Lista de Poemas

Poesia II



Janela entreaberta no instante ,

flash do momento ,

rompe de improviso

flui absorvente

ocupa o pensamento.

Perene e viva

joga na essência das palavras

poder das emoções,

dos sentimentos dos ódios

das mágoas,

dos amores das desilusões.

Atravessa tempos

continentes gerações

num mundo sem servidões

sem tropas armas canhões.

Constrói uma teia,

avessa a multidões

abraça o sonho a magia

a imaginação e toca-nos docemente

na vida de cada dia.

Emílio Casanova, in "Coisas do Coração"
583

De mim





Tive uma avó como toda a gente,

uma bisavó como ninguém

tinha saias até ao chão,

cheirava rapé,

nasceu no século desanove

e não tinha vintém.

Ensinou-me a acreditar

que deus não existe,

os santos também não,

que o diabo atenta,

e que fátima só

acredita o cristão.

Pediu-me pra
não roubar,

pra não matar,

pra não maldizer,

e nunca humanos, animais e plantas

desconsiderar.

Abriu-me portas de catedrais

palácios de conviver,

deu-me asas de longo alcance,

visão de pássaros urbanos,

iluminou-me os vales do saber,

contando-me histórias

de quem não sabia ler.

Amou-me como minha mãe,

despediu-se como se voltasse,

encontro-a vezes e vezes

nas retas da decisão,

Maria foi seu nome,

vai e vem nas vagas do tempo

nas curvas do coração.

Emílio Casanova, in "ninguém compra".
497

De mim III



tive um "Zé" como vô

pequeno magro e teimoso

tinha um olho castanho outro esverdeado

nutria amor pela república

era laico por fervor

anticristo sem temor

e odiava salazar ditador,

fazia sapatos

plantava couves cenouras e batatas

andou pelas linhas da

ferrovia,

enviuvou d'uma viúva

com quem se juntou

que lhe dizia...Zé faz isto...

faz aquilo...Zé não fazia...

fez-lhe três filhos uma vez

como quem diz...aqui tens...

morreu feliz aos noventa e seis

apertando-me a mão

como quem pede perdão

por males que não fez...

Emílio Casanova, in "Coisas do Coração"
439

Tudo

Tudo trago no meu peito

Todas as pessoas que conheci

Todas as ambições que sonhei

Todos os erros que cometi

Todas as paixões que adorei

Todos os lugares por onde passei

Todos os portos onde desembarquei

Todas as ilusões que alimentei

Todas e todos estão sempre em mim

Bem dentro do coração

Tão cheio que está sempre aberto



Emílio Casanova, in " Coisas do Coração"
477

amor amor amor

amor amor amor
de que tu és feito?
brigas zangas amuas
tão imperfeito amor..
esqueces voltas perdoas
tão perfeito...só tu amor
que sabor teria a vida
sem ti...AMOR
Emílio Casanova. in "Coisas do Coração"
535

ilusão

trago em minha mão
na palma gravado
curvas lidas
por sinasde incompreensão
sulcos de solidão

trago no meu rosto
rugas de cansaço
que inundam meus olhos
buscando no seu traço
leitos de rios navegados
cúmplices de prazeres
na memória do tempo

trago na minha boca
o sabor amargo doce
dos teus lábios
feridos de solidão
marcados de ilusão
em ilusão

Emílio Casanova, in "Coisas do Coração"
458

sem título

Sufocas-me com teus sentidos

absorventes

vigilantes desconfiados incrédulos

caminhas no sentido da contramão

interiorizaste nos propósitos a postura

inflexível dono patrão.

Coloca os inversos na tua mente

percorre-te pelo teu consciente

passado o labirinto terás a coragem

assumir os erros passados

passar adiante confiante.

Não te percas no ciúme

na posse

no só para mim.

Terás eternos amores

se acolheres a dádiva do perdão

liberdade dos sentimentos

frontalidade da verdade,

se não enganares teu coração.


Emílio Casanova
468

Insónia

Insónia

no silêncio das minhas noites claras

faço longas travessias sem destino

nas esquinas escuras do meu quarto

revejo caras e corpos

uns familiares outros opacos

deformados por nunca vistos

galopam sentimentos ritmados

ao compasso do brilho
dos néons iluminados

que penetram as frestas das janelas

dobras de lençol ondulam meu corpo

almofadas envolvem meu rosto

tac tic tic tac dança o tempo

noite branca sem rosto quente

que aspiras da minha insónia

angústias arrependimentos

remorsos por falta de coragem

não sabes que a humana liberdade

é prisioneira da minha mente

odeio teu poder que me impede

de adormecer
498

amei-te uma noite

amei-te uma noite...
quando a janela se abriu estilhaçando
silêncios monotonias e pausas...
corri apressadamente com inimigo
vento na mente,
a calma da aurora queria silenciosamente
sossegar a agitada noite dos amantes,
deixei-te enleada na alvura de lençóis
amarrotados pelo esforço caloroso
da noite comungada nos nossos corpos
vivos de alegres amorosos,
fechada a janela como quem guarda
um segredo ...
voltei a ti voltei a mim
na procura do silêncio descansado
do amor partilhado,
reencontrei-te na encruzulhada de uma paz
de repouso, e de ãnsia de uma nova refrega.... entregámo-nos como se o dia fosse acabar,
nem os vidros estilhaçados da janela
que o vento matinal primaveril,
quebrou união poderosa de dois corpos em extâse
Emílio Casanova, in "Maria
460

Perdeu

Acordei com pressentimento de quem perdeu,

Amargo sabor de estado desejado,

Inalcansado.

Sentimentos cruzados num labirinto fechado

Qual fervor imaterial que pereceu.

Partiste musa minha,

Alicerce de meus devaneios poéticos,

Âncora de amor querido,

Partiste pelos caminhos da realidade,

Rompendo a magia de flashes de felicidade.

Te encontrar não preciso,

Existes no meu sangue

Circulas em mim em espirais eternas

Que florescem em renovadas primaveras.

Quem te perdeu...não sei, sei que não fui eu.

Emílio Casanova, in "Graça"
571

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