Lista de Poemas

INTRÍNSECA

INTRÍNSECA

A febre intermitente
Não vai, não fica
Frita meus neurônios
Cozinha minhas ideias
As vísceras, essas
Sarapatéis baianos
Prontas à serem devoradas
Pelos corvos de Allan Poe
Intrinsecamente revirada
Sinto o enjoo da ressaca
Jogada no mar revolto
Da minha própria enseada
Levada de encontro à pedra
Deixada deitada na areia
Vomitando disparidades
Dos pensamentos fritados
Lavas de fel abrandadas pelo mel
Mareando o estômago cozido
E queres que eu escreva o que
Além dessas minhas mazelas
Um fio tênue separando
Realidade e devaneio
Embriagados num mesmo espaço
Do cérebro viciado
Sirvo-me aos corvos de Allan Poe
Expondo meu corpo à milanesa
Extenuado e sem preconceito
Para que me comam e devorem
Antes que eu mesma me refaça
E deles me sirva
Comendo-os vivos e empenados
Quando a febre for embora (de vez)
(Nane-19/05/2015)

310

RODA TUA BAIANA SALVADOR




Salvador, Salvador
O que é feito de ti
És filha do grande Criador
E teu nome te conduz
Cidade de puro sincretismo
Respira por teus becos e vielas
Tuas ruas e avenidas
Todas irmanadas religiões
Salvador, Salvador
Porque fostes castigada
Com tanta severidade
E tantas vidas perdidas
Que fizestes Salvador
Teu povo é só amor
Foi aviso da mãe natureza
Para cuidar da tua beleza
Ah Salvador...
Que teu povo seja confortado
Por todos os Santos que em ti moram
E que sejam (também) por eles ensinados
Que teus dirigentes se orientem
No respeito ao meio ambiente
E te reestruturem com o mesmo fervor
Dos fiéis filhos de São Salvador
(Nane-20/05/2015)

283

LAPSOS DE MEMÓRIAS


Olhando um nada tão distante
Procuro por um só ponto
Que me traga de volta
As lembranças de mim.
Um vazio tão cheio
Circunda meu ser
Perdido num nada
Vagando sem esteios
Feito alma penada
Em meio à pessoas
Tão ansiosas como eu
E desconhecidas.
Já fui alguém
Que amou e foi amado
E que agora apagou da memória
Toda a sua história.
A infância perdida
Embora vivida
Guardada em algum lugar
Que não na memória
Ativa em mim.
A mocidade com amigos
Quem sabe, com amantes
Ou mesmo, amores
Também escondida
Num canto qualquer
Da falha memória.
O espelho me diz
Que meu tempo se acaba
Na curva descendente
Do semblante envelhecido
E das mãos enrugadas
Pela maturação presente
E a memória ausente.
Lapsos incandescentes
Feito estrelas cadentes
Passam e deixam rastros
Dizendo ser aquelas pessoas
Quem dizem que são
Na minha vida vazia
E sem raiz nenhuma.
Demência ou loucura
Sumiu meu legado
Ainda em vida...
(Nane-28/04/2015)

302

PORQUÊS


Há tantos porquês

E tão cheios de regras

Com e sem acentos

Em começos e fins

Que já nem sei do certo

Nem tão pouco do errado

Será você o certo

No acento circunflexo

Ou errado no junto

Que julguei separado

E por isso tirei o chapéu

No final da linha

Entre tantos porquês

Perguntei a mim mesma

Por que será

O porquê de não mais ter

O porquê da minha vida

Perdido em meus porquês...

(Nane-09/05/2015)

690

RAZÃO DE MERDA NENHUMA


Dá-me a tua razão
E te mando a merda
Razão nenhuma interessa
Quando a vida se dispersa
Do alto da minha razão
Deflorei a árvore inteira
Deixando nua as aves abrigadas
E os frutos apodrecidos
O frio e o calor
Queimaram todas as folhas
E o outono se fez inverno
Sem primavera ou verão
Razão nenhuma me faz santa
Até por estar mais para a puta
Cospe meus pecados escancarados
A face deliciosamente satisfeita
Encrua meu semblante taciturno
Em meu corpo inexplorado
Pelo toque do pecado original
Que abranda e faz brilhar a tez
Razão de merda nenhuma
Quero a culpa da libido
Aflorada pelo fogo
Queimando a razão
Viver o sonho dos ilícitos
Nas quimeras da minha própria fronte
Sem sentir o ardor do fogo
No toque real da pele
Razão de merda nenhuma
Quando o abrir dos olhos
Revelam no reflexo do espelho
A vida passada e não vivida
Resta então dizer a sua imagem
Que o tempo não volta atras
Passou, perdeu, não viveu
Azar o seu...
(Nane-01/05/2015)

