Lista de Poemas
UMA PONTE PARA O HORIZONTE

Sem uma nuvem sequer
Numa efêmera abóbada ilusória
Feito um abstrato sentimento
Beleza sutil e admirável
Que a gente não se cansa de olhar
Em busca de uma (também ilusória) ponte
Que nos leve ao (inalcançável) horizonte
A claridade refletida no azul
Límpida, sem sombra nenhuma
Empresta ao dia uma plenitude
Digna dos contos de fadas
Corre o riacho mansamente
Sem pressa de chegar
Por saber que o mar
Está a lhe esperar
Gestam seus frutos que virão
Na certa estação, as árvores
Também sem pressa nenhuma
Por saberem que o tempo virá
Toda a efemeridade concreta
Faz da vida, poesia
Pronta a ser vivida
E lida assim, num simples dia
O azul absurdo do céu de maio
Se despede majestoso
Encantado e encantando
Feito um abstrato e tão concreto sentimento
(Nane - 29/05/2015)
PORTAL DE LIMIARES

Nas trevas do meu desassossego
Procuro em vão pelo alívio
Da morte que me rejeita
Vocifero todas as heresias
Batendo na porta do umbral
Limiar do inferno e do céu
Nas minhas entranhas decompostas
As palavras abortam em minha boca
Feito feto cuspido na latrina
Ensanguentando meu karma
Destituído de qualquer missão
Pesa-me nas costas o preto velho
Agarrado feito filhote indesejado
Nos anos que se arrastam nas trevas
Do que seria a minha vida
Os remédios condutores do sono
Postados inertes na prateleira
Como um convite do abrir da porta
Do umbral limiar do meu inferno ou do meu céu
O cansaço tomou conta de mim
Nas trevas do meu desassossego
Procuro em vão pelo alívio
Da morte que me rejeita
(Nane-20/05/2015)
AVE MARIA CHEIA DE GRAÇA

Mãe de Deus
Me disseram um dia
Que de tanto eu pedir
Me atenderias
Me ensinaram a rezar
O terço Mariano
Na hora do Ângelus
Insistindo no pedido
Que eu tanto queria
Pedi, pedi e pedi
Numa ladainha incessante
Que a Santa Maria não ouviu
Por estar muito ocupada
Com outros pedidos bem rezados
Danou-se e me ferrei
O terço está guardado
Se bem que nunca o ganhei
E o fiz de feijões estragados
Sem força nas orações
Ainda hoje eu peço
Sem terço e sem fé
Me perco nas ladainhas
E esqueço da fala vindoura
Ou da conta a seguir
Ave Maria
Cheia de graça
Agora só o que peço
Me deixa dormir sossegada
(Nane-23/05/2015)
VINGANÇA ARTICULADA

Que pretensão a minha
Acreditar no amor
Fruto de uma mentira
Semente de uma verdade
Que ingenuidade a minha
Não perceber que a vingança
Se camuflou de sentimento
E mais do que a mentira, enganou
Que fragilidade a minha
Ao me deixar envolver
No visgo pernicioso
Que sufoca e faz doer
Que tristeza a minha
Não conseguir me desvencilhar
Não deixar de amar
Quem de mim só quis zombar
Que loucura a minha
Desse jeito me entregar
E ver passar a vida
Sem conseguir nada mudar
Que vingança a sua
Pensada, pausada e articulada
Com toda a maestria
De um mestre vingador
Que triunfo o seu
Que no mais vil dos sentimentos
Conseguiu matar em mim
A vontade de viver
(Nane-25/05/2015)
*ARTE DE: ISABEL PADRÃO
TÍTULO; A VINGANÇA SERVE-SE FRIA - 2011
PLATÔNICA DEMÊNCIA

Insisto em te procurar
Nas molduras do infinito
Linear do céu com o mar
O horizonte me oferece
Teu rosto no crepúsculo
Enquanto a alvorada
Traz tua voz no canto da passarada
Demência ou paixão
Loucura ou razão
Pouco importa
É só o meu jeito de ter você
Na noite e no dia
Em tempo integral
O pensamento é meu
E nele mando eu
Você tão distante
Ainda mora em mim
Mesmo não querendo
É teu meu coração
Platonicamente eu digo
Que poeta nunca fui
Mas o amor, esse demente
Me fez enlouquecer...e te escrever
Que importa o toque
Se teu cheiro está em mim
Que importa se não me amas
Se o meu amor esta em ti
(Nane-22/05/2015)
ESPERANDO

Ainda te quero
Com a mesma força da paixão
Avassaladora de um temporal
E com a brandura do carinho
De uma brisa no litoral
Ainda sonho
Com as quimeras vividas
Na ilusão da perfeição
Do encontro de nós dois
Num instante de magia
Ainda espero
A maré trazer nas ondas
De seu eterno ir e vir
O amor que se dispersou
À deriva na correnteza
Ainda escrevo
Todo dia para você
Mesmo sabendo que não lê
Mas com a certeza de saber
Que é só por você que continuo a escrever
Ainda espalho
Palavras pelo ar
Na esperança que o vento as soprem
De encontro aos seus ouvidos
Para que por mais um só instante
Você volte a me amar
Ainda...
(Nane-04/05/2015)
JOGADA AO VENTO

