De tudo o que importa nessa vida Sua lembrança em meu último suspiro Minha Lua, doce Lua minha Em sua estrada havia atalhos Que Fizeram meus olhos caminharem em seus olhos Quando você nasceu, morri Minha vida esvaiu-se Vi seu choro me abraçando E o seu olhar me beijando. E te abracei como nunca, Te beijei como nunca, Lua Estrela! Ah, quem me dera te ver correndo A perder de vista encontrando a felicidade! Quem me dera te ver correndo Para os meus braços nesse mundo frágil… Você foi minha guerreira imortal A luta não foi em vão Linda é sua coroa! Fez-me ver o invisível E era tanta luz a te envolver! Nasceu para cumprir a eterna felicidade Para banhar-me de luz E eu estando morto, revivesse Sempre te alcançarei minha menina Até então te vejo de longe Para te encontrar sempre Sempre e sempre andaremos juntos… *(em memória)
Como tu danças! É arte, e fazes dela (ofício) O tempo é teus pés flutuando Na música que te convida A celebrar a vida
Como te soltas nos passos! Faz-me como ante o mar Sentindo as ondas Me levar nos movimentos
Transladas como a Terra Trazendo as estações E a paixão que libertas Encontra outra dimensão A Alma repleta No pórtico da arte
Como tu vives!...
202
CORAÇÃO PIEDOSO
Desejo um coração piedoso. O que não se acha orgulhoso,
o que não sabe fazer contas e que transborda em horas tantas... Ó coração, como me encantas por fazeres das tuas mãos, santas!
Com gestos de amor, tu alivias tais pobres vidas arredias...
E não te cansas, caridoso: o bebê órfão, tu acalantas no doce colo, em noites frias.
*(rima jotabé)
195
O PESSIMISTA
Há um defunto sempre pronto na boca de um pessimista Ah, morte morte certa é a morte! Oh, vida vida breve é a vida que segue de forma atabalhoada!
Entre mais ou menos ou quem sabe, toca-se as horas Mas tudo é nebuloso, emperrado e incerto Nesse mundo difícil de dar certo E quem pensar o contrário é louco varrido
220
NÃO ME ABANDONE
Céus, esperança! Não aprontes comigo Se fores embora Deixares minha vida Quem de mim cuidará?
220
ALMA
O sono, um sonho. Desperto Corpo e espírito entrelaçados Pois, os tenho desejados Na jornada, sem ser um deserto
Um oásis esverdeia ao redor Intacto, e assim seja a vida Essencialmente enaltecida E que dela, se extraia o melhor
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AMOR ANALFABETO
Se eu pudesse em uma palavra abrandar seu dia Se num pequeno gesto eu fizesse você sorrir Sentiria sua ternura e meu prazer conseguiria Ser maior que minha tristeza no porvir
Porque desejo a suavidade de um momento Paz no coração ao suspirar sua beleza A leveza de andar em contentamento Vencendo a real vida com destreza
Desejo a plenitude da sua serenidade Impelir o dia ruim a sair do meu caminho Desejo os ares livres da maldade Vendo o sol realçar-te de puro linho
Tão delicada! Suas mãos me tocando como veludo Tão amada! Sua inocência me conquistando por completo Pois, que ao conseguir abrandar seu dia transmudo Ao fazer você sorrir, sinto o meu amor analfabeto
195
BRUMAS DE OUTONO
raia a aurora em brumas de outono um véu cobre meus olhos nesse dia, mas um vento permeia como raio de luz a dizer-me: não tens mais um coração seco como folhas amareladas caindo no chão, sem sentido no caminhar
as folhas caem e pousam mexem-se e remexem-se no chão levadas pelo vento
quando caio, pouso e me levanto não me remexo, apenas sigo, apenas sinto o sumir das brumas e o ar fresco de um dia de outono.
195
TODOS OS DIAS SÃO DIAS
Tão logo aponta o dia, o cantar do pardal Escolho o destino deste mundo, que me vem em retalhos E me diz a rotina dos dias, do levantar-se e cursar
Começo a remendar uma estrada Para caminhar do bocejo ao sono Um tapete vermelho Quero um tapete vermelho sobre os remendos Um sossego, sossego de rei Ao saborear a alegria do povo Um banquete diário quero Um caminho notável Aconchego da igualdade
Remendo meus dias, uso linha forte… São dias de renovo, dias de arrepender-se Dias de perdoar, sim, de esquecer
BOM DIA!
Dias de acolher e descansar De dizer palavras mágicas Dias de acalentos Incansáveis dias Diariamente Dias de criança Inesgotáveis Afáveis Inefáveis, escolho
205
NÃO ME BASTA A TERRA O CALOR
Não me basta a Terra o calor As águas ao céu elevar-se Às nuvens, e então despencar-se Trazendo a mim o frescor
Não me basta a luz clarear O dia, que à noite dormiu Nem a noite, do sol que partiu Se a luz dela a mim não chegar
Não me basta a boca dizer: Esqueça esse amor, é melhor! Pois em meu coração é maior Essa falta que só faz doer
Mas, se a vida a mim me propor Que o frescor e a luz venham dela A minha amada, luzente flor bela Transbordante serei de amor
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PRÓXIMO DE CASA
As vezes que saio ao mercado Passo por um lugar estranho, próximo de casa Uma esquina que leva desprevenidos à cova rasa E no fim da rua fica um de feitio fechado Creio ser o coveiro bebendo água na esquina No caminho do mercado, estranho também aos gatos Lugar (em sua maioria) dominado pelos ratos Está dona Margota encostada no muro: a sua sina
Nesse lugar estranho, tem o que não diz ‘boa noite!’ Porém, seu olhar acompanha uma alma até o cemitério Tal como a coruja compenetrada num mistério De alguém correndo do estalar de um açoite
Estranho não ver mais o gambá na madrugada Anormal que se tornou habitual nesse lugar estranho À meia-noite, passeava, talvez para um banho Ou quem sabe, para encontrar a amada
O sol queima no verão sem sombra A alma insola nesse lugar que assombra De tanto andar, meu corpo dá câimbra
O que a mim não é estranho são as donas de casa Andam com um sorriso largo nas maçãs do rosto Vão e vem, bailando, vivendo com bom gosto Nesse lugar, não se preocupam com a cova rasa
Tem também nesse lugar aquele que diz: — Você vai ganhar na loteria hoje Outro: — Hum! Você está magrinho E outra: — Você não tem onde cair morto E tem o manco, uma fingidora, o bêbado, as más línguas, O carro do ovo, da fruta, do pão, do gás, do... E.