Perdeu
Acordei com pressentimento de quem perdeu,
Amargo sabor de estado desejado,
Inalcansado.
Sentimentos cruzados num labirinto fechado
Qual fervor imaterial que pereceu.
Partiste musa minha,
Alicerce de meus devaneios poéticos,
Âncora de amor querido,
Partiste pelos caminhos da realidade,
Rompendo a magia de flashes de felicidade.
Te encontrar não preciso,
Existes no meu sangue
Circulas em mim em espirais eternas
Que florescem em renovadas primaveras.
Quem te perdeu...não sei, sei que não fui eu.
Emílio Casanova, in "Graça"
Insónia
Insónia
no silêncio das minhas noites claras
faço longas travessias sem destino
nas esquinas escuras do meu quarto
revejo caras e corpos
uns familiares outros opacos
deformados por nunca vistos
galopam sentimentos ritmados
ao compasso do brilho
dos néons iluminados
que penetram as frestas das janelas
dobras de lençol ondulam meu corpo
almofadas envolvem meu rosto
tac tic tic tac dança o tempo
noite branca sem rosto quente
que aspiras da minha insónia
angústias arrependimentos
remorsos por falta de coragem
não sabes que a humana liberdade
é prisioneira da minha mente
odeio teu poder que me impede
de adormecer
sobressaltos
no horizonte ilha refúgio vem à mente
deliciados instantes de recolhimento
inércia almejada de cansados neurónios
por longa e intensa jornada de meios séculos corridos
construtor de castelos de sonhos frustrados fui
muralhas de fantasia em areias desérticas movediças ergui
templos prazeres orgias rodearam-me em espirais triangulares
olhos ciliares de idolatria ciúme ódio mordomia vi
elevadas pírâmides efêmeras débeis doentes subi
dantescos labirintos em desumanas labaredas atravessei
na procura de puras almas que salvei
décadas sobre décadas caminhando
perfeito Ulisses navegando minha Ilha sem regresso busquei
peregrinando sonhos ideologias a quatro continentes aportei
tudo percorri na procura de mim
agora ilhado em Ilha do sem fim
liberto nas asas das palavras insubmissas da poesia
cálices de sentimentos submersos cristalizados no Tempo
em paz transbordam de mim
Emílio Casanova, in "palavras ninguém compra".
De mim II
Na minha infância conheci
um padre ladrão,
roubava almas,
tinha alcunha de pata larga
e queria que lhe beijasse a mão.
Uma vez mãe manuela pediu-lhe conselho
...que fazer com joaquim estudar ou trabalhar...
...estudar qual quê...melhor é ir trabalhar...
...vai para oleiro....
afirmou padre sem arrepio
que da olaria era senhorio.
Bisavó maria afiançava que ele
no forno da olaria de satanás ardia.
Emílio Casanova, in "ninguém compra".
Ofício do Verso
Estranho perturbante mesmo, desafiador...
Que me fez pegar num livrinho estreito
de cento e trinta e seis páginas,
relato de uma lição de J.L.Borges sobre esse ofício do verso,
para ocupar meu tempo da barca entre a Ilha da poesia e a Praça XV ?
Saber que temos a mesma idade eu, que agora o leio,
ele que nesse tempo o escreveu.
Como ele eu acredito...poesia é paixão...poesia é prazer...
como eu penso que a minha vida hoje é poesia...
ele escreve a vida é feita de poesia...
E como ele, sei que a poesia salta sobre nós no instante...a qualquer instante.
Que bom Jorge Luís Borges ter-te encontrado numa esquina do tempo
enquanto fazia a travessia lendo tua lição inglesa do verso à poesia...
Coincidência Jorge ? Não !
Já te conhecia.
Emílio Casanova
metade
da minha liberdade...sou uma metade
metade é minha sombra
metade é minha luz
que me completam
por ela arrasto melancolias
que me confundem o fim de tarde
onde morrem os dias
metade verso
outra metade inverso
arrastando a noite
aguardo a metade dia
Emílio Casanova
Triste
Triste...
Nesta triste e vil situação que atravesso
sinto o seu abraço de ternura
que me conforta...
No tumulto tortuoso dum quotidiano amargo
reavivo o seu cheiro perfumado
que me reanima...
Num viver sem vida, desértico e sombrio
reaprendo o seu amor quente e húmido
que me alimenta...
Até quando ... Até quando...
Emilio Casanova, "Coisas do Coração"
Noite
Noite
O dia hoje tem cor de noite
instável inseguro prenuncia
chuva relâmpagos trovões
fica-se assim como criança
limitada na sua liberdade de
infância.
Desagua-se então como
formigueiro no shopping
das fantasias onde não há
dinheiro mas luzes e alegrias.
Pseudo, falsas sim. As verdadeiras
só nos olhos das crianças...
miram ... remiram
brinquedos doces . Lembranças.
quem veste a veste de pai
natal neste e noutros natais
quem ainda, haverá quem
à meia noite espere ansioso
pelo sapatinho.
A noite fez-se dia só criança
sorria.
Emílio Casanova
outro tempo
No teu perfume cobri-me de odores de mil e uma noites
Fluí nas ondas étereas da magia de tua cama feita tapete
Percorri florestas incandescentes pelos raios de sol do meio dia
Borboleteei entre pétalas douradas com mil cores
Abri minhas veias aos raios prateados da lua
Cobri-me de mantos e mantos de véus da via látea
Estrelados no deserto da escuridão com vaga lumes
Naveguei por entremares pelo sonho pela ilusão
Voei sem asas nas ondas da tua louca inspiração
Entreguei-me nas tuas mãos trémulas sôfregas de desejo
Gozei sofrido perseguindo um tempo cruel desumano
Fomos felizes no momento de outros tempos.
Emílio Casanova
Copa minha
acordei com o sol brincando com meus cabelos
na cama,
senti seus longos dedos matinais primaveris,
acariciando meus olhos
sonolentamente preguiçosos, bocejei.
Decididamente larguei lençóis e almofadas,
sai para a calçada mais pisada da
adorada Copacabana...
Misturei-me com caríocas apressados
em caminhar, caminhar por caminhar,
muitos sem olhar
para a beleza do mar,
como carreiros humanos de formigas,
rotinados autómatos...
e as belas ondas do mar ali,
tão perto do olhar.
Passei por Drummond eternamente
sentado... por Dorival carregando seu violão,
poeta e músico que se deliciaram
com as curvas das belas e da princezinha do mar...
Levantei meu olhar até ao Pão d'Açúcar
invocando deuses e Iemanjá ,
lamentando a vã ilusão humana ... quando não temos
queremos quando temos não vemos...
Copa bela Copa
beleza como a tua não há...
Emílio Csanova, in "ninguém compra"