Lista de Poemas

PERGE

A maior de todas as desilusões
Causada pela maior de todas as ilusões
A maior de todas as verdades
Causada pela maior de todas as mentiras
Percorrendo o mundo à procura do tudo por nada
Enganado pelo encantamento
Dissolvido foi o sentimento
De um sentido sem sentido
Um coração foi partido

A realidade nua e crua
Quando o encanto se quebrou
Abatido ficou a alma
Mas calma, calma!
Trazido foi para o mundo real
O tempo deixa a marca, mas fecha a ferida
Se cair, levante-se e caminhe
Por coisa difícil ser é o amor
E se a escuridão vier
Corra para a luz

Ninguém pode tirar tudo o que conquistou
Tudo o que é bom, justo e agradável
Das pérolas e diamantes
Pedras cintilantes

Mas, se ainda assim a tristeza vier, não pare
Vença as areias da vida
Com resilientes pegadas
Olhe para o céu sem véu
Peça forças ao Criador
E sem o menor temor
Não pare, siga!
210

EXANIMATIONES INCIDAMOS IV

Há um chicote que fere

— Prisioneiro e carcereiro 
porque a tua maldade não cessa?

Há lágrimas num sorriso
Quem pode ver, senão os céus!

Há solidão na multidão
O que transita num mundo sem cor

Há um grito mudo
Quem ouve a silenciosa dor?

Há um pedido decifrável
é urgente
decifremos a tempo

Há alguém para alguém
E se não houver?

 Há esperança
171

O DESNUDO

Falar do ser desnudo é insidioso
Não é como um ser normal em seu viver
Conquanto os dois sejam sujeitos a sofrer
Por vezes, o desnudo não é maldoso

Não é como julgar o ser perverso
O desnudo erra, faz careta e não esconde
É enganado nas perguntas que responde
Mas, sabendo o fato, sofre em seu reverso

Seus ossos são iguais aos de qualquer criatura
Entretanto, totalmente decifráveis
Acusam o corpo em mentiras (são instáveis)
Ao serem incitados por sua mente in natura 

Os ossos que mantém a mentira: os do rosto
Os que sustentam o olhar em cólera serena
E o ranger de dentes em sintonia plena
Aos desnudos são os ossos do desgosto:

Ossos do ofício.
186

TEU AMOR ME CUSTA

Teu amor me custa
Morde e assopra a ferida
E não percebes inflamar
Teu amor me dá febre
E o calafrio me impede sonhar
Procuro a claridade, mas não acho
Em trevas me cobras
Há uma máscara que (tu)sorris para o mundo
Outra que choras em ocasiões especiais
E mais outra com que me amas
Tu feres sem bálsamo
E eu convulsiono a alma.
Teu amor me custa, e não tenho como pagar 
(E mesmo que eu pagasse, ainda assim estaria condenado)
Teu amor é prisão
Teu amor é solidão
Teu amor é tudo, menos amor
Pô, tu não me amas!

184

FLERTE

Espreito de canto de olho
Insinuações contidas
Em tua forma de sentar-se
No que hesitas, não escolho
Tampouco nego (e quero)
Não na forma, contudo, no olhar
A tua chama a me chamar
No que levantas, flertas
Com todos tua beleza
Todavia, quando percebes...
Ao meu notar, te desconcertas
Tu inclinas a cabeça...
O que te sentes, doce dama?
Que seja toda sua chama
Porque te espero em cada olhar...

 

204

A NOSSA VERGONHA

Tanta coisa para fazer
Correr, correr sem saber andar
Assim começa a vida para muita gente
E como machuca tentar!
Sair de um buraco que mais parece um poço sem fundo
Profissão: enxugador de gelo
Desistir jamais, esperança sempre
Porque é hora de preparar o solo seco e torrado
A chibata do sol castigando a pele que já virou couro Curtido
Semeia olhando para o céu pedindo “Misericórdia, Senhor!”
E a autoridade do outro lado da cerca na dúvida se almoça lagosta ou salmão
Sugiro que pule a cerca e veja a lavoura do enxugador de gelo
Mas há quem prefira ficar e ouvir Ivan Dzerzhinsky
De qualquer forma essa gente continuará correndo
Porque sobreviver é preciso.
210

