Fábio Romeiro Gullo (1980, Santos, SP, Brasil) é escritor, tradutor, crítico literário e artista multimídia, com textos e trabalhos visuais publicados em sites, blogs e revistas eletrônicas.
não tem almíscar seu cerrado entre dois morros ermos (dessas terras fui pioneiro) alvos onde cílios voleiam luz (braços dados conheço-a desperta quando sinto seus cílios varrendo os pelos do meu peito), sua voz apesar da lua e da rede elétrica (veias e artérias à noite forca sem cadafalso de dia) sempre a morte de esguelha como se não a pudéssemos advinhar mordida pelas décadas (espero) de sarro (i. é., nosso amor) que lhe tiraremos ainda à surdina
536
poeira
após o princípio foi a palavra caindo sobre tudo
partícul- a partícula
letr- a letra
até que nada restasse à vista exceto a língua cobrindo o mundo
camad- a camada
opaca como poeira
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uma viagem solitária
apesar da paisagem a poesia su- porta o pesar por só estar- mos de passagem
560
âncoras
Uma mãozinha fofa, uns labiozinhos molhados sempre limpos, uma vozinha que já a descreve o diminutivo; irmão, irmã, filho - então um atropelamento imaginado e nada mais, mentira, lágrimas irreais de verdadeiras por não terem a coragem de reconhecer o corpo - abismo, buraco, poço -, tampouco de imaginá-lo desfigurado: ficaram fotos, filmes e sua significância para a lembrança - fêmea efêmera -, âncoras no mar da infância.
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ídolos
Mais que fulguram, os deuses figuram: pinturas,vitrais, frequentemente ex-culturas - pés de barro - cujos olhos encerram onisciência de ótica e cuja voz ouvimos em respeitoso e sagrado silêncio, ou talvez: e cuja voz ouvimos, repletos de respeito: o sagrado silêncio...
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estação qualquer
ontem meu amigo se atirou nos trilhos do trem e não houve quem se atirasse postumamente nem para salvá-lo nem para imitá-lo covardes
compareceram ao enterro, porém exceto os mais covardes dentre
eu o vi se atirar e não me atirei tampouco compareci ao seu enterro morrendo de medo dos mortos, como morro
mas atirarei flores aos trilhos da estação ano sim ano não sabendo que, como todos, há muito me atirei de uma estação qualquer e apenas caio como um lenço ao vento