuda-me. Já não posso suportar Jupiter cada vez mais perto. Espante-o.
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Gramática
As casas. Deixar a casa arrumada e o mundo submerso em caos. Os sonhos. Esquartejar o delírio para vivê-lo parceladamente. As mulheres. Amar como quem verte o sangue da própria hemorragia. Os homens. Ver a infantilidade deteriorando as bordas da gravata. Os sábados. Cronometrar a alegria que nunca foi, de fato, alegria As segundas. Beijar a imagem santa no templo da previsibilidade. Os olhares. Escolher algum desejo no burocrático catálogo da volúpia. Calipígia. Grito. Vulto. Pedras. Sol. Azul. Verde. Culpa. Morte. Peito. Tum, tum, tum. Carros. Tum, tum, tum. Tiros. Tum, tum, tum. Aplausos. Tum, tum...
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22/10/2023
Tenho acumulado tentativas com a teimosia de um parvo. Deixado para a última hora o que já não podia esperar. Gargalhado sobre as migalhas de uma tristeza convalescente. Decifrado todos os livros pelo aceno vulgar da capa.
Encaram-me com confusão, como se lessem um prefácio e, atônitos, estimassem tratar-se de outro livro qualquer. Outrem. Pois saibam que nem mesmo o bruxulear da consciência alheia é capaz de emitir luz que encontre a saída para o labirinto falado em que tranquei-me, jogando fora a chave, o mapa e a convenção.
Deem-me por morto e hasteiem a bandeira negra do dia passado. Encarem-me, mas suspirem, como se experimentassem saudades. Assustem-se com a sombra que remete ao corpo um dia existente. Deixem-me assim, a sete palmos de todo esse fingimento protocolar. Mas quando eu chego no ofício... mas quando eu bebo o santo licor de toda essa indiferença de nuvens opacas... mas quando vejo-me na tela sem ver-me além da verossimilhança... posso jurar ser verdadeiro. Morbidamente verdadeiro.