JARDIM BOTÂNICO – PRELÚDIO

- Ⅰ -
Há um orvalho que desce e corre em direção a carne
No inverno: senti à meia-noite na praça Itália
No andar apressado, na solidão da noite
O vapor gélido persegue a alma e diz: 
— Passo manso que te alcanço, apressa-te para eu te ferir os ossos na esquina da Sabbag
Ruas dizem o destino das lareiras: prédios redondos 
Há lembranças impregnadas do inverno curitibano
Dos estrangeiros acolhidos no jardim do Éden


- ⅠⅠ -
Há uma brisa suave e doce nos dias de verão
Que se renovam a cada manhã: senti ao meio-dia no Botânico 
Deitado na relva, afagado pelo céu
Ventos levitam a mente pesada, dissipa o cinzento 
Os olhos se abrem ante o fulgor do dia
Um espelho d’água reflete o infinito 
E os mistérios da vida se abrem no pergaminho da esperança
Há uma pequena mata com trilhas que levam para além da morte
Penso ser aos andantes, o renovar da carne e o conservar dos ossos

 
- ⅠⅠⅠ -
Retas de pedras, abertas sem ermo
O sol se levanta e a relva floresce
O viver da lembrança levada a bom termo
Em paz, na esperança, a vida efervesce

Há uma saudade que fica na esquina da memória
Olho e apenas varais se acham além da realidade

Os dias se vão e o passado implica
No que foi, e o que pode ser
A mente explica, mas a saudade fica
Da cerejeira: a sua sombra ter

 

 

 

189

ALMA

O sono, um sonho. Desperto
Corpo e espírito entrelaçados
Pois, os tenho desejados
Na jornada, sem ser um deserto

Um oásis esverdeia ao redor
Intacto, e assim seja a vida
Essencialmente enaltecida
E que dela, se extraia o melhor
181

NÃO ME BASTA A TERRA O CALOR

Não me basta a Terra o calor
As águas ao céu elevar-se
Às nuvens, e então despencar-se
Trazendo a mim o frescor

Não me basta a luz clarear
O dia, que à noite dormiu
Nem a noite, do sol que partiu
Se a luz dela a mim não chegar

Não me basta a boca dizer:
Esqueça esse amor, é melhor!
Pois em meu coração é maior
Essa falta que só faz doer

Mas, se a vida a mim me propor
Que o frescor e a luz venham dela
A minha amada, luzente flor bela
Transbordante serei de amor

 
188

PRÓXIMO DE CASA

As vezes que saio ao mercado
Passo por um lugar estranho, próximo de casa
Uma esquina que leva desprevenidos à cova rasa
E no fim da rua fica um de feitio fechado
Creio ser o coveiro bebendo água na esquina
No caminho do mercado, estranho também aos gatos
Lugar (em sua maioria) dominado pelos ratos
Está dona Margota encostada no muro: a sua sina

Nesse lugar estranho, tem o que não diz ‘boa noite!’
Porém, seu olhar acompanha uma alma até o cemitério
Tal como a coruja compenetrada num mistério
De alguém correndo do estalar de um açoite

Estranho não ver mais o gambá na madrugada
Anormal que se tornou habitual nesse lugar estranho
À meia-noite, passeava, talvez para um banho
Ou quem sabe, para encontrar a amada

O sol queima no verão sem sombra
A alma insola nesse lugar que assombra
De tanto andar, meu corpo dá câimbra

O que a mim não é estranho são as donas de casa
Andam com um sorriso largo nas maçãs do rosto
Vão e vem, bailando, vivendo com bom gosto
Nesse lugar, não se preocupam com a cova rasa

Tem também nesse lugar aquele que diz:
— Você vai ganhar na loteria hoje
Outro:
— Hum! Você está magrinho
E outra:
— Você não tem onde cair morto
E tem o manco, uma fingidora, o bêbado, as más línguas,
O carro do ovo, da fruta, do pão, do gás, do...
E.
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