314

FELIZ DIA DAS MÃES


É o dia hoje
Amanhã não mais
O mundo me toma
E eu me jogo de cabeça nele
A merda toda
É ver meu filho
Fazendo o mesmo
E me deixando de lado
Choram os filhos
Que já não têm mães
Presentes olhados
Nos shoppings não comprados
Choram as mães
Que não ganham presentes
Por não terem os filhos
Presentes partidos
Hoje é o dia
Das mães comerciais
Em doze vezes facilitadas
As prestações creditadas
Filho de meu ventre
Filho de minha alma
Se sou mãe de um dia
Não sou mãe sua
No dia das mães
Sou filha fundida
No ser e no estar
Do antes e o depois
E se bem isso faz
Que seja feliz
Esse dia infeliz
De um só dia
(Nane-09/05/2015)

293

O PEQUENO CONTADOR DE ESTÓRIAS


Hoje me dispus a observar
A esperteza e a malemolência
Do pequeno 'grande' Fred
No seu mundo de imaginação
Deu-me de presente algumas pedras
E me disse para guardá-las
Pois as trouxera de muito longe
Apenas para me ofertar
Sorrindo, as guardei nas mãos
Mas ele não se contentou
Disse que eu as pusesse na gaveta
Que era mais seguro
Assim fingi que fiz
E ele se foi para novas estrepolias
Mais tarde, veio me dizer
Que viu um helicóptero vermelho
Sobrevoando nossa horta
Jogando nela sementes
E que agora vai nascer
Muitas verduras fresquinhas
Vindas do céu para a gente plantar
E comer no jantar
Surpreendi-o falando sozinho
Sentado num cantinho do quintal
Ele então me apresentou
Seu amigo invisível
Nome não tinha
Era apenas o 'amigo'
Que quando se cansou
Despediu-se e saiu
A noite 'acordou'
E a gente precisa ir dormir
Um banho quentinho ele tomou
E começou a cochilar
Antes de adormecer
Me disse bem baixinho
'Vovó, guarda bem o seu presente
Que são pedrinhas de estorinhas'
Ajeitei-o na caminha
E corri lá no quintal
Juntei algumas pedras
E guardei-as na gaveta.
(Nane- 03/05/2015)

315

POESIA ATEMPORAL


Escrevo de um tempo
Sem mais tempo
Quando todo o nosso tempo
Era o tempo de nós dois
Busco um tempo
No tempo que tenho
O tempo ido
Por tanto tempo perdido
Já não tenho o tempo
Que tive em outro tempo
Quando o tempo de bonança
Fazia poesia do tempo
É tempo do adeus
Ao tempo do amor
E sem ele não vale o tempo
Dessa vida sem tempo
Nesse espaço de tempo
Meu tempo tem muito espaço
Para relembrar do tempo
Que o tempo apagou
E o seu tempo se espalhou
No vento que o tempo trouxe
Meu tempo se perdeu
E no tempo...parou
(Nane-04/05/2015)

353

VELHAS CRIANÇAS RANZINZAS


O grande Criador ordenou:
Honrarás teu pai e tua mãe

Seja como for
Honrarás teus progenitores
Velhas crianças ranzinzas
Teimosas e sem medidas
Por saberem que são pais
Dos pais virados agora
Ah, por vezes falta a paciência
Mas fala mais alto o sangue
E ruge a 'mãe' da mãe por sua cria
De outras estratosferas
Sobe a ira ao ver na TV
Maus-tratos de filhos ou de terceiros
Que fazem com a criança velha
Indefesa e sem esperança
O físico e o psicológico
Já tão penalizado
Pelo tempo e pela estrada
Estampado no olhar anuviado
A tristeza contida
No corpo limitado
Aguarda com dignidade
A liberdade da alma
O grande Criador ordenou:
Honrarás teu pai e tua mãe

E um filho da puta (que também é mãe) qualquer
Ignora e não cumpre
(Nane-15/05/2015)
*Arte de Ivan Gomes

352

LATENTE LOUCURA


Ferem-me os sentidos
Revividos num instante
De sanidade latente
Acabrunhada...
Doce loucura
Que me priva do verossímil
Conduzindo mi'alma
Sem amarras ou grades
Viajante espectro
Livre de acepção
Mergulhando em rios
Correndo pros mares
A culpa destoa
Da santa loucura
Quando emerge do nada
A mais (ainda) louca sanidade
Ferrolhos trancafiados
Pesando na alma
Aflita que vaga
Encarcerada no corpo
Sou meio e tudo
De um inteiro partido
Na luta perdida
Do certo e o errado
Vago na minha sanidade
Contida em meus desejos
Enquanto na minha loucura
Vivo o meu bem querer
(Nane-16/05/2015)

328

Comentários (1)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
joaoeuzebio

A VIDA INCERTEZAS E A ESPREITA DE NOSSOS DESEJOS BELO POEMAS UM ABRAÇO

© 2026 Escritas