Dos meus próprios devaneios
Transformando-os em esperanças vazias
De quem já não pensa em nada
Foram-se as quimeras
E os sonhos da imaginação
Sobrou o vazio de uma mente oca
Sem mais nenhuma expectativa
Num solo estéril
Semeei a podridão
De grãos infecundos
Jogados ao léu
A frieza do nada me envolve
E nada mais faz sentido
Homens e mulheres
Crianças e velhos
Só o vazio me preenche
De um nada sem importância
O que será ou o que virá
Não faz mais diferença
De bom, dentro de mim
Resta pouco ou quase nada
Os sonhos fundiram-se aos pesadelos
E as noites aos dias
O bem e o mal são tão efêmeros
Como a vida e a morte
E essa maldita dualidade
Me faz ser quem não sou
Talvez amanhã eu esteja eufórica
E escreva palavras bonitas
Talvez amanhã eu nem acorde
E durma o meu sono derradeiro
Na minha loucura me perdi
E por que cargas d'águas não consigo
Preencher esse vazio que restou
E fez de mim...nada
(Nane-14/05/2015)
FANTASMAS DA MADRUGADA
É sempre na calada da noite
Que sobrevoam sobre mim
Os fantasmas insinuantes
Bailando nas sombras
De encontro à fosca luz
Que transpassa na cortina
Esvoaçante...
Suas vozes melancólicas
Incompreensíveis para mim
Incomodam o meu sono
Conturbado e confuso
Já me acostumei a eles
E o medo, em mim, não faz morada
Perturbam minha mente delirante
Moldando sempre uma só imagem
Do rosto que zombou de mim
Com gargalhadas escancaradas
Aos gritos de 'iludida'
Por ter acreditado no amor
Insone, viro e reviro
Tentando não ver
O rosto que quero esquecer
E meus fantasmas não deixam
Estuprando meu cérebro com imagens
E vozes incompreensíveis
As luzes da cidade logo se apagarão
E a aurora anunciará um novo dia
Descansarei enfim, na labuta diária
Dos teus olhos frios que me olham
Moldados pelos fantasmas que me rondam
Todas as madrugadas...
(Nane-18/05/2015)
FELIZ DE QUEM DEU MILHO AOS POMBOS

Afunde seu derrière no sofá macio
Ajeite suas costas na fofa almofada
Conecte-se com o mundo lá fora
Enquanto passa indolente a sua vida
Feliz de quem deu milho aos pombos
Posto que viram os pombos em bandos
E ouviram seu revoar ao saciarem a fome
E viram o poeta fazer disso, canção
Agora, tudo isso acontecendo
E você aí...afundado num sofá
Teclando no seu celular
Conectado ao mundo inteiro
Protestando contra o sistema
Dos coxinhas e dos truculentos
Entre foices e martelos
Sem sair do seu lugar
Feliz de quem deu milho aos pombos
E viu que eles são reais
Hoje você voa tão alto quanto eles
No seu mundo virtual
Grita bem alto em seu perfil
Esse seu jeito de herói varonil
Enquanto do seu lado o silêncio
Afasta todos os seus amigos
Afunde seu derrière no sofá macio
E deixa morrer de fome os pombos na praça
Enquanto os tiros dos canhões disparados
Atingem seu alvo real
(Nane-19/05/2015)
VÍSCERAS MISTURADAS

No meu desespero
Que grita teu nome
No meu silêncio
Dentro de mim
Se fez tsunami
Sacolejando meus órgãos
Misturados e sem lugar
Esvaindo o sangue
Jorrado em lágrimas
Salgadas e adocicadas
Com cheiro nauseabundo
O pulmão enegrecido
Comprimindo o coração
Perdidos no fog da fumaça
Do cigarro companheiro
Bate nas costas e cabeça
Não sei se cérebro ou coração
Só sinto o pulsar insano
Da saudade do teu corpo
Rasgo com minhas unhas a minha pele
Na esperança de ver aliviar
A pressão dessa dor que me consome
E fugir da tua opressão
O peito já não sangra mais
Na cirurgia da triste poesia
Só não sei o que deve ser extirpado
Pra tirar você de mim
Onde está meu coração
Nessa arritmia dos meus órgãos
Atrás da penumbra dos pulmões
Ou no cérebro ensandecido
Pouco importa isso agora
Sou retalho do que fui
Exposta e a venda na xepa
Dos mortos vivos por amor
(Nane-11/05/2015)
*ARTE: Espuma, latex e acrílica s/ papel de:
Bárbara Avelino
Comentários (1)
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